Paternidade, renascendo entre laços: uma jornada de encontros e saudade. Por Renato Queiróz
Paternidade, renascendo entre laços: uma jornada de encontros e saudade
Treze anos. Uma idade de descobertas, mas para mim foi marcada por uma sombra: a partida precoce do meu pai.
Senta que lá vem História!
Antes mesmo do último adeus, um pressentimento silencioso já anunciava sua despedida. Aquela perda transformou-se numa eterna saudade – um vazio moldado pelo seu amor, seu jeito único, sua ausência que carrego como herança. Inclusive o seu nome.
Anos se passaram. Tornei-me pai. Minha querida filha, Helena, iluminava meus dias com sua pureza infantil. Mas mesmo cercado por essa luz, e esse novo amor, uma tempestade existencial abateu-se sobre mim. Foi então que, quase sem perceber, encontrei sustentação nas palavras antigas de uma oração. Recitado como um murmúrio da alma, cada verso tornou-se um pilar invisível que me manteve em pé.
E então, veio um chamado. Uma mensagem que ecoou como um abraço ancestral. A surpresa deu lugar a um aconchego profundo, um acolhimento que minha alma há tanto anelava. Na senda que passei a trilhar, encontrei um verdadeiro guia.
Encontrei um homem de mãos sábias, cuja luz vinha não de um pedestal, mas de sua plena e bela humanidade. Um ser de sorriso acolhedor que desarmava dores, de paciência infinita para ensinar passos vacilantes. Sua força abrigava ternura; sua autoridade era revestida de um cuidado profundo que acalentava o espírito. Nele, o sagrado se fazia humano no gesto simples de um conselho, de um colo espiritual oferecido no momento exato.
Nessa caminhada, as bênçãos multiplicaram-se. Surgiu um companheiro de caminhada, um espírito de luta e proteção. Nele, brilhava uma sabedoria forjada nas batalhas da vida, oferecida como escudo e espada partilhados. Seu cuidado era vigilante, sua proteção um manto invisível. Era a lealdade em pessoa, a coragem que inspirava sem intimidar, a voz firme que acalmava o medo e apontava o horizonte na névoa da dúvida. Um farol de força serena.
E como presente, um amigo e conselheiro inigualável cruzou meu caminho. Um espírito ancião e alegre que não apenas me guiava, mas gentilmente convidava a acompanhá-lo. E eu sigo, aprendendo com seus passos leves, sua conexão pura com o essencial, sua alegria contagiosa que transformava jornadas árduas em aventuras do espírito. Nele, a amizade transcendia, tornando-se uma paternidade cósmica feita de risadas e ensinamentos simples.
Outras presenças paternas também surgiram: um caçador de caminhos e alegrias, um guardião da justiça e do equilíbrio, e um símbolo de serenidade e criação. Cada um, a seu modo, teceu novos fios no tecido da minha existência.
Esta vida é feita de encontros e partidas. A ausência deixou uma saudade eterna. Mas o caminho, trilhado na sombra dessa perda, revelou uma verdade: a certeza dos reencontros.
Reencontros no sorriso da minha criança, na força que carrego, na corrente de apoio que me abraça, e na memória viva que pulsa no coração.
E reencontro-me, também, no fulgor radiante do meu filho Rafael. Nele, e em Helena, a vida se renova com uma pureza que encanta, promessa viva do amanhã. Meus filhos, com Denise, mãe amorosa – Helena e Rafa, sementes do nosso ser, futuro que caminha com passos próprios, iluminando nosso presente com suas presenças únicas e preciosas.
Por isso, nestes dias dedicados aos pais, minha homenagem transborda o tempo.
Honro aquele que se foi, cujo amor e essência permanecem comigo.
Honro o homem de mãos sábias e sorriso acolhedor, cuja humanidade me resgatou.
Honro o companheiro de caminhada, cuja proteção sábia me guarda.
Honro o amigo e conselheiro, cuja alegria e sabedoria me guiam.
Honro todas as presenças paternas, visíveis ou invisíveis, que com seu amor – dado por sangue, por espírito ou por escolha – tecem a rede que nos sustenta.
Que o amor dos pais, em todas as suas formas, seja sempre lembrado.
Pois é nesse amor, contínuo e renascido, que encontramos força para seguir.
Mesmo quando a saudade aperta, certos de que os laços verdadeiros jamais se rompem.
A música “Pai Velho”, composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, é uma das joias do álbum “Pietá”, lançado em 2002 pela Warner Music Brasil.
Produzido por Milton e Marinho Novelli, o disco ganha uma atmosfera quase etérea com os arranjos orquestrais de Eumir Deodato e as vozes femininas que tecem uma delicada atmosfera.
Mas é em “Pai Velho” que o coração do álbum parece bater mais forte. A canção mergulha fundo na relação entre pai e filho, trazendo à tona uma dolorosa ausência e memórias afetivas que ressoam com qualquer um que já sentiu o peso da saudade.
Sua letra, ao mesmo tempo íntima e universal, é um exemplo magistral de como Milton e Bastos unem a tradição mineira a uma sensibilidade poética absolutamente atemporal. Não é à toa que ela se tornou um marco na obra do Bituca – uma síntese perfeita entre raízes e inovação, entre a lágrima e a melodia.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música.
