Pelourinho ganha novo espaço cultural em antigo prédio de fiscalização do comércio ambulante de Salvador
Pé de Cobra propõe experiências em torno da imagem
Um imóvel que já serviu como dispositivo de controle e fiscalização, no coração do Centro Histórico de Salvador, ganhará um novo significado a partir da criação do Pé de Cobra. Após cinco anos de obra, a iniciativa transforma o endereço da Rua do Bispo, 35, no Pelourinho, em um espaço dedicado à reflexão, produção e experimentação em artes visuais, com foco especial na fotografia contemporânea. O equipamento cultural passará a funcionar ainda neste mês de abril, com a abertura de sua primeira exposição.
Localizado próximo a Igreja de São Francisco, o edifício da Rua do Bispo tem origem provável no período colonial. No entanto, foi entre as décadas de 1960 e 1990 que o imóvel assumiu uma faceta mais rígida: o edifício passou a operar como um ponto de controle urbano. Diferente de uma delegacia oficial, a estrutura, que possuía celas, funcionava como um aparato de fiscalização do comércio formal e informal, o que popularmente ficou conhecido como “Rapa”.
“O imóvel abrigou, em sua rotina, formas de detenção temporária e exercício direto de autoridade, memórias que permanecem vivas nos testemunhos de quem vivenciou o Centro Histórico naquele período”, conta Bruno Morais, um dos nomes à frente do Pé de Cobra. O brasileiro tem formação na Escola de Fotógrafos Populares da Maré e construiu uma carreira marcada por uma abordagem documental e poética, voltada ao imaginário popular e aos direitos humanos.
Outros dois nomes com trajetórias consolidadas no campo da imagem também integram o projeto: a espanhola Cristina De Middel, integrante da agência Magnum Photos e ex-presidente da organização, que já atuou como fotojornalista por uma década antes de desenvolver uma prática conceitual voltada à investigação das relações entre verdade e fotografia, e a argentina Julieta Lopresto, fotógrafa com atuação em diferentes países da América do Sul e especializada na gestão e ativação de arquivos fotográficos e audiovisuais, com foco na construção da memória coletiva.
Espaço para pensar imagens
O projeto nasce do desejo de criar um ambiente onde seja possível “pensar as imagens com tempo”. Mais do que um local expositivo, o Pé de Cobra se apresenta como um espaço de convivência e elaboração de ideias, em que prática e reflexão caminham juntas. Em meio ao ritmo intenso do Pelourinho, o edifício propõe uma espécie de pausa: um ambiente atento à escuta, à conversa e ao ensaio.
A proposta do espaço também se organiza a partir de um conceito anual que orienta suas atividades. Em 2026, o eixo escolhido é “Esquina”, entendido como ponto de encontro, desvio e decisão. A ideia deve atravessar exposições, encontros e demais ações ao longo do ano, estabelecendo diálogos entre artistas, pesquisadores e o público.
O Pé de Cobra contará com diferentes ambientes voltados à experimentação e ao estudo. Entre eles, uma sala de exposições multidisciplinar, destinada a mostras e conferências; uma biblioteca com mais de 1.500 volumes especializados em fotografia contemporânea e artes visuais; e um laboratório de fotografia em preto e branco, que será aberto ao público mediante agendamento.
