Aldeia Nagô
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Crise terminal do capitalismo? por Leonardo Boff

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Tenho sustentado que a
crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É
terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a
qualquer circunstância.


Estou consciente de que são poucos que
representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta
interpretação.

A
primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas
particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra.
Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e
exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não
conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do
século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital
ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a
natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A
natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca
esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes
dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de
anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças
climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da
tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu
com a cara num limite intransponível.

O
trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande
desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e
robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A
consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões
nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de
reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência.
Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em
Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise
social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma
sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas
humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro.
Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a
máquina.

A
segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está
gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e
atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica
desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de
comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais
pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da
economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado
submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais
especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem
produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas
foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar:
ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais
aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior
competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas,
lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as
pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem
coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os
trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao
suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As
ruas de vários países europeus e árabes, os "indignados" que enchem as
praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o
sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os
jovens espanhóis gritam: "não é crise, é ladroagem". Os ladrões estão
refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer
dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao
agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não
aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da
vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que
bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força
do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e
penalizando a vida de seus filhos e filhas.

Leonardo Boff é Teólogo, filósofo e escritor e autor de Proteger a Terra-cuidar da vida: como evitar o fim do mund, Record 2010.

Artigo publicado originalmente na revista eletrônica Adital

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