Mapeamento destaca projetos educacionais baianos que integram ciência, tecnologia e artes
- Projeto em Barreiras mobiliza estudantes para enfrentar os desafios de segurança no trânsito na BR-135
- Por meio de produção de filmes, “TV Futuca Broadcast” reduz evasão escolar, eleva IDEB e prepara jovens para o mercado audiovisual em Camaçari
- Já em Pojuca, iniciativa de alunas do 8º ano promove igualdade de gênero e reutilização de lixo eletrônico, inspirando nova geração de meninas na tecnologia
Um mapeamento inédito realizado pelo Itaú Social, em parceria com o Instituto Catalisador, destaca como professores e pesquisadores do estado da Bahia estão transformando o ensino ao adotar a abordagem STEAM — sigla que, em português, representa a união entre Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática.
Segundo Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, “os educadores têm mostrado uma capacidade inspiradora de criar projetos que integram conteúdos de forma dinâmica, fortalecendo a confiança dos alunos e incentivando-os a enxergar seu potencial para impactar a realidade.” No estado, diversas iniciativas se destacam por estimular a curiosidade, o protagonismo dos alunos e conectar o aprendizado com desafios reais da comunidade. Conheça algumas:
Estudantes desenvolvem aplicativo para o trânsito em Barreiras
Um grupo de estudantes de Barreiras, no oeste da Bahia, está chamando a atenção para a segurança no trânsito com o projeto PARE: Performance, Arte, Respeito e Educação no Trânsito. Idealizado pela professora Lucivânia Pereira dos Santos, o projeto une fanfarras, tecnologia e ações performáticas para sensibilizar motoristas e pedestres sobre a importância de um trânsito mais seguro.
A iniciativa surgiu a partir da dificuldade enfrentada pela população ao atravessar faixas na BR-135, local com alto índice de acidentes. “Nosso objetivo é despertar a consciência de todos para a responsabilidade compartilhada no trânsito. A arte e a tecnologia se tornaram ferramentas poderosas para mobilizar a comunidade e propor mudanças”, afirma Lucivânia.
Inicialmente, os alunos, orientados por professores de português, arte, fotografia, física e robótica, fizeram pesquisas e revisões bibliográficas sobre o tema. A principal ação foi uma performance na BR-135, com fanfarras de duas escolas locais, que exigiu articulação com a Secretaria de Segurança Pública, o Conselho Nacional de Trânsito e a Secretaria de Transporte do município para garantir a segurança e a logística do evento. A apresentação, cuidadosamente ensaiada, parou o trânsito – no melhor sentido – e conquistou o apoio de motoristas, que parabenizaram a iniciativa.
Os resultados foram além da conscientização. Seis dias após a performance, a prefeitura de Barreiras retocou a pintura da faixa de pedestre da BR-135, tornando-a mais visível. Além disso, a Secretaria de Segurança Pública convidou os estudantes para integrar a programação da Semana Nacional do Trânsito, reconhecendo o impacto do projeto.
O PARE também inspirou inovações tecnológicas. Os alunos desenvolveram um semáforo inteligente, apresentado na Mostra Nacional de Robótica, e criaram jogos interativos com plataformas como Scratch e App Inventor, ampliando o alcance educativo da iniciativa.
Iniciativa ensina alunos de escolas públicas a criarem curtas-metragens
Criado pelo professor Luciano Augusto Oliveira de Santana, o projeto TV Futuca Broadcast tem transformado a vida de aproximadamente 60 jovens em Camaçari, Bahia, capacitando-os para criar filmes curta-metragens e conteúdos audiovisuais. Desenvolvido entre 2014 e 2023, com continuidade em 2024, o programa, cujo nome é inspirado no termo nordestino que significa “cutucar a ferida”, reflete a proposta de discutir questões sociais relevantes, oportunizando inclusão e conscientização.
A iniciativa oferece uma formação de 320 horas ao longo de oito meses e prepara os estudantes para atuar em todas as etapas da criação audiovisual, integrando aulas teóricas e práticas que abrangem desde escrita criativa até pós-produção, incluindo roteiro, produção sonora, fotografia e filmagem. O projeto culmina na participação dos alunos em eventos locais, como a Mostra de Filmes Educa7minutos, na qual dois curtas produzidos em 2024 conquistaram o 2º lugar.
Além da produção de filmes, o projeto promove oficinas de audiovisual e a cobertura de eventos escolares, incluindo a criação de um videocast durante o “Dia D da Família na Escola”, em 2024, com participação de alunos e convidados. Diversos vídeos curtos também foram produzidos, reforçando o engajamento dos estudantes com as plataformas digitais. “Nosso objetivo é transformar esses jovens de consumidores passivos de mídia em produtores de conteúdos relevantes, que provoquem reflexão e debate sobre questões sociais”, afirma Luciano Augusto.
Os resultados são notáveis: 90% dos filmes produzidos entre 2014 e 2023 foram premiados em mostras locais, com redução da evasão escolar, aumento das notas do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e maior envolvimento nas práticas pedagógicas. As atividades também fortaleceram laços entre pais, professores e alunos, conquistando apoio de microempresários e reconhecimento de uma instituição nacional de transporte público e de um instituto renomado. Em 2024, Luciano Augusto foi agraciado com o prêmio “Dignidade para Quem Faz Educação – Pública, Democrática e Emancipadora”, que celebra educadores que saem da zona de conforto para promover a transformação social.
Além disso, o TV Futuca Broadcast dá voz a jovens de diferentes etnias, religiões, gêneros e contextos socioeconômicos, abordando temas sensíveis que afetam populações vulneráveis. A iniciativa também oferece perspectivas de sustento para famílias em vulnerabilidade socioeconômica, capacitando alunos para o mercado audiovisual, que cresce com plataformas como YouTube e TikTok.
Atualmente, a equipe busca incorporar o projeto de forma definitiva à matriz pedagógica da escola, ampliando seu impacto.
Meninas de Pojuca criam robôs com lixo eletrônico e promovem igualdade de gênero
Em Pojuca, um grupo de alunas do 8º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Professor Francisco Magalhães Neto está redefinindo o papel das mulheres na tecnologia com o projeto RobôDelas. Iniciado com o objetivo de promover a inclusão feminina na robótica e conscientizar sobre a preservação ambiental, o projeto utiliza lixo eletrônico para construir robôs, combinando criatividade, inovação e sustentabilidade. Agora, em sua segunda etapa, a iniciativa continua a inspirar novas estudantes e a engajar a comunidade escolar.
Desenvolvido pelo professor de robótica Manassés Fernandes Costa Neto, o RobôDelas surgiu da percepção das alunas sobre a desigualdade de gênero na tecnologia. “Ver as meninas superarem estereótipos e construírem robôs com materiais descartados é a prova de que talento e criatividade não têm gênero”, afirma o professor. As estudantes, muitas sem experiência prévia em robótica, enfrentaram desafios como a coleta e separação de lixo eletrônico, além da necessidade de desenvolver habilidades técnicas para a construção de protótipos e robôs funcionais.
O processo envolveu desde a mobilização da comunidade para doação de materiais descartados até a exposição dos robôs, que atraiu a atenção de toda a escola. A iniciativa não só promoveu a conscientização ambiental, mas também demonstrou o potencial das mulheres em áreas técnicas. Formulários aplicados após as apresentações revelaram que a maioria do público, predominantemente masculino, passou a reconhecer a capacidade feminina na robótica, reforçando o impacto do projeto na quebra de estereótipos.
A participação em feiras científicas e entrevistas em rádios locais trouxe visibilidade às alunas, que também experimentaram um aumento na autoestima e no engajamento escolar. O orgulho das famílias, especialmente das mães, foi um fator fundamental para o sucesso do projeto, que continua a inspirar novas gerações de meninas a explorar carreiras em ciência e tecnologia. Com a nova fase do RobôDelas, as fundadoras seguem como mentoras, guiando a próxima turma e consolidando a iniciativa como um marco de inclusão e sustentabilidade em Pojuca.
Sobre o mapeamento
O levantamento de práticas focadas na abordagem STEAM foi conduzido em cinco etapas e contou com a participação de professores de todas as regiões do país, totalizando 240 relatos recebidos, dos quais 121 foram voltados especificamente aos Anos Finais do Ensino Fundamental. As ações variam desde projetos simples e acessíveis até iniciativas mais complexas, todas com o objetivo comum de proporcionar um aprendizado envolvente, significativo e conectado à realidade dos estudantes.
Entre os principais objetivos do mapeamento estão:
- Compreender como a abordagem STEAM é aplicada de forma criativa, significativa e autoral na educação formal brasileira.
- Oferecer referências concretas de práticas bem-sucedidas, evidenciando o impacto positivo no engajamento e no desenvolvimento de habilidades dos alunos.
- Disponibilizar recomendações, ferramentas para planejamento e avaliação, e exemplos inspiradores para educadores de todo o país.
- Valorizar a diversidade territorial e cultural das iniciativas educacionais brasileiras, respondendo à pergunta: “O que é o STEAM com a cara do Brasil?”.
