O que nos ensinam as cartas de Einstein e Freud sobre a guerra. Por Ruth de Aquino
Neste momento em que muitos de nós, em família ou entre amigos, comentamos, impotentes, pessimistas e traumatizados, os rumos funestos de um mundo invadido por Trump e Netanyahu, é fascinante ler “Por que a guerra?”, a troca de cartas entre o pai da física moderna e o pai da psicanálise.
A correspondência entre Einstein e Freud foi publicada em Paris em março de 1933, em inglês, francês e alemão. E proibida na Alemanha. O timing foi levemente tardio. Dois meses antes, Hitler tinha assumido o poder. O nazismo forçou ambos ao exílio: o físico e o psicanalista.
Faz quase 100 anos que os dois se conheceram, em 1927, em Berlim. “Einstein é alegre, confiante e gentil, e entende tanto de psicologia quanto eu de física, então tivemos uma conversa muito agradável”, disse Freud. O comentário revelava curiosidade, empatia, admiração. Sentimentos em falta.
Foi o único encontro pessoal entre os dois. Cartas alimentaram a amizade. A convite da então Liga das Nações, Einstein escolheu Freud para debater a tragédia das guerras e as saídas – ou impasses – para uma paz mundial duradoura. As perguntas e reflexões continuam atuais.
Na primeira carta, Einstein escreve que a libertação dos males da guerra “era a esperança de líderes morais e espirituais reverenciados além dos limites de seu próprio tempo e país, de Jesus a Goethe e Kant”. Mas, “o destino das nações está nas mãos de governantes políticos totalmente irresponsáveis”.
Vai adiante: “Estamos longe de ter uma organização supranacional competente para ditar veredictos de autoridade incontestável”. E obrigar a cumprir. Continuamos longe, um século depois.
Freud concorda que só “uma autoridade central com o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses” poderia evitar as guerras. “Dois requisitos são necessários: criar uma instância suprema e dotá-la de poder. Uma sem a outra seria inútil”. E isso não acontece porque “os ideais nacionalistas operam em direção oposta”. Por isso, estaríamos destinados ao fracasso.
Einstein insiste. “Existe alguma maneira de libertar a humanidade da ameaça de guerra?” Como a física “não permite vislumbrar os lugares obscuros da vontade e do sentimento humanos”, pergunto, o que diz a psicanálise?
Freud argumenta que os seres humanos têm dois instintos fundamentais: Eros, a pulsão de vida, para unir e preservar, e Thanatos, a pulsão de agressão, para matar. A guerra não seria apenas um acidente, mas uma manifestação desse impulso destrutivo inconsciente.
Einstein acusa a classe dominante, hostil a qualquer limitação da soberania nacional, de subjugar a maioria e usar a Igreja para incitar ao ódio. “Essa sede de poder político é apoiada por outro grupo, com aspirações puramente mercenárias”. Guerra, fabricação e venda de armas são mera oportunidade para promover interesses pessoais e ampliar a autoridade. Tudo tão igual que provoca arrepios.
Freud sugere a humanização pela educação. “Uma comunidade de sentimentos”. Mas não passa de utopia, se desdiz, cético. “Não há chance de suprimir as tendências agressivas da humanidade”.
Anos depois dessa correspondência, Einstein assinou a carta de 1939 incentivando os EUA a desenvolver a bomba atômica. Foi seu “único grande erro”, arrependeu-se, com imodéstia. “Não sei com que armas a Terceira Guerra Mundial será travada, mas a Quarta será com paus e pedras”.
Percebo à minha volta uma melancolia. Substitui a vã indignação com a dupla de loucos furiosos sem pudor de destruir cidades, cometer crimes de guerra e provocar o caos mundial.
Conheço quem fique ligado o tempo inteiro. Conheço quem se recuse a ver notícias e vídeos das guerras. E prefira olhar a Lua ou observar os pássaros. Para continuar a viver, comer, dormir, amar e sonhar.
Artigo publicado originalmente em O Globo de 09.04.2026
