Diário da busca do amor incansável. Por Zuggi Almeida
6h50 h: Ele acorda e alonga o corpo na cama. Levanta, vai ao banheiro, boceja mais vez e mija. A ducha forte espanta o sono de uma vez por todas.
Faz a barba e veste-se com a elegância permitida por um blazer, jeans, camiseta e um tênis bem usado.
7h30: Entra no elevador e encontra com um coração matutino e indiferente. Ri discretamente e desce até à recepção.
7h40: Embarca num táxi rumo ao centro da cidade. Nos fones de ouvido toca ‘ The Long and Winding Road, dos Beatles ‘. As árvores e vitrines passam velozes. O motorista comenta sobre o jogo da seleção brasileira, na noite passada. Ele odeia futebol.
8h30: Entra numa padaria e pede café cremoso, pão com queijo e um Sonho de Valsa. Olha ao redor e busca um sorriso onde possa se refugiar.Todos estão apressados para registrar o ponto no cartão cotidiano.Pra ele nada importa, além da certeza do encontro breve.
9h00: Está sentado num banco da praça. Ao lado, um ramalhete de flores do campo adquiridas de um vendedor ambulante. Embaixo de outro banco, um casal de sem-tetos ainda dorme enrolados num cobertor de lã. Aqueles corações estavam ocupados pelos sonhos.
Sua presença estava dispensada.
Olha ao redor e percebe mães que sorriem embalando seus rebentos nos brinquedos do parquinho. Executivos cruzam a praça rumo ao sucesso e a solidão noturna consequente. Era um dia especial merecendo uma companhia . Estava determinado a ocupar as dependências de um coração e fazer morada.
Decide ir ao shopping.
11h30 : Caminha observando corações de plásticos infláveis que flutuam à espera dos consumidores. Sintéticos não atendem as especificações exigidas pelo Amor. Casais demonstram seus sentimentos de acordo com os limites do cartão de crédito. Ainda tem o bouquet de flores do campo nas mãos. Vai para praça de alimentação.
12h30: O Amor bebe quatro chopes, até perceber que estava no lugar errado. Os melhores corações não são encontrados em prateleiras.
12h45: Embarca num ônibus rumo ao subúrbio. Leva as flores ainda vistosas. Paga a passagem e recebe um sorriso de troco. Retribui dando as flores para cobradora.Senta ao lado de uma jovem que tecla no celular, ela não percebe a presença do senhor tão distinto. Desceu no ponto próximo à feira livre e compra uma rosa. Era a primeira venda daquele rapaz.
14:00h – Termina o almoço no boteco da feira. Pediu feijão, arroz, bife, uma dose de conhaque e uma cerveja.Paga a conta. O troco e a rosa ficam sobre o balcão. A preta dona do buteco abre um sorriso branco.
19h00: O Amor está num bar pé-sujo perto de casa. A trilha sonora oferece Gilliard, Pablo, Bello: perfeita para ocasião. Um casal ao lado troca beijos calorosos. Uma rosa de plástico sobre a toalha completa a cena. O bêbado em outra mesa pede um bis de Tyronne. O dono da birosca diz que não.O Amor bebe cerveja analisando a falta do afeto dos dias atuais. Os sentimentos sem ceps. O oco da vida.
00h00: O Amor entra no prédio onde mora. Vai até o elevador onde aperta ‘Subir’. A porta reabre e embarca o mesmo coração matutino e indiferente.
O Amor já não estava mais alí.
O Amor entra no apartamento, vai ao bar, põe uma dose dupla de whisky e liga o som.A música ocupa discretamente a sala e deságua em versos.
” Rir pra não chorar Se alguém por mim perguntar Diga que eu só vou voltar Depois que me encontrar “
Cartola era quem bem sabia desses paranauês.
O relógio marcava 00h10, no dia 13 de junho.
*Zuggi Almeida é baiano, escritor e roteirista.