Aldeia Nagô
Facebook Facebook Instagram WhatsApp

Compositores. Por Jorge Papapá

3 minutos de leituraModo Leitura

Há compositores que escrevem músicas como quem planta uma árvore sem nome. Não sabem quem vai se sentar à sombra, nem se o fruto será colhido amanhã ou depois de muitos invernos. Escrevem porque algo dentro deles pede forma, pede som, pede palavra. A canção nasce antes do intérprete, antes do palco, antes do aplauso. Nasce como necessidade, não como estratégia.

Esses compositores escutam o silêncio com atenção quase religiosa. Sabem que uma pausa também canta. Ajustam um verso até que ele pese exatamente o que precisa pesar. Trocam um acorde porque ele diz a verdade com mais precisão. Não perguntam se aquilo vai vender — perguntam se aquilo é honesto. Para eles, a música não é meio: é morada.

Caminham sozinhos com a canção, como quem carrega um segredo que não pode ser traído. Se um dia alguém cantar, ótimo. Se ninguém cantar, ainda assim a música cumpriu seu destino: existir inteira.

Há outros, porém, que escrevem olhando para fora. Antes do primeiro acorde, já existe um rosto, um nome, um estilo definido. A música nasce vestida, penteada, pronta para agradar. Não aprende a andar sozinha — já nasce obediente. É feita para caber, para não incomodar, para ser escolhida.

Esses compositores escutam mais o gosto alheio do que o próprio ouvido. Estudam o artista como quem estuda um molde. Se ele gosta de dor, oferecem dor genérica. Se prefere brilho, entregam palavras ocas reluzentes. Se o momento pede festa, repetem batidas já conhecidas. A canção vira espelho, não janela. Reflete o que já existe, nunca aponta o que ainda pode existir.

Vivem de fórmulas, de repetições, de apostas seguras. A música não nasce do espanto, mas do cálculo. É correta, eficiente, descartável. Brilha rápido, toca alto, desaparece cedo. Como fogos no céu: iluminam por instantes e deixam apenas fumaça.

As outras chegam tortas. Às vezes longas demais, estranhas demais, silenciosas demais. Não agradam de imediato. Pedem escuta. Pedem tempo. Mas ficam. Retornam quando ninguém chama. Criam raízes no ouvido, na memória, no corpo. São músicas que atravessam o tempo como quem atravessa um rio, molhando os pés, aceitando o frio.

Não se trata de negar o mundo nem romantizar a fome. A conta vence, o estômago cobra, o mercado chama. Todos sabem disso. Mas existe um ponto invisível — quase imperceptível — em que o compositor escolhe. Escrever para ser aceito ou escrever para ser fiel. Afinar a própria voz ou afiná-la até que desapareça.

Alguns acumulam números, execuções, refrões que o vento leva. Outros acumulam cadernos, gavetas, canções que talvez nunca tenham palco. Mas essas músicas sabem quem são. Foram escritas sem pressa, sem máscara, sem promessa. Foram escritas como quem deixa uma marca na pedra, mesmo sem saber quem vai tocar.

No fim, o compositor decide se será fornecedor de gostos alheios ou artesão da própria escuta. Se fará músicas para servir ao agora ou canções capazes de esperar. Porque há músicas que pedem aplauso — e há músicas que pedem silêncio.

E o tempo, esse ouvinte antigo, paciente e implacável, passa por todas.

Só fica aquilo que ainda sabe cantar quando ninguém mais está ouvindo

Jorge Papapá é cantor e compositor.

Compartilhar:

Mais lidas

Um comentário

  • LAURA MOREIRA disse:

    Perfeito. Amei suas reflexões. Isso não apenas para a MÚSICA mas para as ARTES, onde querem dar régua e até, IA, mas aqui, ainda bem isso não existe. ARTE é humano é divino e só funciona, livre.

Deixe um comentário para LAURA MOREIRA Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *