Aldeia Nagô
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Vamos chover no molhado? Por Walter Falceta Jr.

8 - 11 minutos de leituraModo Leitura

Não seja ingênuo. Por trás dos atos criminosos da família Bolsonaro contra os brasileiros, há muito mais do que o interesse em evitar que Jair Silvério dos Reis apodreça no sistema penitenciário.

Nesse caso, há também um interesse geopolítico, financeiro, que revela o desespero dos Estados Unidos em manter sua hegemonia global.

Vamos aos fatos, de forma sucinta e clara.

No ano 2000, a participação dos Estados Unidos na produção industrial mundial era de 26,6%. A China vinha bem atrás, com 6,6%.

Se você tem dúvida, consulte os registros da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO).

No início do ano passado, segundo a mesma UNIDO e o Statista (que tem uma bela base de dados), a China já liderava com folga a produção industrial mundial, com cerca 30% da atividade produtiva.

E os Estados Unidos? Sua participação havia despencado para meros 17%. E o pior (para eles), a tendência é de que essa fatia seja de mirrados 11%, em 2030, quando a China pode alcançar incríveis 45%.

Nos EUA, hoje, a indústria responde por apenas cerca de 10% do PIB, uma participação muito baixa se consideradas as outras potências econômicas globais.

Não significa que os Estados Unidos estejam fora do jogo das trocas econômicas, mas seus principais trunfos na disputa estão no campo dos ativos intangíveis ou semi-intangíveis, como em TI, laboratórios farmacêuticos e sistemas financeiros, entre eles, com destaque, o especulativo.

Não podemos tampouco dizer que os EUA já são irrelevantes. Essa é uma bobagem sem tamanho. Mas é certo afirmar que são perfeitamente substituíveis.

Se uma guerra interna varresse o país do mapa, de início, teríamos graves problemas, especialmente nos hubs de comunicação e na ordenação dos mercados monetizados. Mas o mundo sobreviveria. E não perderíamos, no médio prazo, nenhuma das comodidades modernas.

Provavelmente, com patentes quebradas, monopólios demolidos e know-how compartilhado, até prosperaríamos mais rapidamente. E de forma muito menos desigual.

Mas como os Estados Unidos, em decadência, seguem mandando no mundo? Basicamente por dois motivos: um sistema financeiro comercial ancorado no dólar e a maior presença militar de uma potência na história da humanidade.

No primeiro caso, o problema é que a maior parte das transações internacionais passa pelo complexo sistema de compensação norte-americano, as Clearing Houses.

Como o dólar é uma referência globalizada de valor, quando efetuamos uma operação aqui no Brasil ou mesmo em Botswana, as instituições bancárias dos EUA entram na jogada e, obviamente, vão tomar uma comissão pela intermediação do negócio.

Mas e o poder militar? Sim, os EUA têm hoje cerca de 128 bases espalhadas pelo mundo. Se contarmos centrais de inteligência e escritórios de cooperação, os milicos de lá estão presentes em 800 lugares do planeta.

Agora, vamos sintetizar a questão. Enquanto um player mundial, os Estados Unidos estão perdendo terreno para outras potências. Além do principal “inimigo”, a China, os estadunidenses temem a concorrência de outros países do BRICS: Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, além de outras nações coligadas ao bloco.

Adolf Trump sabe que a adoção de uma moeda alternativa para o grupo, deixando de lado o dólar, pode efetivamente destruir a economia norte-americana, gerando uma crise muito maior do que aquela que sucedeu o Crash de 1929.

As traições do clã Bolsonaro configuram ótima oportunidade para que as grandes corporações norte-americanas, representadas pelo governo republicano, disparem contra seus concorrentes na disputa pelo capital global.

O governo Trump, de modo especial, não defende o próprio país, mas os privilégios dos grandes magnatas.

No mais recente ranking da Forbes, 9 dos 10 homens mais ricos do mundo são norte-americanos ou vivem lá. São eles: Elon Musk – Tesla, SpaceX, xAI, Larry Ellison – Oracle, Mark Zuckerberg – Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), Jeff Bezos – Amazon, Blue Origin, Larry Page – Google, Jensen Huang – Nvidia, Sergey Brin – Google, Steve Ballmer – Microsoft e Warren Buffett – Berkshire Hathaway.

A maior parte dessa gente não produz, pelo menos diretamente, caminhões, canetas, aparelhos de TV, camisinhas ou camas de hospital, mas controlam sistemas complexos de informação estratégica e gestão de capitais.

Para manter os Estados Unidos como head planetário, o governo Trump se vale de todos os artifícios, mesclando a brutalidade pragmática imperialista à obsessão doentia pelo conservadorismo radical.

Desta vez, recorre a sanções financeiras contra cidadãos brasileiros e, no caso do ministro Alexandre de Moraes, vale-se do Global Magnitsky Act, uma lei dos EUA que o autoriza a impor sanções financeiras e restrições de visto a indivíduos estrangeiros acusados de corrupção ou violações graves de direitos humanos.

Trata-se de uma distorção vergonhosa do espírito da lei. O líder da campanha que resultou na criação da Lei Magnitsky, Bill Browder, discordou da aplicação da norma contra o ministro Alexandre de Moraes.

Segundo ele, o que ocorreu foi um “abuso” e um uso político de uma legislação que, originalmente, buscava preservar os pilares da justiça.

Está em curso, pois, um duelo entre a velha ordem e a nova ordem mundial. Ainda que se valendo do caso Mariana, o ministro Dino anuncia à carcomida capital do império que o Brasil é soberano, que somente a nossa legislação pode decidir se um cidadão nosso pode ou não sofrer, em território nacional, qualquer restrição.

Se subordinados à tirania estadunidense, os bancos cometem violação gravíssima dos preceitos constituintes de nosso arcabouço legal.

Aceitar mansamente esse atentado terrorista, arquitetado pela família Bolsonaro e por Donald Trump, abriria precedente perigoso, permitindo-se que os quadrilheiros de Washington tratem qualquer cidadão brasileiro como alvo global, em desprezo flagrante a nossa legislação.

O ataque ao Brasil, em várias frentes, desvela um conluio entre delinquentes norte-americanos, hoje em posições de governo, e bandidos brasileiros, lutando desesperadamente para retomar o poder.

É o “modus” miliciano em sua versão global.

Paralelamente, contemplam-se os interesses monopolistas de corporações como Visa, Mastercar e Paypal, interessadas em continuar mordendo imensas fatias dos valores empenhados em operações comerciais.

Ainda hoje, a Tia Joana, dona do restaurante por quilo da Pavuna, ajuda a manter, na Califórnia e em Miami, a vida de luxo dos acionistas majoritários dessas instituições, muitas vezes expressões da agiotagem legalizada.

Daí, o empenho de Trump e de seus asseclas nacionais em sabotar o PIX, uma iniciativa brasileira de sucesso a caminho de se estabelecer como uma alternativa justa de pagamento em transações além-fronteiras, especialmente nos países membros e coligados do BRICS.

Mas há mais do que isso. Imagine o que ocorreria se grandes economias como a chinesa, a indiana, a russa e a brasileira resolvessem operar fora do padrão dolarizado.

Haveria impactos significativos no sistema financeiro global, eliminando enorme gama de sanguessugas intermediários, inclusive na rota Wall Street – Faria Lima.

Não se engane. São pessoas que, efetivamente, não produzem nada. Mas que enriquecem por tomar daqueles que realmente fabricam e comercializam bens.

Esse processo de independência econômica faria com que o endeusado dólar perdesse seu status de moeda de reserva principal.

A cotação do dinheiro estadunidense cairia em relação a outras moedas fortes, como o yuan, o euro, o rublo, a rúpia e o nosso real. Certamente, seria reduzida a procura por títulos do tesouro norte-americano, exigindo-se um aumento nos juros como forma de segurar os investidores.

O SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) é um sistema global de mensagens financeiras usado por bancos e instituições para transferências internacionais de dinheiro. É historicamente muito influenciado por regras estipuladas pelos EUA e por seus aliados da Europa ocidental.

Numa eventual norma ordem mundial, mais bancos tendem a utilizar sistemas alternativos de pagamentos internacionais, como o CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), criado em 2015 pelo Banco Popular da China. Seu foco está em transações feitas em yuan.

Na verdade, ele é até melhor, porque combina comunicação e liquidação, enquanto o SWIFT apenas transmite mensagens.

Além de obviamente reduzir a dependência do dólar, aumenta a segurança e eficiência das transações, com o uso de tecnologias como o blockchain, que funciona como um livro de registros digital, transparente, descentralizado, compartilhado e imutável.

O CIPS fortalece, e muito, a ascensão do yuan como moeda global. Já facilita o comércio entre os países do BRICS e outras economias emergentes. Daí, o incômodo dos tubarões norte-americanos.

Se Brasil, Rússia, Índia e China resolvessem abandonar, de vez, o dólar como moeda de referência básica, reduzir-se-ia tremendamente o poder econômico global dos Estados Unidos.

Seriam criados novos blocos financeiros internacionais, não intermediados, com ganhos significativos para vendedores e compradores de mercadorias.

As commodities, como soja, minério de ferro e café, por exemplo, são frequentemente cotadas em dólares. Se ocorresse uma mudança para outras moedas, os países exportadores teriam suas moedas valorizadas.

Esses preços seriam naturalmente adaptados à nova ordem para refletir as flutuações cambiais, gradualmente progredindo para uma relação mais justa nas relações comerciais.

Vamos analisar o caso da soja. O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais, competindo diretamente com os produtores norte-americanos. Se negociarmos com a China ou India utilizando o yuan ou o real, os Estados Unidos provavelmente vão perder clientes e receitas.

Somos líderes em exportação de minério de ferro (principalmente para a China), além de cobre, manganês, alumínio e nióbio. Nesse último, temos quase o monopólio mundial.

A Índia também exporta minério de ferro, manganês e alumínio, além de ser um centro relevante no refino de alguns metais. São recursos fundamentais para siderurgia, construção civil, produção automotiva, fabricação de eletrônicos e energia renovável.

Quando negociarmos em yuan, rúpia ou mesmo real, vai se reduzir muito a importância do dólar no comércio de commodities. E no que isso resulta? Os EUA começarão a ter dificuldades para usar sua moeda como instrumento de poder econômico e geopolítico. Afinal, parte da força dessa denominação monetária vem da demanda global em transações de matérias primas.

Se uma parte significativa do comércio de ferro, cobre, petróleo e grãos migrar para moedas alternativas ou cestas de moedas, os EUA vão experimentar menor demanda por títulos de seu tesouro, ou seja, menos financiamento barato para sua dívida.

E, lógico, também terão menor poder de aplicar sanções e praticar terrorismo financeiro, porque os outros países não precisariam mais do dólar.

Vamos mais além. A Rússia é um grande produtor de petróleo. A China e a Índia são grandes compradores. Se os contratos de petróleo forem negociados em yuan ou rúpia, o dólar perde sua condição de referência no mercado global de energia, reduzindo o “petrodólar” e o poder de coerção dos EUA.

China e Índia também exportam eletrônicos, semicondutores, smartphones e medicamentos. Se o dólar for deixado de lado, os EUA perdem porque não podem mais influenciar preços nem controlar fluxos financeiros.

Por fim, vale lembrar que os Estados Unidos, cada vez mais voltados para a produção de bens intangíveis, dependem demais de outros mercados para sustentar o tal modo de vida americano.

As tarifas de 50% sobre o nosso café devem, no médio prazo, acarretar a falta do produto por lá. E os EUA são justamente o lugar do mundo em que, em termos absolutos, mais se consome a bebida.

Quem disse isso foi o próprio CEO da Associação Nacional do Café dos EUA, William Murray, que enviou reclamação formal ao embaixador Jamieson Greer, representante comercial da Casa Branca (USTR).

Ou seja, vamos chover no molhado. Se há crise, há também oportunidade. O mundo tem, agora, a chance de isolar e enfraquecer seu grande carrasco. A pergunta que fica é: temos ou não coragem de desafiar esse gigante com pés de barro?

Walter Falceta Jr. é jornalista e ex-presidente do Coletivo Democracia Corinthiana.

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