O Fujão.
Todo sábado eu atravessava a estrada entre Paulo Afonso e Delmiro Gouveia como quem atravessa um rito. Quarenta e cinco quilômetros de asfalto quente, o rádio desligado, o pensamento solto. Eu ia fazer o Balaio, um programa que não cabia apenas na programação da Rádio Delmiro FM — ele se espalhava. Pelo ar, pelas casas, pelas cidades de fronteira. Chegava à Bahia, a Alagoas, a Sergipe, a Pernambuco. Quatro estados ligados por uma mesma frequência e por uma vontade simples: escutar gente.
O Balaio era alegre sem ser raso, divertido sem perder a seriedade. Ria, mas pensava. Tocava música, mas também provocava conversa. Era um programa que misturava arte e vida como quem mistura frutas num cesto: sem hierarquia, sem frescura, tudo junto. Ali passavam músicos, artistas do teatro, do cinema, das artes plásticas, poetas improvisados, personagens da cidade que nunca tinham sido entrevistados por ninguém.
O formato era novo para a rádio local. Uma bancada de entrevistadores, várias vozes dialogando, perguntas que se cruzavam. E havia público no estúdio — gente sentada, gente rindo, gente reagindo ao vivo. O rádio ganhava corpo. Virava encontro. Virava quase praça.
Durante a semana, porém, minha vida seguia em outro ritmo.
Eu caminhava no fim da tarde. Caminhar sempre foi meu jeito de organizar o caos. Quando o sol baixava e a cidade respirava mais devagar, eu saía de casa para manter o corpo ativo e deixar os pensamentos vagarem sem direção.
Foi nessas caminhadas que o fujão apareceu.
A primeira vez foi discreta. Vinha do lado contrário da rua. Quando me viu, hesitou por um segundo — aquele segundo fino em que o medo escolhe existir — e então correu. Atravessou a rua rápido demais, como se tivesse ouvido um alarme que só ele escutava.
No dia seguinte, aconteceu de novo.
Dessa vez não houve hesitação. Ele me viu e disparou. Atravessou a rua no meio dos carros, desviou de gente, quase tropeçou. Não olhou para trás. Minha voz ficou solta no ar, sem destino.
Vieram outros dias.
Houve tardes em que ele mudou de calçada muito antes de eu chegar perto, como se meu corpo projetasse uma sombra longa demais. Houve dias em que fingiu atender o telefone, apenas para justificar a fuga. Em outros, entrou apressado numa loja qualquer, ficou parado atrás de uma vitrine, esperando que eu passasse — como quem espera o perigo seguir adiante.
Teve vezes em que ele se escondeu atrás de muros, árvores, esquinas. Como se a rua fosse um campo minado e eu, o aviso invisível.
E eu seguia sem entender.
Passei a reconhecê-lo de longe. O passo encurtado. O corpo tenso. O medo chegando antes do encontro. Às vezes eu diminuía o ritmo, tentando não assustar. Outras vezes eu mudava de calçada, oferecendo distância. Nada funcionava. Para ele, eu não era pessoa — era ameaça sem nome.
Durante um ano inteiro, eu fui isso para alguém.
E aquilo me ensinou, sem aviso, que o medo nem sempre nasce do que é ruim. Às vezes nasce apenas do que não é compreendido. O silêncio pode ser um lugar perigoso.
No rádio, eu era outra coisa.
No estúdio da Rádio Delmiro FM, eu era voz. E a voz tem forma, tem gesto, tem intenção. No Balaio, eu ria, perguntava, escutava. O programa tinha movimento, tinha calor humano. A plateia reagia, os entrevistadores se atravessavam nas perguntas, a conversa seguia viva. Ninguém precisava correr.
Até que um sábado o mistério resolveu sentar diante de mim.
Convidei uma banda local para o programa. Estúdio cheio, público acomodado, instrumentos afinados. Quando os músicos começaram a tocar, senti um reconhecimento estranho, antes mesmo de aceitar o que meus olhos viam.
O percussionista era ele.
O mesmo homem que fugia de mim nas ruas agora marcava o ritmo com precisão e calma. Cantava. Sorria. Falava ao microfone com tranquilidade. Nenhuma sombra daquele medo cotidiano. Nenhuma urgência de atravessar a rua.
Ali, diante da plateia e dos microfones, ele me ouvia. E eu existia para ele de outro modo.
O programa seguiu alegre, intenso, sério quando precisava. O Balaio girava como sempre — misturando arte, conversa e presença. E, enquanto ele falava, eu entendi: ele não tinha medo de mim. Tinha medo do vazio que me envolvia antes da voz.
Na segunda-feira, desci as escadas do prédio para caminhar.
E a cidade me ofereceu o improvável.
Ele (o fujão), estava na porta do meu prédio. Parado. Inteiro. Esperando. O homem que durante o ano inteiro atravessou ruas correndo, fugindo de mim, agora ocupava o tempo pra se aproximar. Sorriu. Disse que adorava o Balaio. Que gravava todos os programas. Que ia ligar todos os sábados e que queria caminhar comigo.
Desde então, passou a estar ali todos os dias, no mesmo horário em que antes fugia.
Nunca perguntei por que ele corria de mim.
Algumas histórias não querem ser resolvidas; querem apenas continuar respirando. Sei apenas que, enquanto eu era silêncio andando pela rua, ele me via como susto. Um vulto sem legenda, uma presença sem voz. Mas quando me ouviu no rádio, alguma coisa se ajeitou dentro dele — como quando a sintonia finalmente encaixa e o chiado vira música.
Hoje caminhamos juntos no mesmo horário em que antes ele atravessava ruas em disparada. Às vezes falamos de música, às vezes de nada. Às vezes o silêncio nos acompanha, mas já não assusta. É um silêncio manso, desses que sabem escutar.
Quando sigo para Delmiro Gouveia, todo sábado, penso que o Balaio nunca foi só um programa. Era um lugar onde as pessoas ganhavam nome antes de ganhar rosto. Onde a voz chegava primeiro e preparava o encontro. Um balaio girando no ar, espalhando humanidade pelos quatro estados, costurando distâncias que o mapa não reconhece.
Talvez o rádio faça isso: ensina o mundo a andar mais devagar. Faz o medo perder o fôlego. Troca a corrida pela caminhada.
E quando o sol começa a baixar e as sombras se alongam pela rua, eu sigo andando. Já não como ameaça, nem como mistério. Sigo como frequência. Como quem aprendeu que, no fundo, toda fuga é só um pedido de escuta — esperando, em algum lugar, por um sinal de vida mais claro.
Jorge Papapá é cantor e compositor.
