A elegância de não ser igual. Por Larry Carvalho
Tenho viajado bastante nos últimos meses e, entre uma reunião e outra pela Europa, comecei a prestar atenção em algo que me incomoda cada vez mais, o fato de estarmos ficando parecidos demais.
Sempre gostei de viajar pela possibilidade de encontrar o que é diferente. Quando vou a Paris, quero encontrar o parisiense. Quero ouvir a maneira como ele conversa, entender sua relação com a cidade, experimentar um restaurante que tenha algo de genuinamente francês. Em Londres, quero encontrar o londrino, com sua maneira particular de conversar e de enxergar o mundo. Gosto de perceber que estou em outro país, convivendo com pessoas que possuem referências diferentes das minhas. Se tudo começa a oferecer a mesma experiência, qual é, afinal, a graça de atravessar o Atlântico?
A globalização nos proporcionou conquistas que seriam impensáveis há poucas décadas. Trabalho diariamente com pessoas de diferentes países, em um ambiente no qual essa integração é indispensável. Seria uma contradição da minha parte ignorar seus benefícios. Mas tenho a impressão de que passamos a confundir a abertura para o mundo com a necessidade de nos tornarmos iguais. Aos poucos, a integração vai dando lugar à uniformização. E é aí que reside o problema.
Estou falando da diluição progressiva dos traços culturais que tornam cada povo reconhecível.
A identidade cultural de um povo não desaparece de uma hora para outra. Vai sendo diluída aos poucos. Os hábitos locais passam a ser vistos como ultrapassados. O sotaque, muitas vezes, torna-se algo a corrigir. E aquilo que antes era motivo de orgulho regional começa a ser discretamente abandonado em nome de uma suposta sofisticação.
O fenômeno me lembra o que vem acontecendo com os procedimentos estéticos. Não tenho absolutamente nada contra eles. O que me chama a atenção é observar como uma indústria dedicada à beleza individual acaba produzindo rostos cada vez mais semelhantes. Pessoas que antes possuíam características próprias passam a compartilhar as mesmas proporções faciais, como se houvesse um padrão internacional de beleza ao qual todos devessem aspirar.
Estamos fazendo com a cultura algo parecido com o que a estética faz com os rostos. Estamos diante de um novo fator cultural, a harmonização cultural, risos. E talvez estejamos fazendo a mesma coisa com a nossa maneira de escrever e de nos comunicarmos.
A IA é uma ferramenta extraordinária. Eu reconheço seu valor. Entretanto, basta passar alguns minutos lendo publicações profissionais e redes sociais para perceber como os textos estão ficando parecidos. Há uma organização excessivamente previsível das ideias, uma preferência quase obsessiva por parágrafos curtos e aquela mania de agrupar tudo em três elementos, como se qualquer pensamento precisasse obedecer a uma fórmula para parecer inteligente. Falta-lhes, muitas vezes, justamente aquilo que nos faria reconhecer quem os escreveu.
Há uma neutralidade excessiva tomando conta da comunicação. Falta personalidade. Parece que ninguém mais quer correr o risco de ter um estilo próprio, de fazer uma observação inesperada ou de escrever por si só. Estamos perdendo a espontaneidade humana. E, com ela, boa parte da graça.
O problema não está na ferramenta, assim como não está na globalização ou nos procedimentos estéticos. Está na disposição de terceirizar aquilo que deveria permanecer essencialmente nosso. Há algo de profundamente monótono nessa harmonização cultural. Talvez seja por isso que eu tenha passado a valorizar ainda mais as minhas origens.
Sou cearense. Gosto de uma boa cachaça, gosto de praia, gosto da nossa maneira de conversar e de enxergar a vida. Tenho orgulho das minhas origens e não vejo contradição alguma entre cultivá-las e participar de um ambiente profissional internacional. Não preciso me tornar culturalmente neutro para ser cosmopolita.
Aliás, me recuso a acreditar que ser cosmopolita exija abandonar particularidades regionais para adotar uma espécie de personalidade internacional, socialmente aceitável em qualquer lugar, mas verdadeiramente pertencente a lugar nenhum.
É perfeitamente possível ser regional com elegância. Não há necessidade de reproduzir estereótipos ou transformar nossas origens em uma apresentação folclórica. A identidade de uma pessoa é muito mais profunda do que aquilo que ela veste ou a maneira como pronuncia determinadas palavras.
E quanto mais conheço outras culturas, mais interessante me parece preservar a minha.
Há um prazer particular em conversar com alguém que enxerga o mundo a partir de referências distintas das nossas. É justamente essa diferença que torna uma viagem enriquecedora. Se todos pensassem da mesma maneira e compartilhassem exatamente os mesmos costumes, perderíamos boa parte do interesse em conhecer outros lugares.
Por isso, tenho simpatia pela ideia de uma globalização regional. Uma integração internacional que não exija o desaparecimento das identidades locais e que permita a cada sociedade participar do mundo sem precisar abandonar aquilo que a torna particular.
Evidentemente, nenhuma cultura deve permanecer congelada no tempo. O intercâmbio entre os povos sempre produziu transformações extraordinárias. A própria identidade brasileira resulta de séculos de encontros culturais. O que me preocupa é a velocidade com que estamos substituindo essas particularidades por referências cada vez mais homogêneas, muitas vezes sem sequer perceber o que estamos deixando para trás.
Não sei se caminhamos para um mundo de pessoas idênticas, mas tenho a impressão de que estamos perigosamente confortáveis com essa possibilidade. Acredito que no futuro, a capacidade de preservar uma identidade própria será cada vez mais valorizada. Em um ambiente no qual tantas pessoas se esforçam para corresponder às mesmas expectativas, aqueles que mantêm sua autenticidade acabaram despertando interesse quase naturalmente.
A realidade é que a elegância está muito mais na autenticidade do que na tentativa permanente de corresponder a um padrão. É continuar sendo quem somos.
Afinal, em um mundo onde todos parecem cada vez mais iguais, preservar a própria identidade talvez seja a forma mais elegante de se distinguir
*Larry Carvalho é advogado especialista em logística, direito marítimo e comércio exterior
