Aldeia Nagô
Facebook Facebook Instagram WhatsApp

Sonzaço! A gênese e o legado de “Baianidade Nagô” – um hino do carnaval baiano. Por Renato Queiróz

7 - 9 minutos de leituraModo Leitura

Tem música que simplesmente acontece. Ela nasce, cresce e, de repente, toma conta do imaginário de um povo inteiro. “Baianidade Nagô” é dessas.

Mais do que um sucesso carnavalesco, a canção atravessou décadas, criou raízes e se transformou num símbolo afetivo do carnaval de Salvador e da própria alma baiana.

Para entender esse fenômeno, a gente precisa voltar no tempo, encontrar um jovem compositor anônimo, uma banda no auge da criatividade e um punhado de músicos que, sem imaginar, estavam eternizando um pedaço da cultura brasileira.

Senta que lá vem História!

ATO 1. A melodia que nasceu no caminho de casa, a secretária e o telefone.

A história de “Baianidade Nagô” começa em 1990, num trajeto comum. O jovem Evandro Rodrigues, então com 20 anos, voltava para sua casa na Vila Naval da Barragem, em Paripe, subdistrito de Salvador, quando uma melodia simplesmente começou a rondar sua cabeça.

Estudante de Contabilidade, mas com o coração batendo forte pela música, Evandro era daqueles caras tímidos que a mãe e a avó insistiam em incentivar – chegaram até a ajudar na compra do primeiro violão, para desgosto do pai, um militar aposentado que torcia o nariz para a arte.

Assim que chegou em casa, correu para o quarto e gravou a melodia numa fita cassete, antes que ela escapasse de vez. Só no ano seguinte, 1991, é que a letra finalmente saiu.

Evandro queria capturar a essência do carnaval baiano, aquele sentimento único que toma conta de Salvador. Foi então que começou a escrever sobre a Avenida Sete, o Farol da Barra e os pioneiros Dodô e Osmar, criando um retrato poético da folia.

Com a canção pronta! Evandro precisava fazer algo! Achou que a música tinha a cara da Banda Mel, que despontava no axé music. Corajoso – ou movido por aquela fé que só os sonhadores têm – foi até o escritório do grupo. O produtor Jailton Dantas estava justamente saindo. A secretária sugeriu que ele esperasse, depois de uma conversa, inicialmente tensa – por causa dele, mas acolhedora pela moça, o jovem preferiu deixar a fita K-7 com ela e aguardar.

Uma semana se passou até que Evandro ligou. Do outro lado da linha, veio a notícia que mudaria sua vida: “Baianidade Nagô” seria o carro-chefe do próximo disco da banda. E não é que o pai, aquele mesmo que torcia o nariz, acabou reconhecendo a beleza da canção?

ATO 2. A formação original, e a magia da gravação, a conquista do carnaval

A gravação original aconteceu em 1991 para o álbum Negra, lançado pela gravadora Continental. Era a segunda formação da Banda Mel, aquela que o tempo trataria como a mais duradoura e bem-sucedida. E olha que time: nos vocais, Márcia Short, Róbson Morais e Alobêned Airam.

Na parte instrumental, uma turma de primeira: Jailton Dantas (contrabaixo elétrico, violão e produção), Dito Régis (percussão), Guto Guitar (guitarra, cavaquinho e violão), Orlando Costa (percussão), Dal Batera (bateria) e Fernando Padre (teclados).

A produção, claro, ficou nas mãos de Jailton Dantas, que também assinou os arranjos. E foram justamente esses arranjos, com aquela cadência contagiante do samba-reggae, que deram à canção sua identidade definitiva.

Quando Márcia Short e Róbson Morais dividiram os vocais principais, criaram uma química que se tornaria marca registrada da fase áurea da banda.

A saída de Márcia Short e Robson Morais da Banda Mel (posteriormente grafada como Bamdamel) ocorreu em meados da década de 1990, por motivos diversos. Aí já é outra história.

Assim, me permitam um salto histórico – em 2024, Márcia Short e Robson Morais retornaram à banda para o Carnaval de Salvador.

Voltando! A música foi lançada num estacionamento no São Raimundo, ali perto da Lapa, em Salvador. O clima era de aposta, mas ninguém imaginava o que estava por vir.

“Baianidade Nagô” agradou de cara, daquele jeito que a gente percebe que algo especial está acontecendo.

No ano seguinte, 1992, veio a consagração: o Troféu Dodô e Osmar a elegeu a melhor música do carnaval.

Era o reconhecimento oficial de que a canção tinha virado um hino.

ATO 3 – A consagração e a vitalidade

O tempo passou, mas a majestade da canção só fez crescer.

Em 2025, durante as celebrações dos 40 anos do axé music, a Rede Bahia promoveu uma edição especial do Troféu Bahia Folia. O objetivo era eleger, por votação popular, a canção que melhor representasse o gênero musical. Uma curadoria de peso – formada pelo jornalista Osmar Martins (o Marrom), a cantora e pós-doutora Marilda Santana, o pesquisador Marcelo Argôlo e o coordenador de rádios Maurício Habib – selecionou 50 músicas concorrentes.

Mais de 60 mil pessoas votaram. Pois “Baianidade Nagô” simplesmente arrasou: 40,32% dos votos, totalizando 24.743 preferências. A vantagem para a segunda colocada, “Festa”, de Ivete Sangalo, foi de mais de dez mil votos. “Fricote”, de Luiz Caldas, ficou em terceiro. A crítica especializada acolheu o resultado com naturalidade, destacando aquela “perfeição do hit da Banda Mel” – a tal combinação harmoniosa de melodia, letra e ritmo que poucas canções conseguem alcançar.

A vitalidade de “Baianidade Nagô” também se mede pelas suas inúmeras regravações. Artistas de diferentes gerações e estilos já deram seu próprio tom à canção, sempre em registros que mantêm aquela atmosfera festiva e atemporal. Daniela Mercury gravou em 2005. Ivete Sangalo fez uma versão em voz e violão no Festival de Verão de 2013 que emocionou meio mundo. Gilmelândia registrou em 2003. Anavitória incluiu no repertório em 2018. Maria Gadú, no mesmo ano, gravou com Mel Lisboa para a trilha sonora da novela “Segundo Sol”. E Silva, em 2019, também deixou sua marca.

Essa diversidade de intérpretes – do axé tradicional à MPB contemporânea – mostra como a canção consegue dialogar com públicos e épocas diferentes. Ela é daquelas que a gente ouve no trio elétrico, mas também cabe num violão numa roda de amigos, numa tarde tranquila.

Neste sábado (14/02/26), a Banda Mel aqueceu os tambores no Rio Grande do Norte. A cidade de Natal recebe o grupo em dose dupla: primeiro na Praia da Redinha, depois em Ponta Negra.

Dois shows, uma só energia – aquele repertório que faz qualquer potiguar esquecer que não nasceu na Bahia e pular como se estivesse no Pelourinho.

Na segunda-feira (16), a história pesa. A banda volta a Salvador para um encontro marcado com a memória afetiva da cidade. O trio do bloco Os Internacionais está previsto para sair às 14h no circuito Osmar – o Campo Grande, coração da folia mais tradicional.

Mas não é só mais um desfile. É um acontecimento: após mais de três décadas, o bloco volta a desfilar com seu nome original. A última vez foi em 1993, quando quem puxava era Daniela Mercury.

Trinta e três anos depois, Os Internacionais retornam celebrando 65 carnavais de existência – e olha que o bloco nasceu em 1962, no Santo Antônio Além do Carmo, desafiando a norma de pular Carnaval dentro dos clubes.

O formato é inovador: o bloco aposta num desfile sem cordas, abrindo a festa para a pipoca . Quem comanda o trio é a formação que marcou época: Márcia Short e Robson Morais, os mesmos que gravaram “Baianidade Nagô” em 1991 e hoje vivem uma fase especial desde a reunião em 2024.

O repertório? Só clássicos da Axé Music, daqueles que fazem o tempo parar e a avenida inteira cantar junto.

No domingo (15), Os Internacionais desfilaram no formato tradicional – com cordas e abadás – tendo o É o Tchan como atração principal. Mas é na segunda que a história ganha contorno de reencontro: a Banda Mel, os vocais inesquecíveis, a memória afetiva e a cidade inteira abraçando de novo um dos blocos mais antigos da folia.

Quem for para o Campo Grande na segunda-feira vai encontrar um trio sem cordas, aberto, democrático. Vai ouvir Márcia Short e Robson Morais dividindo os vocais como nos velhos tempos. Vai cantar “Baianidade Nagô”, “Prefixo de Verão”, todos aqueles hinos que ajudaram a construir a trilha sonora da Bahia.

E, no fundo, vai testemunhar algo raro: um bloco que completa 65 anos voltando às origens, com o nome de batismo, com a banda certa e com a cidade inteira pronta para receber.

ATO 4. O que significa “Baianidade Nagô”?

Mas afinal, o que quer dizer esse título? “Baianidade”, nas palavras de Evandro, abraça os variados elementos da cultura baiana que dão a cara ao Carnaval. É a mistura de tudo: a alegria, a fé, o suor, a poeira levantada atrás do trio. Já “Nagô” remete às raízes africanas, à herança dos povos iorubás que tanto contribuíram para a formação cultural da Bahia e do Brasil. É o “negro toque do agogô” que a letra menciona – aquele instrumento de origem africana que encontraram no samba-reggae um novo lar.

Nas entrelinhas, a canção também guarda geografias afetivas. A Avenida Sete, onde Evandro canta que “da paz eu sou tiete”. O Farol da Barra, a brilhar. Tudo isso fazia parte dos circuitos carnavalescos da Salvador dos anos 1990, mas hoje já se incorporou ao imaginário de quem nunca sequer pisou na cidade.

“Baianidade Nagô” é mais do que uma música de carnaval. É um artefato cultural que pegou a essência de um povo e a transformou em melodia. Concebida por um jovem compositor que ousou deixar uma fita com uma secretária, materializada pela Banda Mel naquelas vozes inesquecíveis de Márcia Short e Robson Morais, com arranjos precisos de Jailton Dantas e a turma toda da formação clássica, a canção conseguiu o feito raro de cristalizar, em versos, a experiência sensorial e afetiva do carnaval de Salvador.

SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

Compartilhar:

Mais lidas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *