Nota zero para Francisco Bosco. Por Beta Bastos
Este texto se faz necessário a partir de uma entrevista concedida pelo filósofo Francisco Bosco à revista Veja, na qual ele afirma que “deveria haver um ajuste no discurso feminista, que deveria enfatizar uma agenda positiva para os homens”, criticando o que chama de “estigmatização” e “criminalização” masculina.
A fala, apresentada como ponderada e conciliadora, revela, na verdade, um problema recorrente, a insistência de muitos homens em querer regular, corrigir ou suavizar um movimento que não lhes pertence.
O feminismo não é um projeto de acolhimento emocional masculino, tampouco uma pedagogia voltada a preservar o conforto de quem historicamente ocupou o centro do poder.
O feminismo nasce como resposta à desigualdade estrutural, à violência de gênero e à exclusão sistemática das mulheres da esfera política, econômica e simbólica.
Quando se afirma que o discurso feminista precisa ser “ajustado” para não causar desconforto aos homens, parte-se de uma premissa equivocada, a de que a denúncia da opressão deve ser calibrada de acordo com a sensibilidade de quem se beneficia, ainda que indiretamente, dela. Isso não é diálogo; é tutela.
Há também uma confusão deliberada entre crítica ao machismo e ataque aos homens enquanto indivíduos.
O feminismo não acusa homens por existirem, mas questiona estruturas que os colocaram, por séculos, em posição de vantagem.
O incômodo surge não porque o discurso seja injusto, mas porque ele retira privilégios simbólicos, desnaturaliza papéis e rompe com a autoridade masculina de definir o que é aceitável no debate público.
É significativo que, mesmo diante de um movimento que reivindica autonomia, muitos homens ainda se sintam no direito de dizer como mulheres devem falar, agir, pensar ou priorizar suas lutas.
Essa postura reproduz exatamente o padrão que o feminismo denuncia, a crença de que a experiência masculina é o parâmetro universal.
Se jovens meninos enfrentam crises de identidade em um mundo em transformação, isso não é responsabilidade do feminismo, mas do colapso de modelos tradicionais de masculinidade que nunca foram emocionalmente saudáveis.
Resolver isso exige educação, políticas públicas e revisão crítica do papel masculino, não a domesticação de um movimento emancipatório.
O feminismo não precisa ser reescrito para caber no conforto masculino.
Ele existe para confrontar desigualdades reais, proteger vidas e garantir liberdade às mulheres.
Qualquer tentativa de condicionar essa luta à validação dos homens não representa avanço, representa resistência à mudança.
Talvez o verdadeiro “ajuste” necessário não seja no discurso feminista, mas na disposição masculina de escutar sem controlar, refletir sem centralizar e aceitar que nem toda crítica é um ataque pessoal.
Nota zero para Francisco Bosco.
