Seu Capim e a Ladeira do Pax. Por Sérgio São Bernardo
Era pernambucano, mas era filho de sergipanos. Tinha uma banca de roupas na esquina da ladeira, onde tinha o cinema Pax. Sua pequena estatura e sua cara amarrada davam medo. A ladeira é uma das que atribuía acesso à parte baixa da cidade. Tudo era muito movimentado e tranquilo. Tinha um andar compassivo e triste em medidas geométricas. Falava sozinho ao caminhar. O que falava? Não sei. Só sei que, durante décadas, quem quisesse bermudas e shorts tinha que ir ali em seu Capim. Não existia mahalo e nem tactel. Aos domingos, gostava de admirar os prédios antigos do Centro Histórico. Pagava sorvete de tapioca para meninas na A Cubana. Amava Salvador.
Tinha um baleiro na frente do cinema. O filho dele, Lelê, brincava conosco. Branca de Neve e Tuca (Compadre Washington) também. Era uma época em que íamos ao cinema na xepa ou entrávamos com Lelê. O boné de seu capim era listrado. Ele almoçava no Petisco, que ficava atrás do Mercado de São Miguel. Sentava-se na última mesa do bar. Pedia sempre a mesma comida. Um assado de boi com cebolas, sem arroz, sem saladas e feijão sem caldo. Aquela mulher sergipana lhe servia com denodo e carinho. “Bota logo a comida de seu Capim”. Ele comia devagar e me chamava de Sargenteli.
O cine Pax era um equipamento gigante, cabia mais de duas mil pessoas e foi construído em 1939, ali toda a cidade via filmes que se comentava. A Baixa dos Sapateiros mostrava toda a sua magnitude e potência. Gostava da Baixa e dos seus cheiros de sapatos, na verdade, cheiro de couro que vinha do matadouro da Barraquinha. Destruíram seus cinemas, suas feiras, seus conventos, suas lojas e, sobretudo, os camelôs. Um local que reclama seu lugar na cidade. Uma Avenida que ainda precisa mostrar a sua história e a sua contribuição na economia e na cultura baiana.
Seu capim era um sujeito inovador. Mesmo antes da cidade vestir bermudas, ele as vendia antes das lojas e shoppings. Morava na Rua do Açouguinho com duas putas, morei no brega com ele e elas, numa das brigas que tive com meu pai. Muito me ensinou sobre aquele lugar que hoje, como muitos, nem sequer dormem ali. Antes de saber da metafísica, já sabia da ontologia que aninhava aqueles corpos. Tinha treze anos e já ia, com eles, ao Pax. Assistíamos a filmes como “ Vai Trabalhar, Vagabundo! 1971, de Hugo Carvana, Zezé Mota no elenco e O Amuleto de Ogum, 1974, de Nelson Pereira dos Santos, com Jards Macalé. Tempo em que tínhamos um cinema nacional pungente e crítico.
Nos dias atuais, o ex-severinista, Alberto Pita, artista dos artes nos panos, maestro maior do Cortejo Afro, com sede na Ladeira do Pax, tenta reativar o cinema que a Ordem Terceira do São Francisco nada faz. Seu Capim, que também ia ao cinema deixou a esquina da ladeira e sumiu com o cinema da Baixa dos Sapateiros. Quem se candidata gostar de Salvador?
Sérgio São Bernardo é Professor da UNEB
