Quando a música fala e o discurso arde. Por Jorge Papapá
Há artistas que ultrapassam a própria obra e se tornam símbolos. Edson Gomes é um deles. Sua voz, moldada pelo reggae e pela denúncia social, ajudou a formar a consciência crítica de gerações que aprenderam a desconfiar do poder, do sistema e das narrativas oficiais. Durante décadas, suas canções ocuparam um lugar claro: o da resistência, o do inconformismo, o da rua.
Por isso, quando o cantor se posiciona fora da música, o impacto não é pequeno. Recentes declarações feitas em palco, com forte carga ideológica e alarmista, causaram estranhamento em parte do público que sempre o identificou com pautas libertárias. Não se tratava mais de metáfora ou poesia — era um discurso direto, político, atravessado por medos contemporâneos que circulam mais nas redes do que nas esquinas onde o reggae nasceu.
A reação veio. A deputada estadual Olívia Santana, figura historicamente ligada às lutas sociais e culturais da Bahia, criticou duramente o posicionamento do artista, classificando-o como reacionário e lembrando que sua postura não é exatamente nova. Sua fala não teve o tom do cancelamento apressado, mas o da decepção crítica: a de quem reconhece a importância cultural de Edson Gomes, mas se recusa a naturalizar contradições graves quando elas ganham alcance público.
O episódio revela algo maior do que uma divergência entre um músico e uma parlamentar. Ele escancara a tensão permanente entre obra e autor, entre o que foi cantado e o que agora é dito. A pergunta que ecoa não é se Edson Gomes tem direito à sua opinião — isso é indiscutível —, mas que tipo de responsabilidade acompanha quem construiu sua trajetória falando de justiça, opressão e consciência social.
Na cultura, símbolos importam. Vozes importam. E quando essas vozes mudam de tom, o público percebe. Não se trata de exigir coerência absoluta — isso seria desumano —, mas de reconhecer que discursos também educam, influenciam e moldam imaginários. A arte pode abrir caminhos, mas também pode confundir quando abandona a escuta e se rende ao ruído.
Edson Gomes segue sendo um nome fundamental da música brasileira. Sua obra permanece, com toda a força histórica que carrega. Mas o presente cobra leitura crítica. E Olívia Santana, ao vocalizar esse incômodo, cumpre um papel que também é cultural: o de lembrar que a música popular sempre dialogou com o seu tempo — e que esse diálogo nem sempre é confortável.
No fim, o que permanece não é o embate, mas o descompasso. A música segue vibrando no ar como memória coletiva, enquanto a palavra dita fora do canto cai no chão, pesada, sem melodia para amortecer o impacto. O reggae sempre foi abrigo contra o medo — por isso estranha quando o medo tenta ocupar o centro do palco.
Edson Gomes continua sendo parte da trilha sonora de muitas vidas. Isso ninguém apaga. Mas a arte, quando verdadeira, não pede fidelidade cega; pede escuta atenta. E a crítica de Olívia Santana surge como esse gesto raro: não o da negação da obra, mas o da recusa ao silêncio confortável. Porque calar diante do símbolo também é uma forma de consentimento.
Talvez seja assim que a cultura avance: não em linha reta, mas aos solavancos, entre notas que libertam e palavras que confundem. Entre o canto que um dia nos ensinou a sonhar e o discurso que agora nos obriga a acordar.
No último acorde, fica uma pergunta suspensa no ar — dessas que não pedem resposta imediata: o que fazemos quando a canção que nos libertou já não caminha na mesma direção da liberdade que aprendemos a desejar?
O palco escurece. O som se apaga. Mas a consciência — essa — continua acesa, exigindo mais do que aplauso: exigindo sentido.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

