Aldeia Nagô
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Uma viagem para não esquecer. Por Jorge Papapá

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Há viagens que começam antes da partida.

Naquela manhã de 1983, eu me preparava para levar um pouco da Bahia a Natal, para o FAN — Festival de Artes de Natal. Na bagagem iam artistas, instrumentos, compromissos. Mas iam também amizades, histórias e aquela maneira muito nossa de transformar qualquer viagem em acontecimento.

Entre os nomes da delegação estavam Zelito Miranda, Silvio Ricarti, Espiga, Cleber Leone e Leguelé Marques.

Antes de partirmos, Zelito conversou comigo sobre Leguelé. Fez algumas ponderações, demonstrou preocupação. Ouvi tudo e decidi seguir. Por precaução, porém, deixei a passagem de Leguelé para o dia seguinte.

Chegamos a Natal.

Zelito ficou na casa do casal Eustáquio e Bete. Eu fui para o Forte dos Reis Magos, onde aguardaria Leguelé. Ele deveria chegar às cinco da tarde.

As cinco passaram.

Leguelé não apareceu.

O tempo foi passando e a preocupação aumentando. Resolvi sair do Forte e caminhar pela praia para espairecer.

Foi quando encontrei uma carteira de identidade na areia.

Peguei o documento.

Era de Leguelé.

Olhei em volta. Pouco depois, encontrei outros documentos espalhados pela praia.

Não era difícil imaginar que alguma coisa estava errada.

Segui os sinais e encontrei Leguelé deitado na areia, completamente embriagado.

Chamei por ele. Tentei acordá-lo. Não sabia muito bem o que fazer.

Foi quando apareceu Fátima Nunes, cantora conhecida em Natal.

Ela poderia ter passado adiante.

Não passou.

Parou, ajudou e, num gesto que até hoje me impressiona, ofereceu a própria casa para que Leguelé tomasse banho, descansasse e se recuperasse.

A casa era de Fátima.

Era ela quem estava abrindo a porta para um homem que acabara de conhecer.

Levamos Leguelé para lá.

Algumas horas depois, ele voltou ao Forte. Banho tomado, roupa limpa, aparentemente recuperado. E Fátima estava com ele.

Foi então que Leguelé nos proporcionou uma daquelas cenas que parecem ter sido inventadas, mas aconteceram de verdade.

Mal conhecia Fátima. Ela acabara de socorrê-lo e de abrir a própria casa para ele.

Leguelé olhou para nós e disse, com a maior naturalidade:

— Quero que a delegação da Bahia vá se hospedar lá em casa. Tem espaço pra todo mundo!

Eu achei graça.

A casa não era dele.

Era de Fátima.

Leguelé tinha acabado de chegar àquela casa como quem precisava de socorro e, poucas horas depois, já se sentia tão à vontade que convidava uma delegação inteira para se hospedar ali.

Esse era Leguelé.

Para ele, às vezes, o tempo entre conhecer alguém e considerá-lo amigo simplesmente não existia. Bastava uma porta aberta, um gesto de acolhimento, uma conversa.

E pronto.

A pessoa já fazia parte da sua vida.

Fátima, por sua vez, não fez perguntas. Não criou dificuldades. Sua generosidade foi maior que a situação inusitada.

E fomos.

Naquela noite, a casa de Fátima recebeu a delegação baiana.

Houve cerveja, música, comida, conversa e risadas. A tensão daquele fim de tarde desapareceu. O que começara com uma carteira perdida na areia terminou numa noite de confraternização.

É assim que algumas lembranças ficam.

Quando penso naquela viagem, não me vem primeiro o festival, nem as apresentações. Volta a imagem daquela carteira de identidade na areia.

E, logo depois, Leguelé, recém-chegado à casa de Fátima, convidando todo mundo para lá como se fosse o dono.

Talvez essa cena explique melhor Leguelé do que qualquer descrição.

Ele tinha uma facilidade rara para transformar desconhecidos em amigos e casas alheias em lugares familiares.

Mas há outra coisa que essa história guarda.

Fátima.

Ela não apenas ajudou Leguelé. Abriu a própria casa para alguém que acabara de conhecer e, sem perceber, acabou acolhendo uma delegação inteira da Bahia.

Nós fomos a Natal para levar um pouco da Bahia.

E, no fim, Natal nos devolveu uma história.

Uma carteira apareceu na areia antes do seu dono.

Um homem precisou de ajuda.

Uma mulher abriu a porta.

E, poucas horas depois, aquele homem já estava convidando todo mundo para entrar.

A casa continuava sendo de Fátima.

Mas sua generosidade fez com que todos nós nos sentíssemos em casa.

É por isso que, entre tantas lembranças daquela viagem, é essa que permanece.

Uma viagem pra não esquecer.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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