Sonzaço! Do hino cultural ao abismo geopolítico: a afirmação e a vulnerabilidade da América Latina. Por Renato Queiróz
Senta que lá vem História!
Ato I: O marco artístico e o chamado
Em 1975, logo após o fenômeno dos Secos & Molhados, Ney Matogrosso lançava seu primeiro disco solo, “Água do Céu – Pássaro”.
O trabalho marcou sua estreia autoral com uma sonoridade eclética, mesclando rock progressivo, jazz-rock e ritmos latinos. Nele, Ney explorava toda a extensão de sua voz única e mergulhava em temas caros à sua identidade, como a força da natureza e as complexidades do Brasil.
Canções como “Homem de Neanderthal” e “América do Sul” se tornaram sucessos relativos, com o álbum seguinte, “Bandido” (1976), Ney alcançou reconhecimento nacional
a consolidar uma trajetória artística independente e ousada. Mais do que um álbum,
“Água do Céu – Pássaro”
era a afirmação de um artista singular.
Ato II: Afirmação cultural versus vulnerabilidade política
A canção “América do Sul”, entoada por Ney Matogrosso em 1975, ergue-se como um monumento sonoro de afirmação identitária.
Seus versos – “Deus salve a América do Sul / Desperta, ó claro e amado sol” – ecoavam como um chamado ao autorreconhecimento e à união de um continente que, naquele momento histórico, lutava contra a sombra de regimes autoritários e a crescente influência cultural estrangeira.
Contudo, essa mesma exaltação da soberania cultural e do “orgulho latino” que a música celebrava revela sua face mais vulnerável e paradoxal quando submetida ao crivo de um experimento geopolítico extremo: a hipótese de uma intervenção militar direta dos Estados Unidos na Venezuela.
A análise conjunta desses dois cenários – um, histórico e artístico; outro, preocupante e político – desvela a tensão permanente e trágica que define a posição da América Latina no tabuleiro internacional: o abismo entre a potência da autoafirmação e a fragilidade da autodeterminação.
O projeto encarnado por Ney Matogrosso em “Água do Céu – Pássaro” era, em sua essência, um ato de soberania artística. Ao optar por um disco conceitual, extravagante e de vanguarda, o artista reivindicava um espaço autônomo de criação, livre das fórmulas comerciais impostas pelo mercado.
Do mesmo modo, a composição de Paulo Machado era um ato de soberania narrativa: uma tentativa de definir a identidade latino-americana a partir de dentro, celebrando sua terra morena e sua força tropical, contra uma avalanche cultural externa.
A recepção do trabalho – aclamação crítica versus a comercial inicial – ilustra juntamente o sonho e o risco dessa autonomia proclamada. A ousadia em afirmar-se por uma linguagem própria, complexa e não submissa ao gosto hegemônico, gerou de algum modo resistência. A aclamação comercial foi tardia; o disco vendeu pouco à época, sendo um cult posterior.
Este microcosmo da cena artística brasileira dos anos 1970 é um reflexo perfeito do macro-dilema político do continente.
Ato III: A anatomia de uma intervenção: demolição da soberania e re-narrativação
É precisamente neste ponto que a hipótese do “Leviatã Ferido” conecta-se de maneira visceral com o hino de Ney. Se a música é um exercício de construir e proclamar soberania (cultural), a intervenção militar é o seu oposto absoluto: a demolição violenta da soberania (política).
Essa reflexão ilumina o cerne do problema: o Estado-nação existe precisamente para erigir um dique contra o caos externo e garantir a ordem interna. Sua soberania é a pedra angular desse edifício.
Uma intervenção externa, mesmo que justificada por uma narrativa de “correção” ou “libertação”, é um ato de guerra contra esse princípio fundador.
O paradoxo, aqui, é devastador: a ação que visa resolver um suposto caos interno (o de um governo, por vezes, considerado ilegítimo) promove um caos sistêmico muito maior ao normalizar a violação do pacto fundamental que permite a coexistência internacional. A “solução” destrói o próprio alicerce que torna qualquer solução duradoura possível.
Aqui, uma crítica à linguagem do poder, se torna crucial para entender a continuidade com o primeiro cenário.
A canção “América do Sul” era, também, um projeto de linguagem. Buscava ressignificar o continente, dar-lhe um nome próprio e digno, em contraposição a visões externas estereotipadas ou subalternas.
Na hipótese de intervenção militar, observa-se o processo inverso e perverso: um poderoso aparato midiático e diplomático entraria em ação para realizar uma re-narrativação do evento. Os conceitos seriam torcidos: a “invasão” se tornaria “intervenção humanitária” ou “operações de liberação”; a “agressão” se transformaria em “restauração da democracia”.
O Grande Irmão hegemônico não precisa de câmeras de vigilância em cada canto; ele controla o dicionário. A soberania violada da Venezuela seria, então, apresentada não como um crime contra o direito internacional, mas como um sacrifício necessário por um bem maior, definido unilateralmente pelo poder interveniente. A soberania celebrada em “América do Sul” seria, nesse novo léxico imposto, descartada como um obstáculo retórico à marcha do progresso.
Ato IV: A fragilidade da autonomia e a metáfora das vaias
A síntese dessas duas perspectivas conduz à reflexão mais profunda e angustiante.
A celebração da identidade e da autonomia, tão vibrante na arte, mostra-se incrivelmente frágil na arena da realpolitik. O chamado ao “despertar” da América do Sul esbarra na realidade de suas profundas clivagens internas, que seriam exploradas e amplificadas por uma intervenção externa.
A fragmentação ideológica do continente – entre governos progressistas e conservadores -, incapaz de gerar uma resposta uníssona, seria a prova definitiva do fracasso em construir uma soberania coletiva e resiliente. Os mecanismos desmoronaram diante do fato consumado, evidenciando que a autonomia regional é um projeto permanentemente inacabado e sob constante ameaça.
Portanto, o bombardeio final neste cenário não atingiria apenas um alvo físico em Caracas. Seu impacto mais profundo e duradouro seria simbólico e político. Ele atingiria em cheio o sonho cantado, revelando-o como uma bela, porém vulnerável, expressão de desejo.
Os escombros deixados para trás não seriam os de um novo amanhecer de liberdade, mas os do já combalido projeto de uma América Latina como ator soberano no palco global. O mapa que emergiria seria o velho mapa das esferas de influência e das dependências renovadas, agora legitimado não apenas pela economia, mas pelo uso cru da força revestida de um novo discurso.
Ato V: A soberania como performance diária
A conclusão que se impõe é trágica e cíclica.
A necessidade de afirmar a própria voz — seja através da arte, seja através da defesa intransigente da soberania política – nasce justamente da percepção constante de sua possível supressão.
A canção “América do Sul” é, assim, muito mais do que um hino; é um sintoma e um antídoto ao mesmo tempo. Um sintoma da ferida sempre aberta da dominação externa, e um antídoto poético contra o esquecimento de si.
Outro momento emblemático da trajetória de “América do Sul”, que traz suas camadas de significado, ocorreu durante a primeira edição do Rock in Rio, em 1985. Em uma noite dedicada ao heavy metal, perante uma plateia jovem e ansiosa por guitarradas, Ney Matogrosso subiu ao palco.
Ao entoar as primeiras palavras solenes: ‘Deus salve a América do Sul’, foi recebido por uma chuva de vaias e até ovos jogados por uma parcela do público. Aquele episódio, longe de ser um mero desastre de palco, é uma poderosa metáfora. Ele revela o choque entre diferentes projetos de brasilidade e de identidade cultural.
O episódio tornou-se, assim, um marco simbólico da tensão entre a busca por uma identidade cultural autóctone e a forte atração por modelos culturais importados, um dilema central na discussão sobre a soberania cultural da América Latina.
O despertar cantado não é um evento, mas um processo contínuo e precário, cujo maior inimigo pode não ser o sonho, mas o pesadelo de acordar e descobrir que a narrativa sobre quem você é já foi escrita, e as armas para impô-la, já estão na posição de disparo.
A soberania não é um dado adquirido, mas uma performance diária de afirmação – e sua plateia é, muitas vezes, hostil.
A hipótese da intervenção nos lembra, de forma brutal, que a luta pela última palavra sobre o próprio destino – a luta contra a re-narrativação perpetrada por poderes externos – é a luta definitiva.
Aqui, “América do Sul”
SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música
