Aldeia Nagô
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Não existem renúncias entre as grandes estrelas do carnaval de Salvador. Por Climaco Dias

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Daniela Mercury, querendo posar de benemérita do carnaval de Salvador, por ter “colonizado” a Barra, reivindica o primeiro lugar na fila do desfile mudando até a narrativa histórica da festa.

Antes de avançarmos nos fatos históricos, quero deixar claro que sou contra antiguidade ser posto, pelo fato de esse critério ter sido inventado pelos grupos mais poderosos do carnaval e ele sempre ter sido fonte de denúncias de corrupção e/ou disputas judiciais.

As vagas da frente, com o empoderamento econômico crescente das estrelas, passaram a ser compradas por estas, em uma flagrante demonstração de desrespeito ao critério. Por isso, sempre fui a favor do sorteio anual, assim que terminasse o carnaval. Mas os negócios jamais permitiriam ou permitirão esse critério. Ser primeiro foge de atrasos e permite às estrelas se apresentarem em camarotes, viajarem para outros lugares ou terem mais tempo de descanso.

Daniela tenta passar a imagem de benemérita, por ter sido a primeira grande estrela a “descer” para a Barra.

Daniela desceu para Barra sendo a maior estrela do carnaval e isso provocou uma desestruturação tão grande no Campo Grande, que este até hoje não conseguiu se recuperar.

E por que Daniela desceu? espírito de pioneira vanguardista? não, espírito totalmente comercial. O seu grupo de produção já tinha observado as experiências do bloco Brother e outros blocos alternativos e, como as micaretas estavam no auge em todo Brasil, trocar um circuito que se gastava até 8 horas para se desfilar, por um que podia ser feito em até 3 horas, foi uma grande jogada comercial. Além disso, Daniela foi de fato “empreendedora” ao inaugurar o maior símbolo da segregação do carnaval: o camarote.

As outras estrelas, logo depois de perceberem o grande negócio que era a Barra, com o Axé sendo o ritmo do Brasil, desceram em revoada e havia até discursos do poder, tanto de direita como de esquerda, que o Centro estava “favelizado”.

A mudança para a Barra, comandada por Daniela, foi a consolidação da hegemonia de um pequeno número de estrelas como donas do carnaval de Salvador. Hoje elas brigam nas redes e na justiça, porque o pirão ficou pouco e ainda têm que assistir o poder público discutindo como administrar pipocas dos cariocas Anitta e de Pedro Sampaio, que foram as mais explosivas pelo afluxo de pessoas.

Grande parte do que escrevi aqui foi escrito em 2002, na minha dissertação de mestrado, e não sou um pioneiro fake na análise desses fatos, porque me ancorei em 18 relatórios oficiais do Carnaval.

Clímaco Dias é geógrafo e professor da UFBA

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