Perinho Albuquerque: o mestre que construiu, navegou e guiou a MPB – em três atos. Por Renato Queiróz
Perinho Albuquerque: o mestre que construiu, navegou e guiou a MPB – em três atos.
Perinho Albuquerque nasceu em 25 de abril de 1946 e faleceu em 15 de agosto de 2025, aos 79 anos, em Salvador. Perinho navegou pelas águas da música brasileira como um arquiteto de sonhos sonoros – desses artistas fundamentais que preferiram a penumbra dos estúdios aos holofotes dos palcos. Guitarrista, arranjador e produtor de mão cheia, sua assinatura invisível marcou a alma de dezenas de discos essenciais que moldaram a MPB dos anos 1970. Mesmo afastado voluntariamente da cena musical em suas décadas finais, seu legado permanece como alicerce fundamental da estética tropicalista e pós-tropicalista.
Senta que lá Vem História!
Ato I: O Arquiteto Sonoro – A Gênese de um Gênio nos Bastidores
Ato II: Álibi – A Obra-Prima que Moldou um Legado
Ato III: O Legado Indelével – A Transcendência da Arte
Ato I: O Arquiteto Sonoro – A Gênese de um Gênio nos Bastidores
Nascido Péricles de Albuquerque, na Salvador que respira música, Perinho cresceu embalado por harmonias. Seu irmão, Moacir Albuquerque (1945–2000),trilhava o caminho do baixo ao lado de gigantes como Gilberto Gil e Caetano Veloso. Curiosamente, Perinho nunca frequentou os bancos do conservatório – sua escola foram as ruas, os bares, a vida pulsante da capital baiana. Aos 16 anos, já profissionalizava seu talento nos bailes de Salvador, integrando o Carlito e seu Conjunto como guitarrista.
Os anos da década de 1960 trouxe ventos de mudança para Perinho Albuquerque. Nesse período crucial, ,ele cruzou com Caetano Veloso, recém-chegado a Salvador, na Universidade Federal da Bahia e iniciou uma parceria musical com Maria Bethânia que ecoaria por décadas, tornando-se seu violonista, arranjador e diretor musical histórico. Paralelamente, mergulhou no fervilhante cenário musical baiano, integrando a segunda formação dos lendários Raulzito e Seus Panteras, liderados por Raul Seixas. Participou da gravação do compacto “Nani”, que contém o primeiro registro fonográfico do futuro Rei do Rock brasileiro. Participando do compacto simples “Nani” (Lado A: “Nani”; Lado B: “Judy”).
Nos anos seguintes, já consolidado como um dos talentos centrais daquela geração, Perinho mergulhou de cabeça nos espetáculos influenciadores do movimento tropicalista. Esteve ao lado de Bethânia em “Mora na Filosofia” (1966), em “Inventário” de Gilberto Gil (1966) – onde surpreendentemente atuou como corista – e em “Cavaleiro” de Caetano Veloso (1967), ajudando a forjar a sonoridade que revolucionária a cultura brasileira. “Mora na Filosofia” (1966), “Inventário” (1966) e “Cavaleiro” (1967)—são reconhecidos pela crítica e pela historiografia musical como os laboratórios onde a estética tropicalista foi gestada.
Gilberto Gil, em inúmeras entrevistas ao longo dos anos, sempre reforçou que a efervescência baiana daquele período, centrada na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e nos teatros, foi o caldo de cultura essencial. Ele frequentemente cita a convivência com artistas como Perinho Albuquerque, Tom Zé e os irmãos Campos (Augusto e Haroldo) como fundamental para a formação de sua linguagem na época. Embora o movimento só tenha sido batizado e tornado manifesto com o álbum “Tropicália: ou Panis et Circencis” (1968), sua sonoridade, sua liberdade estética e sua postura artística foram forjadas nesses palcos baianos um ou dois anos antes.
O estilo de Perinho Albuquerque brotava da intuição pura – uma sensibilidade aguçada que dispensava partituras. Desenvolveu uma linguagem guitarrística jazzística única, com arranjos atmosféricos que se tornaram sua marca registrada. Não surpreende que Caetano Veloso o chamasse de “meu companheiro e guia musical por muito tempo”. Suas digitais criativas estampam trabalhos seminais: desde o visceral “Drama – Anjo Exterminado” (1972) e o milionário “Álibi” (1978) de Maria Bethânia, passando pelo experimental “Araçá Azul” (1972) de Caetano, até a joia rara que é “Pérola Negra” (1973) de Luiz Melodia, onde arranjou nove das dez faixas.
Sua versatilidade ecoa também em “Sinal Fechado” (1974) de Chico Buarque, no delicado “Gal Canta Caymmi” (1976), no explosivo momento dos Doces Bárbaros e na fusão genial de “Gil e Jorge” (1975). Como compositor, presenteou-nos com pérolas como “Guá” (em parceria com Caetano no álbum Jóia de 1975) e “Txim-plam” (com Jorge Mautner), demonstrando que sua criatividade não se limitava aos arranjos.
Os anos 1980 trouxeram uma guinada existencial surpreendente. Perinho afastou-se dos estúdios para abraçar o canto das sereias marinhas. Fundou o Estaleiro Perimar em Salvador, dedicando-se à arquitetura naval – construção de barcos e lanchas que passou a exercer em parceria com seus filhos. Paulo Emílio, seu filho, capturou bem esse espírito: “gostou, nos últimos anos, de ficar na vidinha dele… ficava em casa, gostava do mar, e não se expunha muito”. Uma mudança radical para quem havia respirado música a vida inteira.
Em 15 de agosto de 2025, aos 79 anos, Salvador perdeu um de seus tesouros musicais mais valiosos. Vítima de infarto após complicações de um AVC, o produtor e músico Perinho Albuquerque partiu, deixando dois filhos (Paulo Emílio e Augusto), uma neta (Sofia) e sua companheira, Silvelane Ferreira. Seu velório, tão discreto quanto sua trajetória, reuniu familiares e alguns poucos músicos próximos – uma despedida simples e comovente para um homem que sempre evitou os holofotes, mas cujo trabalho iluminou permanentemente a música brasileira.
Sua herança musical permanece como pilar sonoro dos anos 1970. A capacidade singular de fundir influências baianas, jazzísticas e rock com a tradição brasileira revelou-se vital para discos que entraram para a história. Foi ele quem produziu “Álibi” (1978), transformando Bethânia na primeira cantora brasileira a ultrapassar a marca de um milhão de cópias. Arranjou “Pérola Negra” (1973), alicerce fundamental na carreira de Luiz Melodia. E deixou sua guitarra jazzística cravada em álbuns cruciais de Caetano como “Qualquer Coisa” (1975) e “Bicho” (1977), onde seu estilo único brilhou com intensidade.
Apesar de sua influência subterrânea e submarina, Perinho sempre preferiu o reconhecimento silencioso entre músicos e críticos. Caetano Veloso sintetizou com precisão lapidar: “Perinho, grande músico brasileiro”. Sua opção pelo retiro musical em favor de uma vida tranquila em Salvador revela uma filosofia rara: a criação sobrepujando a exposição, a arte transcendendo o ego. Ele era uma lenda entre os músicos e críticos, mas um nome menos conhecido pelo grande público. Essa avaliação é um consenso na crítica musical brasileira.
Perinho Albuquerque pertencia àquela rara categoria de artistas cuja contribuição transcende créditos em encartes. Sua sensibilidade intuitiva para arranjos e produção moldou a sonoridade de toda uma geração. Dos bailes aos estúdios e shows, sua trajetória testemunha o poder da música como arte colaborativa e intuitiva. Sua partida em 2025 encerra um capítulo, mas seu legado permanece não apenas em discos, mas no próprio DNA da MPB. Como bem disse Caetano, foi um “guia musical” – e guias, sabe como é? Muitas vezes operam na discrição, mas sua direção ecoa por décadas a fio, influenciando gerações que sequer conhecem seu nome, mas que absorveram sua herança sonora.
Ato II: Álibi – A Obra-Prima que Moldou um Legado
Não é exagero dizer que o disco “Álibi”, lançado por Maria Bethânia em 1978, mudou o jogo. Produzido com uma visão aguçada por Perinho Albuquerque, a obra transcende em muito a condição de um mero lançamento fonográfico para se firmar como um verdadeiro fenômeno cultural – um daqueles raros momentos que demarcam a história da MPB.
O seu feito mais badalado, claro, permanece de uma grandeza incontestável: aquele foi o primeiro long-play de uma cantora brasileira a atingir a marca de um milhão de cópias vendidas. Naquele contexto, um número assim não era apenas impressionante; era algo simplesmente estratosférico. Mais do que qualquer coisa, aquele marco a consolidou de vez, provando que Bethânia não era apenas uma intérprete genial, mas também uma força comercial avassaladora e sem paralelos no mercado da época.
No entanto, reduzir “Álibi” a seus números é ignorar sua verdadeira essência: uma jornada musical profunda, tensa e cinematográfica que explorou as sombras do amor com uma coragem rara.
A genialidade do álbum começa pela escolha da sua base instrumental, uma formação de elite que seria eternizada como uma dos grandes encontros da MPB.
Perinho Albuquerque (guitarra e produção), o maestro do projeto. Sua produção não se limitou a organizar as faixas; ele arquitetou uma atmosfera densa e dramática. Sua guitarra, muitas vezes limpa e com um toque de chorus, acrescenta camadas de melancolia e suspense. Com a presença de Tutty Moreno (bateria): Muito mais do que manter o ritmo, Tutty é o coração pulsante e ansioso de “Álibi”. Sua batida irregular e intuitiva, cheia de sutilezas e pressões, cria a sensação de tensão constante que define o disco.
Luizão Maia (baixo): Sua linha de baixo é sinuosa, melódica com ênfase em ritmos cativantes e grooves marcantes. Ele não apenas preenche a base harmônica, mas “conversa” com a voz de Bethânia, serpenteando pelos arranjos como um personagem secundário e crucial.
Cristóvão Bastos (piano): Responsável por grande parte das harmonias ricas e sofisticadas, seu piano acrescenta a dramaticidade e a classe que o repertório exigia.
Juntos, eles criaram uma paisagem sonora única, uma base jazzística e grooveante que foi o terreno perfeito para a dramaturgia vocal de Bethânia.
O ano era 1978. O Brasil ainda respirava sob o espectro opressivo da ditadura militar, um período em que a arte precisava ser tão resistência quanto beleza. Foi nesse contexto que Maria Bethânia presentou ao país não apenas um álbum, mas um verdadeiro fenômeno cultural: Álibi.
Produzido em parceria com Perinho Albuquerque e a própria cantora, Álibi transcendeu instantaneamente o status de mero produto artístico. Ele se tornou um espelho sonoro da nação, capturando suas dores, seus amores e sua inextinguível sede de liberdade. O feito comercial – tornar-se o primeiro LP de uma cantora brasileira a ultrapassar a marca de um milhão de cópias – foi apenas o reflexo de uma conexão visceral e profunda que a obra estabeleceu com o público.
Abrir Álibi é iniciar uma jornada curatorial magistral materializada por Perinho através dos arranjos e da sua produção musical. A sequência de faixas, longe de ser aleatória, é uma narrativa cuidadosamente costurada. A energia quase profética de “Diamante Verdadeiro” (de Capinan e Jards Macalé) serve como abertura explosiva, uma declaração de princípios sobre autenticidade e valor. Esse clímax inicial dá lugar à descida às profundezas. Lá, no cerne sombrio e pulsante do projeto, ecoa a faixa-título “Álibi” (Djavan). A batida inquieta de Tutty Moreno na bateria e o baixo hipnótico de Luizão Maia constroem uma atmosfera densa, quase cinematográfica, um palco perfeito para a entrega vocal de Bethânia, onde melancolia e desejo se fundem de forma inextricável.
O disco então se revela através de encontros vocais que se tornaram lendas da MPB. ‘O Meu Amor’ (Chico Buarque) é transformado num dueto íntimo e arrebatador com Gal Costa, onde a sensualidade e a cumplicidade entre as vozes criam uma das faixas mais memoráveis do repertório. Mais adiante, a parceria com Gal Costa em ‘Sonho Meu’ (de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho) realiza a alquimia definitiva: eleva uma composição sublime à categoria de hino eterno, um farol de delicadeza e resistência afetiva que continua a iluminar gerações
Bethânia, em sua maestria, nunca se limitou a cantar seu tempo; ela dialogou com a história toda da música brasileira. Em suas mãos, um clássico do samba-canção como “Negue” (de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos) renasce com uma roupagem dramática e sofisticada, sem perder um ápice de sua dor original. “Último Desejo” (Noel Rosa) ganha uma intensidade emocional tão avassaladora que confirma a atemporalidade do Poeta da Vila. Canções como o samba urbano de “Ronda” (Paulo Vanzolini) e a profunda poesia de “De Todas as Maneiras” (Fernando Brant e Milton Nascimento) acrescentam camadas essenciais de lirismo e brasilidade ao mosaico, mostrando a amplitude do repertório.
Mas era impossível ignorar o peso de 1978. A tensão política impregna o álbum como um baixo contínuo. “Não Dá Mais Pra Segurar (Explode Coração)” (Gonzaguinha) é muito mais que um sucesso; é um grito visceral, uma catarse de dor e paixão entregue com uma urgência dilacerante. Até o otimismo contido de “A Voz De Uma Pessoa Vitoriosa” (de Waly Salomão e Caetano Veloso) encontra seu lugar, soando como um ato de fé necessário, um farol de esperança em meio à escuridão.
Quando a jornada emocional termina, ‘Interior’ (Rosinha de Valença) oferece o epílogo perfeito. O instrumental contemplativo da genial violonista não é uma simples faixa; é um suspiro profundo, um momento de introspecção e processamento para toda a carga emocional que veio antes. Diferente de outras faixas do álbum, sustentadas por uma banda completa, aqui o violão soberano de Rosinha é a alma do projeto, criando o espaço reflexivo necessário para fechar a obra.
Ato III: O Legado Indelével – A Transcendência da Arte
Álibi, no fim das contas, é uma obra que se recusa a ser categorizada. Seu sucesso comercial estratosférico nunca ofuscou sua profundidade artística; pelo contrário, foi sua consequência natural. O disco consagrou a capacidade ímpar de Maria Bethânia de habitar-com igual e soberana amestrai – o popular e o erudito, a dor e a festa, o íntimo e o coletivo, o tradicional e o vanguardista. Cada faixa é um órgão vital de um mesmo corpo, uma peça essencial de um mosaico complexo que revela uma artista no absoluto auge de seu poder expressivo. Décadas depois, o álbum permanece não como uma relíquia do passado, mas como um testemunho vivo e indelével da força, da complexidade e da beleza arquitetada da música – e do povo brasileiro.
Entretanto, é a faixa composta por Djavan, “Álibi”, que emerge como a alma sombria e fascinante do projeto. A canção é um monumento de melancolia e desejo. A batida inquieta de Tutty Moreno palpita como um coração em pânico, enquanto o baixo profundamente soulful de Luizão tece uma linha hipnótica. Os acordes de piano e guitarra criam um ambiente de suspense quase cinematográfico.
E é sobre essa base que Maria Bethânia oferece uma das performances mais devastadoras de sua carreira. Ela não canta; ela encarna a personagem da música. A letra, um apelo por um “álibi” para justificar o “crime” de um amor avassalador e perhaps socialmente condenado, é entregue com uma entrega visceral, cheia de suspiros, sussurros, dinâmicas controladas com maestria e uma dor palpável. A interpretação é tão definitiva que, para muitos, a composição é de Djavan, mas a canção é de Bethânia. Ela se tornou a versão canônica, incontornável e insuperável.
Álibi consolidou-se, assim, como um duplo legado na cultura brasileira. Provou que uma artista feminina poderia ser a maior força de venda do país, quebrando paradigmas sexistas da indústria fonográfica e abrindo caminho para muitas outras. É um mergulho profundo e corajoso nas sombras do sentimento amoroso – o ciúme, o desejo proibido, a melancolia, a paixão avassaladora. É um testemunho eterno do poder de uma interpretação visceral, onde a técnica vocal está totalmente a serviço da emoção.
Mais do que um disco de sucesso, Álibi é uma experiência. Uma obra que solidificou Maria Bethânia não como uma simples cantora, mas como uma das mais profundas e completas artistas do Brasil, capaz de transformar canções em dramas humanos inesquecíveis.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música.
