Tire o pé do chão. Por Jorge Papapá
A música baiana entrou em regime de monocultura. Descobriu-se que o país não tem mais estações do ano: só existe o pré-carnaval, o carnaval e o eco cansado do carnaval anterior. A produção musical obedece como quem não tem escolha. Tudo precisa pular, suar, mandar tirar o pé do chão — mesmo quando o chão já foi vendido, loteado e esquecido.
Compositores deixaram de escrever canções para desenvolver slogans rítmicos. Trabalham como estagiários da euforia, treinados para produzir refrões que funcionem em bloco, trio elétrico, camarote corporativo e propaganda de cerveja. A melodia precisa ser curta, a letra previsível, a repetição estratégica. Silêncio virou falha técnica. Pausa virou pecado. Ideia virou risco.
As rádios cumprem sua função com eficiência quase pedagógica: impedir qualquer forma de escuta que não seja automática. O dial virou uma esteira onde as músicas passam iguais, embaladas pela mesma batida, pelo mesmo entusiasmo forçado. Não importa se é terça-feira chuvosa ou domingo de ressaca moral — a ordem é a mesma. Não se ouve música; obedece-se a ela.
Quando uma canção tenta existir fora desse circuito — mais lenta, mais torta, menos gritante — ela é imediatamente carimbada como “difícil”, “de nicho”, “pouco radiofônica”. Tradução: não serve para manter o ouvinte agitado o suficiente para não trocar de estação. A diversidade sonora é celebrada em discurso e enterrada na prática.
A imprensa cultural, sempre sorridente, legitima o processo. Chama de “movimento” o que é apenas repetição bem financiada. Publica perfis entusiasmados de artistas que mal lançaram a segunda música e já são tratados como marcos geracionais. Tudo é “fenômeno”, tudo é “necessário”, tudo é “a cara do Brasil” — até a próxima estação, quando um novo refrão ocupará o lugar do anterior sem deixar vestígios.
Enquanto isso, discos inteiros somem. Canções que não nasceram para o verão não sobrevivem ao algoritmo. O artista que não se reinventa a cada três meses vira nota de rodapé. O que insiste em maturação é acusado de envelhecer mal. O tempo, que antes lapidava a música, agora é seu maior inimigo.
O carnaval, que já foi transgressão, virou norma. Aquilo que era excesso virou regra. A exceção — o recolhimento, a escuta, a música que não pede resposta imediata — passou a soar quase ofensiva. Como se parar para ouvir fosse um ato antipatriótico num país que se orgulha de não parar nunca.
Nesse cenário, a canção atemporal não é ignorada: ela incomoda. Ela lembra que a música pode atravessar décadas, não apenas playlists. Que pode sobreviver sem coreografia, sem bordão. E isso expõe o vazio do presente — por isso precisa ser afastada, silenciada, tratada como coisa de saudosista.
O resultado é uma Bahia musicalmente exausta, dançando por reflexo, sorrindo por hábito, ouvindo sem escutar. Um estado inteiro preso num carnaval eterno, onde ninguém mais sabe por que está pulando — mas continua, porque parar seria perigoso demais. Parar significaria perceber o silêncio entre uma batida e outra.
E perceber, hoje, é o único pecado que a festa não perdoa.
Jorge Papapá é cantor e compositor.

