Aldeia Nagô
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O Revolucionário Despido. Por Galindo Luma

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Geraldo_Galindo_Luma

Eu conheci uma figura inesquecível no Facebook, amigo de amigos. Seu nome era Álvaro — ou pelo menos era assim que ele se apresentava. Um comunista de carteirinha, veterano de todas as guerras que você possa imaginar.

No perfil dele, estavam registrados “momentos históricos” dos quais ele havia participado, como na Guerra Civil Espanhola, da Revolução Cubana ao lado do Che, enfrentado os Somoza na Nicarágua, empunhado armas em Angola, Moçambique e Vietnã, e, claro, resistido bravamente à ditadura militar brasileira, onde teria sequestrado embaixadores e sobrevivido a sessões de tortura.

Eu ria muito das histórias dele, mas não tinha dúvida tratar-se de um autêntico revolucionário. Era impossível não notar as incongruências temporais — como um homem que mal aparentava ter cinquenta anos poderia ter lutado na Guerra da Coreia em 1953? —, mas a convicção com que ele narrava suas façanhas era fascinante. Em determinado momento, cheguei a marcar com ele tomarmos uma cerveja na Cinelândia, quando ele me contaria tudo pessoalmente. Infelizmente, ele morreu antes que isso acontecesse.

Mas a melhor história — aquela que justifica essa crônica — foi uma que ele postou meses antes de partir.

Álvaro morava em um apartamento no Rio e, segundo ele, frequentemente ouvia os gritos de uma mulher sendo agredida pelo marido no andar de baixo. Ele se dizia faixa-preta de jiu-jítsu, medalhista internacional, e, após meses ouvindo o sofrimento alheio, decidiu intervir.

Numa madrugada, embalado pelo uísque e pela indignação, desceu as escadas em direção ao apartamento infernal. Bateu na porta. Uma menina abriu, assustada, e logo se sentou no sofá ao lado da irmã, e da mãe, as três chorando. A cena era clássica: a esposa, machucada, o agressor, um brutamontes cheio de pose.

Álvaro, com a autoridade de quem já derrubou ditadores em três continentes, encarou o homem e disse:

— Essa é a última vez que você bate na sua esposa. Na próxima, eu te mato de porrada.

O agressor riu e mandou um “vai se foder, filho da puta”.

Foi o suficiente. Álvaro desferiu um único murro, certeiro, e o cara caiu como um saco de batatas.

— Nunca mais bata em mulher na vida — rosnou Álvaro, em tom de quem já enterrou muitos inimigos da revolução. — Da próxima vez, você sai daqui direto pro cemitério.

A esposa e as filhas, porém, não reagiram com o alívio que ele imaginava. Estavam encolhidas no sofá, chorando ainda mais, mas não de medo do agressor — e sim, assustadas com o comunista que adentrara o apartamento.

Ele, confuso, perguntou:

— Por que vocês estão me olhando assim? Eu acabei de dar um corretor neste filho da puta. Pela manhã vou levà-lo à delegacia da mulher.

Foi então que a mulher, envergonhada, respondeu, sem conseguir levantar os olhos:

— Moço, pelo amor de Deus, saia da minha casa… Minhas filhas nunca viram um homem nu na vida. Vá vestir uma roupa, por favor.

E foi assim que o grande revolucionário, herói de mil batalhas, descobriu que, em seu ímpeto justiceiro, havia descido a escada completamente nu.

Álvaro nunca mais postou sobre violência doméstica. Mas, se há um céu comunista, espero que ele esteja lá, de calças bem amarradas, contando essa história e outras para o Che, o Fidel e todos os outros camaradas que, eventualmente, também passaram por vexames semelhantes.ii

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