Aldeia Nagô
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Da sala de aula para a vida: como criar o hábito da leitura 

5 - 6 minutos de leituraModo Leitura

No Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, especialistas apontam caminhos para formar leitores em meio ao excesso de informação e às mudanças no consumo de conteúdo

Imagine a seguinte cena: é noite, o celular está na mão e o feed rola sem parar. Em algum momento, alguém vai dormir sem ter lido uma única página de um livro. A situação, cada vez mais comum, revela uma mudança no comportamento de consumo de conteúdo.  

Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. De acordo com a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, metade dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. 

Ao mesmo tempo, o estudo também aponta sinais positivos. Entre os leitores, a média anual é de cerca de 4 livros por pessoa, considerando leituras completas e parciais. A leitura por prazer segue como um dos principais motivadores, e o consumo de textos em meios digitais indica que a prática continua presente, ainda que em novos formatos. 

Para especialistas em educação, o ponto central não é a falta de interesse, mas a ausência de conexão. O desafio está em construir experiências de leitura que façam sentido na rotina e no repertório dos estudantes, e isso pode acontecer em qualquer fase da vida. 

A leitura como ferramenta para compreender o mundo 

Mais do que um hábito escolar, a leitura é uma competência que impacta diretamente a forma como o indivíduo interpreta informações, organiza ideias e se posiciona diante da realidade. 

Para a bibliotecária e analista de educação Ludmylla Pereira, da Faculdade SESI de Educação, essa habilidade é estruturante. “Quem lê consegue identificar com facilidade aquilo que busca nesse mar de informações que vivemos“, afirma. 

Nesse cenário, a leitura não compete com a internet. Ela se torna uma aliada fundamental para navegar com mais autonomia e senso crítico em meio ao excesso de conteúdo. 

Entre obrigação e prazer: o ponto de virada 

A relação com a leitura, muitas vezes, é marcada por experiências escolares centradas na obrigatoriedade. Segundo Tamires Monteiro, docente da Faculdade SESI de Educação e doutora em Desenvolvimento Humano, esse fator pode influenciar diretamente a construção do hábito. 

Ler para uma prova é diferente de ler por prazer. Quanto mais experiências significativas com a leitura, mais esse hábito se fortalece“, explica. 

Entre os estudantes, a leitura muitas vezes se organiza em torno das demandas acadêmicas, especialmente diante da rotina intensa da graduação. A estudante de Ciências da Natureza Giovanna Rinco, relata que a própria dinâmica dos estudos impacta esse processo. “Mudou um pouco devido à demanda de trabalhos e atividades que tive que fazer”, afirma. 

O cenário evidencia que, embora a leitura esteja presente no cotidiano acadêmico, o desafio está em ampliar sua presença para além das exigências formais. Nesse sentido, a mudança de perspectiva passa por reconhecer a leitura como prática cultural e pessoal, e não apenas como obrigação. Isso inclui diversificar formatos, temas e linguagens, aproximando os textos da realidade dos estudantes. 

Formar leitores começa cedo, mas não termina nunca 

O contato com a leitura pode começar ainda nos primeiros meses de vida, mesmo antes da compreensão das palavras. A familiaridade com os livros, nesse estágio, está mais relacionada à construção de vínculo e curiosidade. 

Segundo Tamires, esse processo pode ser observado desde a primeira infância. Ela relata, inclusive, a experiência com a própria filha, que teve contato com livros desde os primeiros meses e já demonstra interesse pelo objeto, mesmo sem compreender a leitura em si. 

Do ponto de vista do desenvolvimento, a infância, especialmente entre os três e os sete anos, é um período estratégico, marcado pela imaginação e pelo interesse por narrativas. Ainda assim, a especialista reforça que não existe idade limite para criar o hábito. 

Mais do que o momento de início, o que faz diferença é a constância e a qualidade das experiências ao longo do tempo. 

Pequenos passos também constroem leitores 

A criação do hábito de leitura não exige mudanças radicais, começa com ajustes simples na rotina. 

Reservar alguns minutos do dia, reduzir o tempo nas redes sociais e escolher leituras de interesse pessoal são estratégias para quem deseja se aproximar dos livros. “Nem que sejam duas ou três páginas por dia“, sugere Tamires. 

A consistência, ao longo do tempo, tende a ampliar não apenas o volume de leitura, mas também o interesse por novos gêneros e formatos. 

Outro ponto central é a identificação com o conteúdo. Para Ludmylla, a leitura precisa dialogar com o leitor. “Pode ser quadrinhos, romance, suspense. O importante é começar por aquilo que desperta interesse“, destaca. 

A diversidade de gêneros e linguagens amplia as possibilidades de acesso e contribui para quebrar a ideia de que existe um único tipo de leitura válida.  

Da formação acadêmica à vida cotidiana 

Na formação universitária, a leitura ganha outra dimensão, deixando de ser apenas uma demanda e passando a atuar como ferramenta de desenvolvimento crítico e ampliação de repertório. Entre os estudantes, ela também aparece como escolha pessoal e prática contínua de aprendizado.  

A estudante Rebeca Santos, do curso de Ciências da Natureza, relata que o hábito vem desde a infância e se mantém até hoje. Para ela, leituras mais aprofundadas são fundamentais nesse processo. “Sinto que elas me ajudam a entender melhor o contexto e a desenvolver um pensamento mais crítico“, afirma.  

Nesse mesmo contexto, Giovanna Rinco destaca o impacto formativo da leitura ao longo da graduação. “Acredito que a leitura é um movimento transformador e transportador. Ler não ensina só conteúdos, ensina caminhos“, diz. 

Apesar dos desafios, como a adaptação à linguagem acadêmica, ambas reforçam que o contato contínuo com diferentes textos contribui para a formação pessoal e profissional. 

Criar leitores não depende apenas de incentivo, mas de contexto, acesso e identificação. Mais do que formar estudantes que leem por obrigação, a missão está em formar sujeitos que reconhecem a leitura como parte da vida, o que reflete na forma como aprendem e se desenvolvem na sala de aula. 

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