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Síndrome de Estocolmo. Por Carlos Zacarias

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Artigo publicado originalmente no Jornal A Tarde

Chama-se de “Síndrome de Estocolmo” ao comportamento de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que, depois de serem tomadas de refém, desenvolvem algum tipo de vínculo com seus sequestradores. O termo, usado em 1973 pelo psicólogo Nils Bejerot, surgiu do desdobramento de um assalto que durou seis dias. Passado o evento, as vítimas, inexplicavelmente, puseram-se a defender seus raptores.

Recorro ao conceito para dizer que o Brasil está tomado pela Síndrome de Estocolmo. É o que se depreende do noticiário. Bolsonaro e o bolsonarismo sequestraram o Brasil. Não há um único dia em que não tenhamos que falar do inelegível e soluçante agitador fascista que cumpre pena em confortável sala especial da PF em Brasília. Não importam os bons números da economia, com o provável crescimento do PIB em 2,5% em 2025; o desemprego em 5,4% em novembro, menor taxa desde 2012 ou a pobreza e a extrema pobreza nos menores patamares da série histórica do IBGE. Nem mesmo o fato de o Brasil sair do mapa da fome, depois de voltar a ser um país de famintos em 2022, parece significar algo relevante. Não é a economia, estúpido, mas Bolsonaro, a única coisa importante nesse triste país feito de refém.

Não por acaso, o mercado, quando não dá chilique, segue dando palco para Tarcísio de Freitas e governadores da extrema direita. Dia sim, outro também, capitalistas de peso se põem a discutir a “catástrofe” do governo Lula e a ouvir as propostas de nulidades como Zema e Tarcísio, entre outros. Nessas ocasiões reclama-se que Lula não fez choque de austeridade nem corte de gastos, muito embora tenha oferecido o arcabouço fiscal. Diz-se que o Brasil não aguenta mais o PT e que precisa de um novo CEO, entre outras bobagens.

Obviamente que o mercado não se faz de rogado e reivindica como mérito do BC e de sua pornográfica taxa de 15% juros a inflação dentro da meta, enquanto joga o “ônus” dos gastos públicos, da “bomba fiscal” e do aumento da dívida no governo. Como se governar um país de 200 milhões de pessoas fosse gerir um banco.

Haveria muito a se discutir em um mundo que caminha para catástrofe climática. O Brasil tomado de refém, contudo, não parece disposto a pensar nos impactos dos combustíveis fósseis no planeta, não se julga interessado em debater a dimensão estratégica das terras raras, passa longe de refletir sobre os impactos da IA em nossas vidas. Tudo isso é menor se comparado a anistia, dosimetria e fantasias do clã familiar de inúteis.

É por essas e outras que precisamos nos curar dessa Síndrome. Não digo que não devamos tratar do bolsonarismo, mas há evidente exagero em ficarmos falando do nosso captor. Não há problema em desejar justiça a quem fez tanto mal ao país. Tudo bem se amamos odiar o presidiário, seus filhos e tudo o que o fascismo representa. Mas precisamos voltar a discutir temas urgentes. O Brasil precisa se livrar de seus sequestradores.

Carlos Zacarias de Sena Júnior é Professor do Departamento de História da UFBA.

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