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O Último Azul, mais um filme sobre o Brasil profundo. Por Sérgio São Bernardo

2 - 3 minutos de leituraModo Leitura

Num futuro distópico, o corpo de uma idosa surge como um deleite proustiniano e uma lenda ao estilo de Soboufu Somé sobre o espírito da intimidade em situação de liberdade. A rinha de peixes é um troço surreal, singela e brilhante, mistura-se à lenda do caracol de baba azul e nos dá uma atmosfera de um Brasil profundo e denso. A vontade inconteste de voar elege aquela mulher para combater as hipocrisias das vampiras domesticadas e das Padilhas glamourizadas nas florestas de pedra e vidro urbanas.

O diretor, Gabriel Mascaro, é conhecedor do mundo indígena e de muitos lugares fora do lugar. O Último Azul, 2025, é um libelo sobre a diversidade multiterritorial e multicultural brasileira. A película indicada ao Urso de Ouro em Berlim figura entre os melhores filmes brasileiros, ao lado de “Ainda Estou Aqui”, em 2025, e “O agente Secreto” em 2002, “O Filho de Mil Homens” de 2025, “Manas” de 2025, “Kasa Branca” de 2025, entre outros.

Narra uma Amazônia fronteiriça como um lugar autônomo no contexto do tema universal do envelhecer e ainda o polêmico controle e monitoramento expresso nos programas compulsórios como o Cata Velho. Ela trabalha no frigorífico de carne de jacaré, onde o místico e o exótico são coisas tediosas. Mário de Andrade, em sua viagem em busca do Brasil autêntico, teria dito que o nosso caminho de liberdade é quando conhecemos onde começa e onde termina a vida.

Odera Oruka, filósofo queniano, nos ensina sobre o Mínimo Ético (um conceito que amplia a ideia do mínimo para viver e que envolve as necessidades éticas e subjetivas do humano). Algo arremedado pelo atual “Bem Viver” dos mexicanos e incas do século XIV que arremedamos como sendo algo nosso e autêntico de boa vida.

O Último Azul é um poema macunaímico e confronta as políticas do mínimo, um sortilégio e um privilégio do cinema brasileiro. A velhice é exaltada como começo e não como fim. Tenho amigas como Tereza, lembrei-me delas. Parecem tocar cada dia como um ensinamento e um gozo que permanece para além dos limites do mundo do homem. Tereza (Denise Weinberg) corre atrás de seu sonho. Encontra o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro) e a barqueira Violeta (Mirian Sacarrás) e vivem situações reais e mágicas sobre si, sobre os desejos, o sofrimento, o futuro e o mundo.

O filme é lindo e bem feito. As cores e formas que o elenco empresta ao filme dão uma sensação de brasilidade universal. Podemos conhecer o Brasil de diversas formas. No filme, o político, a resistência, a poesia, o lirismo, a ousadia, a transgressão, a memória, o mistério, a compaixão, se interconectam e nos dão com simplicidade e proximidade uma aula sobre a realidade brasileira. Em tempos de povos originários e fronteiriços, deleitemo-nos com o Último Azul.

Sérgio São Bernardo é Professor da Uneb.

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