O Guerreiro sem-ossos. Por Luís Antonio Cajazeira Ramos
Eu estou fascinado por Ivar, o Desossado, o filho caçula de Ragnar Lodbrok (ou Lothbrok). Ambos pouco conhecidos por nós, é recomendável fazer uma busca no Google. Ragnar Lodbrok foi um rei lendário da Dinamarca, da Noruega e da Suécia, herói de muitas sagas nórdicas, por ter sido um dos maiores líderes vikings da história, gerando uma incrível prole de reis guerreiros, navegantes, saqueadores, conquistadores. Seu filho Ivar, um aleijado (com os membros inferiores atrofiados), comandou o Grande Exército Pagão na invasão viking da Inglaterra, que na época já apagara da memória seu passado de Britânia romana, sendo então um conglomerado de reinos anglo-saxões, unificada na sequência por Alfredo, o Grande.
Vale a pena maratonar a extensa série “Vikings” na Netflix (89 episódios!), numa mistura de fatos históricos e textos lendários, com uma boa dose de ficção dramatúrgica. Numa licença poética de adulteração histórica (algo nunca recomendável, mas que no caso funcionou bem), a série da TV se permitiu incluir como irmão e antagonista de Ragnar (como uma espécie de anti-herói) outro imenso herói viking: o rei Rollo, o primeiro duque da Normandia e um dos maiores patriarcas das principais casas reais da Europa Ocidental.
Como vemos acontecer nas melhores produções enraizadas na cultura inglesa, a trama não deixa de fora nenhum dos mui saborosos ingredientes do cardápio shakespeariano de fundo homérico: disputas fratricidas de poder, intrigas de amor e ódio, tragédias entre homens e deuses abismais. Sem dúvidas, Ragnar é um monstro encantado e terrivelmente sedutor, mas meu herói hipnótico é seu filho paralítico Ivar, o Desossado: recalcado, vingativo, perverso, cruel, sanguinário, alucinado, um improvável e legítimo guerreiro, para a glória eterna de Valhalla!
Um pouco de aprendizado de história e diversão garantida, mas vale também para refletir sobre a trajetória dos povos dos países nórdicos, aquela terra de guerreiros ensandecidos, de carniceiros insaciáveis, hoje as sociedades mais civilizadas, prósperas, justas e igualitárias do mundo.
Luis Antonio Cajazeira Ramos é Poeta e Baiano
