Sexo dia do enterro (inacreditável). Por GalindoLuma
Era sempre assim: sextas-feiras, 12h30. Dois pratos, uma garrafa de vinho para ela e cervejas para mim, num discreto apartamento no bairro do Apipema, em Salvador. Dois corpos que se encontravam há anos no mesmo ritual, como se o mundo lá fora não existisse.
Desde sempre, eu prefiro mulheres casadas ou comprometidas, na leitura de que o grau de compromisso não ultrapassa meus limites. Nunca liguei para o que a moral convencional prega. Como julgar e demonizar algo que arde com tanta intensidade? Clarissa era casada, sim, mas o marido dela, Ricardo, que eu mal conhecia, era somente mais uma figura distante do que um obstáculo. Um sujeito ocupado, sempre mergulhado em reuniões e viagens. E, nas ausências dele, havia espaço para este escriba, humildemente, entrar em cena.
Os anos se passaram e o encontro tornou-se uma tradição ininterrupta. Nem enchentes, greves de ônibus, toques de recolher do tráfico, mesmo uma vez em que Clarissa chegou com a perna engessada, cancelavam nossa sexta sagrada. Foi por isso, e vocês vão saber disso pela primeira vez, que surgiu o verbo sextar, criado por ela. Era o único momento em que nós dois nos permitíamos ser inteiros, sem culpas, sem disfarces.
Até que, numa manhã de quinta-feira, o inesperado:
— Ricardo morreu.
Um infarto fulminante. Nada de despedidas, nada de últimas palavras. Apenas um silêncio repentino onde antes havia um marido. O enterro foi marcado para sexta-feira de tarde.
Fiquei em choque. O que isso significaria? Clarissa estaria destruída? Haveria um período de afastamento natural? Isso, se acontecesse, seria uma perda irreparável para mim, mas eu entenderia.
Na quinta não mandei mensagem. Respeitei o momento. Mas, na manhã de sexta, o telefone tocou.
— Alô?— atendi, preparado para ouvir soluços, uma voz embargada, talvez um “Preciso de tempo…”.
Mas não.
— E aí, amor… Tá tudo certo pra hoje? — a voz de Clarissa era suave, quase despreocupada.
Engoli seco.
— Claro… Mas… O enterro não é hoje?
— É, às quatro. Mas a gente tem tempo, né?
Eu fiquei mudo. “Ela não pode estar falando sério”, pensei.
— Você… tem certeza de que quer mesmo manter nosso encontro hoje? — perguntei, incrédulo.
— Ué, por que não? Se o Ricardo nunca soube do nosso caso quando estava vivo, agora morto é que não vai saber.
Eu quase ri do absurdo daquilo. Mas, ao mesmo tempo, senti um frio na espinha. Isso não era normal. Seria ela uma sociopata? Estaria em choque? Ou simplesmente… não ligava?
Por outro lado, quem sou eu para questioná-la. Onde já se viu gente morta se meter na vida alheia?
E assim foi.
Às 12h15, ela chegou. Vestida de preto, mas com o mesmo sorriso de sempre.
- O que você explicou aos familiares para se ausentar do velório?
- Disse que viria ao centro comprar maquiagem para o cadáver.
- Corajosa você.
- Sou uma mulher fiel, nunca falto com meus compromissos.
Bebemos, conversamos, e o assunto da morte só apareceu no curto diálogo acima. E, quando fomos para a cama, ela estava tão presente quanto em qualquer outra sexta, aliás, estava mais saliente e safada. Nada de lágrimas, nada de despedidas. Só gemidos e orgasmos -o mesmo fogo de sempre em ritmo mais frenético, alucinante.
Às 14h50, ela se arrumou, passou batom, ajustou o vestido preto e o óculos escuro, me deu um beijo demorado.
— Até semana que vem?
— Você tá… bem? — não resisti em perguntar.
Ela parou na porta, pensou por um segundo e sorriu.
— Nunca estive melhor. Nunca estive tão relaxada. Essa foi a melhor foda da minha vida.
E saiu.
Fiquei sentado no sofá, consumindo cerveja e ouvindo música, tentando processar o que havia acontecido.
“Que mulher é essa meu deus”?
E, naquele momento concluí que eu jamais conseguiria largá-la.
