Aldeia Nagô
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Sonzaço! O desejo e a teimosa arte de recomeçar. Por Renato Queiroz

8 - 11 minutos de leituraModo Leitura

O início de um novo ciclo sempre nos convida a uma pausa profunda para reflexão, um momento sagrado de observação dos fios invisíveis que vestem não apenas nossa existência individual, mas a própria textura do tempo coletivo.

Senta que lá vem História!

Ato I: O tempo e o essencial

Nessa vida, canções, letras, imagens e memórias ancestrais formam um patrimônio íntimo que nos mantém íntegros, funcionando como antídoto poderoso contra a erosão da distração, da verdade líquida e a velocidade anestesiante da vida contemporânea.

É nesse campo fértil do afeto genuíno e da atenção plena que os encontros verdadeiros germinam, encontros esses capazes de, silenciosa e radicalmente, alterar trajetórias e reescrever destinos.

Ao projetar um novo ano à nossa frente, como 2026, o desejo mais puro que brota não é por grandes espetáculos, mas pela coragem serena de nomear e viver o essencial – tal como se redige um telegrama, onde cada palavra, por ser rara, carrega o peso da verdade.

Amar sem rodeios retóricos, escolher com serenidade consciente e seguir em frente sem jamais abdicar da ternura são os gestos revolucionários que podem infundir nossos dias corriqueiros de uma humanidade vibrante e uma profundidade significativa.

O que é genuíno raramente se veste de complexidade desnecessária; sua beleza reside justamente na potência do simples, bastando que a palavra certa encontre, no momento exato, o coração preparado para recebê-la.

Ato II: A sincronia das almas – O nascer de uma trajetória

O encontro de Roberto Frejat com o Barão Vermelho é o início de uma jornada marcada pelo pertencimento.

Nascido no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1962, Roberto Frejat carregava, aos 19 anos, a inquietação comum a quem busca um lugar no mundo.

Depois de anos, entre discos, instrumentos, acordes, exímios professores, aulas e conservatórios… Quando o convite para ensaiar com um grupo ainda sem nome chegou, não se tratava apenas de mais uma oportunidade. Ali, naquela sala, diante daqueles jovens igualmente obstinados, ele encontrou algo raro: a sensação de pertencimento.

Enxergou, na vontade férrea de Maurício, Guto e Dé de “deixar a música pronta”, muito mais que uma banda – viu um propósito coletivo. Era “exatamente o que estava procurando”, não por falta de opções, mas por uma sincronia de almas.

Daquele instante em diante, sua vida não seria mais a mesma. O músico que se formou ali, mais do que um fundador do Barão Vermelho ou o principal parceiro de Cazuza, tornou-se arquiteto de uma trajetória que, vista de longe, revela um comovente testemunho de uma verdade simples: recomeçar não é um acidente de percurso, mas a própria essência do caminho.

Ali nascia não apenas um músico, mas um artista cuja vida se entrelaçaria com a história do rock brasileiro.

Ato III: O Hino e a História – Quando a música ecoa o destino de um país

A parceria frutífera e explosiva com Cazuza – o último a entrar no grupo inicial – forjou a identidade autoral definitiva do Barão Vermelho, gerando clássicos imediatos e tornando-se uma das duplas mais ricas da música nacional.

Destaca-se, nesse contexto, ‘Pro Dia Nascer Feliz’ – composta por Frejat e Cazuza –, que se tornou um hino de esperança e alegria incontida.

Sua ressonância foi consagrada numa noite histórica que parecia ter dois corações batendo em uníssono.

Em uma noite que respirava o alívio tenso de uma vitória indireta: 15 de janeiro de 1985, no Rock in Rio I.

Enquanto na ‘Cidade do Rock”, sob as luzes do palco, o Barão Vermelho com Cazuza no vocal lançava ao céu a promessa de “Pro Dia Nascer Feliz” para uma multidão eufórica, o Brasil carregava ainda a cicatriz fresca de uma derrota.

Apenas nove meses antes, na madrugada de 25 para 26 de abril de 1984, a esperança das Diretas Já havia sido barrada no Congresso. A Emenda Dante de Oliveira, fruto da imensa pressão popular, não conseguiu os votos.

O país chorou a rejeição, mas não desistiu do fim do túnel.

Aquele show histórico acontecia, portanto, no calor de um plano B político.

Enquanto a música ecoava, em Brasília os deputados e senadores se preparavam para o Colégio Eleitoral – o voto indireto que era a única saída imediata da ditadura.

A euforia do palco era irmã gêmea da ansiedade contida da transição.

Na madrugada seguinte àquela apresentação, Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio.

Não era a via direta sonhada nas ruas, mas era a chave concreta para abrir a porta após 21 anos.

Naquele contexto, “Pro Dia Nascer Feliz” ganhou uma camada ainda mais profunda de significado.

Não era o hino de uma vitória completa, mas a melodia teimosa da resistência que, mesmo após uma queda legislativa, se recusava a se calar e seguia em frente, buscando por outro caminho, uma harmonia, aquele amanhecer há tanto tempo prometido.

A letra da canção falava do desejo que sobrevivia à decepção, do “dia” que insistia em nascer mesmo quando a noite política se estendia.

Enquanto na “Cidade do Rock”, sob as luzes do palco, o Barão Vermelho com Cazuza no vocal lançava ao céu a promessa de “Pro Dia Nascer Feliz” para uma multidão eufórica, em Brasília, nas salas abafadas do Colégio Eleitoral, um país inteiro segurava a respiração. Eram dois rituais de esperança acontecendo em tempo real.

Na madrugada que se seguiu, quando os primeiros raios de sol ainda não haviam dissipado a poeira do show, a tensão política se dissolveu em lágrimas, risos, gritos e abraços: o civil Tancredo Neves foi eleito Presidente.

Naquele dia, a letra da canção não era mais apenas um desejo adolescente, de muita festa, diversão, farra, muito sexo, aditivos ativos, passivos e rock’n roll; era a descrição exata do que milhões sentiam ao ver, pela primeira vez em décadas, a possibilidade real de um amanhã diferente.

O palco do rock e o plenário da política cantavam, cada um à sua maneira, o mesmo hino de recomeço.

Naquele palco e naquele plenário, duas formas de esperança se encontravam: a promessa de um amanhã feliz e o suspiro coletivo de um país que ansiava por renascer democraticamente.

A canção deixou de ser apenas um sucesso para se tornar um símbolo duplo: de uma geração e de uma nação à beira de um novo dia.

Ato IV: A arte do recomeço – Do barco que navega às novas conversas

O baque da saída de Cazuza do Barão Vermelho ainda em 1985, após aquele histórico Rock in Rio, poderia ter sido o fim.

No entanto, coube a Frejat, como ele mesmo sugeriu, assumir o leme com a humilde e determinada preocupação de fazer “aquele barco continuar a navegar”.

Essa transição, de guitarrista e compositor de apoio para vocalista principal e frontman, foi um primeiro e colossal recomeço, consolidado no álbum “Declare Guerra” e sustentado por mais 12 discos que navegaram entre o rock visceral e baladas sensíveis.

Sua criatividade, porém, nunca se contentou com os limites do palco principal. Frejat, o produtor, abriu um flanco paralelo de reinvenção.

Em 1989, surpreendeu ao produzir o disco da banda punk paulista Inocentes. Em 1995, sua curadoria visionária deu forma ao tributo a Roberto Carlos, o álbum “Rei”, uma ponte ousada entre a Jovem Guarda e a vanguarda dos anos 90, reunindo desde Erasmo Carlos até Chico Science e Nação Zumbi e Skank.

No ano seguinte, mergulhou na cena pernambucana com o CD de Jorge Cabeleira e o Dia em Que Seremos Todos Inúteis.

Cada produção era um novo começo, uma nova conversa musical.

O grande divisor de águas público veio em setembro de 2017, quando Frejat oficializou sua saída do Barão Vermelho, banda que liderou por três décadas. Era o fim de uma era e o recomeço mais audacioso.

Quase em seguida, lançou o single “Tudo se Transforma” – título que era um manifesto.

Seu primeiro show nesta nova vida solo foi nada menos que no Rock in Rio 2017, fechando um ciclo aberto no mesmo palco 32 anos antes e inaugurando a turnê de um artista que, mais uma vez, se reencontrava.

Ato V: O poema que se tornou farol – Dos ‘Votos’ ao ‘Amor pra Recomeçar’

Dentre a vasta galeria de hits de Frejat que marcaram gerações, há uma canção que encapsula com rara perfeição este espírito de renovação contínua que define sua jornada: “Amor Pra Recomeçar”.

Composta em parceria com Mauro Santa Cecilia e Mauricio Barros, a música representou a abertura de um flanco novo em sua obra: um romantismo maduro, direto, desprovido de clichês.

Popularmente, creditava-se sua inspiração a Victor Hugo. A verdade, porém, é mais bonita: a semente da letra nasceu do poema “Votos”, de autoria do multifacetado artista gaúcho Sérgio Jockymann (1930-2011), procurem! Vale mesmo ler!

A descoberta dessa fonte, mais modesta e próxima que o gigante francês, revela um Frejat atento às palavras que o cercavam, um garimpeiro de sentimentos simples que guardam uma verdade complexa.

É a beleza serena, profunda e ao mesmo tempo simples do poema de Jockymann que ecoa e se expande na canção, transformando-a num farol para qualquer momento de passagem, especialmente a virada do ano:

“Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor prá recomeçar
Prá recomeçar…”

Esse sonzaço transcende em muito o âmbito musical. É um desejo universal e profundamente humano.

Ele fala ao indivíduo, mas também ecoa com o sentimento coletivo daquela madrugada de 15 de janeiro de 1985, quando um país cansado decidiu, contra todo ceticismo, acreditar que ainda existia amor – no sentido mais amplo de amor à liberdade, à justiça, à democracia – para recomeçar.

Ato VI: A Aldeia futura – Um chamado para esperançar

Nesse sentido, ao pensar um novo ano, podemos nos inspirar nessa dupla herança: a resistência alegre da cultura e a esperança teimosa da história. Na materialização de uma consciência que entende o tempo como um ciclo e a vida como um bem coletivo.

A ideia de aldeia, tão cara às comunidades tradicionais e tão urgente no mundo hiperindividualista, ressurge como um chamado potente.

Ela nos lembra que o futuro não se constrói na solidão, mas na rede do cuidado mútuo, no compartilhamento do pão, do som, da palavra e da memória. Celebrar, na Aldeia, é um ato de resistência e de cuidado.

É desse espírito de aldeia – onde o futuro se constrói na rede do cuidado e na coragem de esperançar – que brota, portanto, um desejo de Ano Novo que é muito mais que um protocolo social.

Ele se torna um convite à ação reflexiva e ao compromisso afetivo.

É um chamado para que cada um de nós, inspirado pela resiliência de Frejat, pela poesia de Jockymann, pela força e pela melodia teimosa de “Pro Dia Nascer Feliz” revele memória, presença e esperança ativa, na trama pessoal e coletiva.

Que 2026 seja o ano em que a semente plantada naquela madrugada de 1985 – a semente da esperança civilizatória – floresça com nova força. Que nossa esperança, individual e nacional, não seja um sentimento passivo, mas um verbo: esperançar, que implica caminhada, luta e construção.

Ato VII: O amanhecer prometido

Que 2026 se desdobre como um grande romance humano, com capítulos que nos surpreendam pela generosidade, personagens que entrem em nossa história para somar beleza, e finais de cada dia que nos façam agradecer, genuinamente, pela chance de um novo amanhecer.

Que seja um ano de encontros que transformam, de coragem para guardar o que é simples e verdadeiro, e de muito, mas muito amor pra recomeçar – sempre que a estrada pedir um novo fôlego, um novo rumo, uma nova canção.

Que a ternura seja nossa arma.
O desejo a nossa coragem.
A memória, nosso alicerce.
A esperança, nosso verbo.
E a aldeia, nosso porto seguro.

Que 2026 seja, enfim, o ano em que o dia nasça feliz.

Aqui: Barão Vermelho – Pro Dia Nascer Feliz – Rock In Rio 1985
Guitarrista: Roberto Frejat;
Baixista: Dé Palmeira;
Vocalista: Cazuza;
Tecladista: Maurício Barros

Feliz Ano Novo!

SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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