Dança da noite. Por Jorge Papapá
A cidade já dormia quando ela apareceu.
Não com Passos apressados ou sapatos altos que rasgam o silêncio, mas com a leveza de quem conhece cada curva da calçada. Vestia um vestido simples, mas ele rodopiava com o vento como se fosse feito de seda cara. Não havia música. Ou melhor, havia: o zumbido distante de um poste prestes a apagar, o miado solitário de um gato sem pressa e o sussurro da brisa acariciando as folhas secas no chão.
Era meia-noite, e a rua – sempre tão ocupada, tão cheia de si – agora era palco. E ela, sem plateia, começou a dançar.
Não era uma dança estudada, dessas de academia com espelhos nas paredes. Era uma dança crua, espontânea, como quem esqueceu a lógica do corpo e se lembrou apenas da alma. Girava com os braços abertos, tropeçava na própria liberdade e ria disso. Cada passo parecia conversar com o escuro, e o escuro respondia, cúmplice.
Dançava para ninguém. Ou talvez para todos que já esqueceram como é ser livre à noite.
Lá do prédio em frente, alguém acendeu a luz da varanda. Um velho, talvez, ou um sem sono qualquer, parou para observa-la. Não disse nada. Não chamou. Apenas olhou. Porque há danças que não se interrompem.
Depois de um tempo – não se sabe quanto, porque o tempo também se rendeu à dança – ela parou. Recolheu os braços, ajeitou o vestido como quem encerra um espetáculo silencioso e caminhou de volta para a sombra. Sumiu como veio, sem nada anunciar.
A cidade, preguiçosa, continuou a dormir. Mas aquela rua, ah…aquela rua nunca mais foi a mesma. Havia ali, impregnada no asfalto, uma lembrança: de que até o concreto dança, se for noite, se for livre, se for dança
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

