Aldeia Nagô
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Sonzaço! Capinan 85: conversa de Orixá, axé e poesia que não se apaga. Por Renato Queiróz

2 - 3 minutos de leituraModo Leitura

Pois é, chegamos de novo em fevereiro – tempo de acender vela pra Iansã, tempo de lembrar que o santo é só um ângulo do homem, mas o homem, quando é poeta, vira ângulo do mundo inteiro.

Senta que lá vem História!

Vi, esses dias, no Facebook de Capinan, no dia 19 de fevereiro, uma foto dele e Gil junto ao bolo de aniversário:

“Revendo amigos. Visita do irmão @gilbertogil no dia do meu aniversário de 85 anos.” Foto de @claudiolealcl.

Uma foto histórica digna de um mote que gosto muito:

“Da série: Grandes Encontros!”

Desse momento, lá de Esplanada pra Salvador, de Salvador pro Brasil, e pro mundo, o senhor Capinam foi desenhando essa coisa rara: letra que é poesia, poesia que é canção, canção que é resistência.

Desde “Viramundo” — esse hino dos que chegam na maravilha cortando faca e facão — até “Soy Loco por ti, América”, que até hoje cutsuca a madrugada da gente com seu grito latino-americano.

E teve também “Água de Meninos”, que fez com Gil pra contar o incêndio daquela feira que abastecia Salvador inteira e movimentava por cultura a Baía de Todos os Santos.

O fogo que levou tudo, mas não levou a memória do povo que ali vivia. Virou música, virou denúncia, virou aquele axé que atravessa o tempo feito vento de Oyá — destruindo pra depois renovar.

A feira virou cinza, mas a canção plantou ali, no chão da cidade, uma feira de palavra que nunca mais se apagou.

A parceria e amizade com Gil? Ah, isso é conversa de Orixá. Ele com seu violão mundo afora, o senhor com seu caderno de escrever o tempo.

Juntos fizeram “Miserere” virar reza de quem sabe que a vida é essa coisa: a gente colhe a rosa e transforma, a gente vê a árvore antiga do parque e enxerga cadeira, muleta, aríete.

O senhor completa anos e a gente continua tentando entender como cabem tantos mundos numa só pessoa.

O querido Gil disse uma vez que o senhor era “portador de uma alma ainda mais severina” — esse sertão que vem com a gente, essa seca que vira palavra, esse machado de Xangô que não arrefece.

Que venham mais versos.
Que venha mais espuma.
Que venha mais vida.

Com admiração imensa e axé nagô,

Vivas a Jose Carlos Capinan, poeta maior!

P.S.: O “Cancioneiro Geral” de 2024 e o tributo de 2025 são provas de que sua obra segue fornecendo “matéria para os que continuam na estrada”.

Aqui: a versão de “Viramundo” com Maria Bethânia e Gilberto Gil no DVD “Noite Luzidia”, Canecão, 2001. Com produção de Ana Basbaum, sob a direção artística de Bibi Ferreira e o selo da Biscoito Fino.

O DVD “Noite Luzidia” de Maria Bethânia, que registra o show de 35 anos de carreira da cantora, foi lançado oficialmente em dezembro de 2012. Embora gravado em setembro de 2001, o registro audiovisual da gravadora Biscoito Fino só chegou às lojas onze anos após o evento.

SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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