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Sonzaço! Um samba de uma nota só e o show. Por Renato Queiróz

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Imagine só: é 29 de abril de 1965, e a sala de estar de milhões nos EUA sintoniza um programa de grande sucesso de audiência – The Dean Martin Show.

Senta que lá vem História!

De repente, os acordes inconfundíveis de “Samba de Uma Nota Só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, tomam conta do ar.

No palco, dois gigantes: o astro descontraído Dean Martin e a estrela europeia Caterina Valente.

Aqueles poucos minutos não foram apenas uma performance; foram um verdadeiro evento cultural, uma das janelas mais brilhantes pela qual a bossa nova conquistou o mundo.

É curioso pensar que, para o público do Dean Martin, aquilo poderia soar apenas como uma melodia charmosa. Mas aquele samba carregava uma revolução em sua simplicidade.

A escolha da música em si era uma declaração: Jobim e Mendonça brincavam com a ideia de minimalismo, construindo uma obra-prima sobre praticamente uma única nota.

Era a bossa nova em sua essência, e sem muitas complicações e acordes viajantes, e ela estava prestes a ser servida no prato principal da televisão americana.

Falando em servir, ninguém melhor que Caterina Valente para ser a embaixatriz do ritmo. A mulher era uma força da natureza.

Poliglota e dona de uma versatilidade vocal assombrosa, Caterina já vinha, desde 1959, fazendo a ponte entre a bossa nova e a Europa.

Enquanto os puristas talvez discutissem nuances no Rio, Valente colocava o som para tocar em francês, alemão e italiano, conquistando plateias e abrindo caminho. Ela não apenas cantava a bossa – ela a traduzia culturalmente.

E ao seu lado, o rei da simpatia, Dean Martin. Com seu smoking impecável e um copo na mão (provavelmente de suco de maçã, para manter a imagem), Martin era o anfitrião perfeito. Seu estilo despojado e sua voz aveludada ofereciam o contraponto ideal ao domínio técnico e à energia precisa de Valente.

Ele não tentou ser brasileiro; ele foi Dean Martin cantando bossa nova. E foi justamente essa autenticidade que funcionou, criando uma química deliciosa de contrastes.

Assistindo à gravação hoje, o que mais impressiona é a naturalidade.

Valente entoa o português com uma convicção que vai além de uma pronúncia necessariamente correta, enquanto Martin intercala com seu inglês suave, quase sussurrado.

Há um respeito mútuo no ar, uma alegria compartilhada em apresentar aquela joia musical.

Você percebe que ambos entendiam que estavam participando de algo especial, algo maior que um simples número de programa de auditório.

Por isso, aquela noite de 1965 foi muito mais que um sucesso passageiro. Foi o momento em que a bossa nova, já adorada por jazzistas conquista também todos que amam a Música.

A bossa provou que tinha o carisma para conquistar o mundo.

Foi a consagração de que uma música de essência brasileira e poderia, com suas nuances e complexidade, encontrar um lar nos ouvidos do mundo inteiro. E tudo isso, caro leitor, em apenas uma nota… ou quase.

Um momento de leveza, descoberta e bom humor, Mendonça e Tom, assinaram sem dúvidas!

Quer sentir a magia? A apresentação histórica está aqui:
Dean Martin & Caterina Valente – Samba de Uma Nota Só (1965)

SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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