Aldeia Nagô
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Um retrato que pulsa. Por Jorge Papapá

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Era noite quando recebi, pelo celular, uma fotografia antiga.

Não era apenas uma imagem qualquer dessas que circulam nas redes.

Era uma dessas fotografias que carregam história no silêncio.

Um retrato que pulsa.

Quando abri, senti um impacto imediato.

Ali estavam seis amigos-irmãos. Seis homens profundamente representativos da resistência negra na Bahia. Seis trajetórias que ajudaram a erguer pontes culturais, políticas e espirituais contra o racismo.

Fiquei parado olhando.

A fotografia parecia respirar.

Cada rosto trazia uma época. Cada sorriso guardava batalhas invisíveis. Cada postura denunciava coragem.

Reconheci cinco de imediato.

Mas o sexto — agachado na frente — me atravessou com um incômodo estranho. Eu o conhecia. Eu sentia. Eu sabia que era alguém muito próximo. Mas o nome… o nome escapava.

E quando o nome foge, parece que algo fica incompleto.

Liguei para Ubaldo Warú, que havia me enviado a foto.

— Ubaldo, quem é o amigo agachado?

Ele silenciou por alguns segundos.

— Rapaz… eu também não lembro. Mas reconheço esse sorriso. É alguém muito próximo da gente.

Aquilo me inquietou ainda mais. Como podemos esquecer o nome de alguém que foi tão presente?

Mesmo assim, resolvi postar a fotografia no Facebook. Identifiquei cinco. Escrevi seus nomes com respeito, com orgulho, com memória firme. E fiz uma observação sincera:

“Se alguém lembrar o nome do amigo agachado, por favor, diga.”

Era quase um pedido à comunidade.

Ou talvez um pedido ao tempo.

Fui dormir com aquela ausência ecoando dentro de mim.

E foi então que o impossível aconteceu.

No sonho, ele apareceu.

Não veio distante. Não veio como sombra. Veio com a naturalidade de quem apenas atravessou um corredor invisível. Aproximou-se e falou com voz serena:

— Jorge… aquele da foto sou eu. O Ghuma.

Acordei com o coração acelerado.

E, como um clarão que rasga a madrugada, o nome veio inteiro:

Arthur Ghuma.

Não era apenas lembrança. Era confirmação.

Levantei rápido, ainda com o corpo meio entre o sonho e a vigília. Abri o Facebook. Olhei novamente a imagem.

E lá estava ele.

Agora não havia dúvida. O sorriso era dele. A postura era dele. A energia era dele. Como pude não lembrar antes? Mas talvez não fosse esquecimento. Talvez fosse apenas o tempo esperando o momento certo de devolver o nome.

Editei o texto imediatamente.

Agora os seis estavam devidamente identificados.

Seis nomes.

Seis histórias.

Seis pilares.

Acordei minha mulher para contar o que havia acontecido. Ela me ouviu com atenção e disse, com aquela simplicidade que guarda sabedoria:

— Você não lembrava o nome… e ele veio lhe lembrar em sonho.

E eu entendi.

Porque homens como esses não desaparecem.

Eles permanecem circulando na memória coletiva.

Eles atravessam o tempo.

Ubaldo Warú foi um menino simples, humilde, cheio de desejo de entrar no mundo da música. Quantas vezes foi à minha casa falar da vontade de tocar um instrumento? Quantas conversas tivemos sobre ritmo, sobre futuro, sobre possibilidade? Eu o incentivei como quem acredita. Cuidei dele como quem reconhece talento ainda bruto. Ele estudou, insistiu, aprendeu. Logo estava na minha banda, segurando a percussão com firmeza. Mais tarde se tornaria uma das grandes referências do reggae da Bahia. E ali, naquela foto, já estava o germe do que ele viria a ser.

Antonio Godi sempre foi mais que irmão — foi mestre. Antropólogo, ator, diretor de teatro, professor universitário. Uma das grandes cabeças do pensamento negro baiano. Homem de reflexão profunda e ação prática. Conselheiro nos momentos difíceis. Intelectual que nunca se afastou da base. Seu nome na fotografia é como um selo de consciência histórica.

Lino de Almeida foi dos primeiros do movimento negro baiano. Militante quando ainda era perigoso ser. Radialista, sociólogo, articulador. Um dos criadores da Legião Rasta, ampliando pontes entre cultura e política, entre espiritualidade e resistência. Sua presença ali simboliza organização, construção coletiva, visão de futuro.

Milson Manoel sempre foi homem de linha de frente. Militante importante do nosso povo. Lutador incansável contra o racismo estrutural. Não fugia do enfrentamento. Era daqueles que sustentam a batalha mesmo quando o cenário parece adverso.

E então, finalmente reconhecido, Arthur Ghuma.

Poeta. Guerreiro da cultura. Combatente contra a discriminação em todos os níveis. Homem de palavra firme e sensibilidade profunda. Sua arma era a poesia, mas sua trincheira era a dignidade. Talvez tenha sido ele mesmo que não aceitou ficar sem nome naquela fotografia.

Porque nome é existência.

Nome é permanência.

Nome é memória viva.

A fotografia deixou de ser apenas uma recordação. Tornou-se um rito de reafirmação. Um chamado da ancestralidade. Uma lembrança de que a luta contra o racismo na Bahia foi construída por homens de carne, osso, sonho e coragem.

E que eles continuam aqui.

Enquanto houver alguém para contar suas histórias,

enquanto houver quem pronuncie seus nomes,

enquanto houver quem sonhe com eles,

ninguém será apagado.

Os seis estavam na fotografia.

Mas também estavam no tempo.

E continuam.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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