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Entrevista à Rede Globo: entre a mentira e a ignorância. Por Kakay

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Antonio_Carlos_Kakay

Na entrevista que o candidato Flávio Bolsonaro deu ao Jornal Nacional, da rede Globo, deu para sentir que ele estava tranquilo , como se soubesse que não seria questionado sobre as mentiras que iriam ser o norte do seu discurso

“ Não há nada tão estupido quanto a inteligência orgulhosa de si mesmo,”
Bakunin

Talvez só a ignorância orgulhosa de si mesmo, eu complementaria…

Na entrevista que o candidato da ultradireita, Flávio Bolsonaro, deu ao Jornal Nacional, da rede Globo, deu para sentir que o candidato estava tranquilo, como se soubesse que não seria questionado sobre as mentiras que iriam ser o norte do seu discurso. Depois de um questionamento duríssimo no dia anterior com o presidente Lula, onde a dupla de entrevistadores parecia que era do Ministério Público, criou- se uma expectativa de que o candidato Flavio teria que ter o cuidado de se explicar. Na verdade o Flavio estava como o Flamengo no Maracanã com a certeza de ter o VAR ao seu lado.

Tenho escrito que é muito difícil disputar com quem não tem compromisso com a ética, com a verdade. Na entrevista isto ficou evidenciado.

Perguntado sobre ter condecorado seu parceiro miliciano, chefe do escritório do crime organizado no Rio, matador mais temido e que reconhecidamente controlava um grupo de matadores de aluguel, com a principal comenda do Rio de Janeiro, o candidato disse que à época o Adriano da Nóbrega, era um policial exemplar. Ora, a entrega da medalha se deu no presídio! Adriano estava preso. Para a visão miliciana do candidato, no entanto, era um policial que merecia receber a homenagem. Talvez para continuar calado, já que a família do miliciano trabalhava no gabinete do Flávio Bolsonaro. Este ponto era para ter sido usado para desmascarar o entrevistado. E, todos sabemos, o Adriano da Nóbrega foi assasinado em um caso típico de queima de arquivo.

O assunto mais esperado da entrevista, os R$ 61 milhões recebidos do banqueiro Vorcaro, e o telefonema do próprio Flavio Bolsonaro cobrando o restante, em um total de R$ 130 milhões, foi enfrentado com uma leveza bastante civilizada. A mentira inicial do candidato quando negou para uma jornalista que tivesse havido o patrocínio milionário para o filme Dark Horse, foi comentada de leve. Como os entrevistadores sabiam que ser pego em mentira abala os eleitores evangélicos a opção foi não fazer este enfrentamento.

E a passividade com que foi tratada a afirmação de que os 61 milhões eram de um negócio privado, sem envolver dinheiro público, foi muito constrangedor. Um negócio entre um senador da República e um banqueiro em valores estratosféricos foi tratado como dinheiro de pinga. Os dutos de dinheiro que a Globo mostrava diariamente no Mensalão estariam bem ali naquele momento. Mas ficou a impressão que o dinheiro não era público e que já estava tudo explicado.

Se comparado este fato dos R$ 130 milhões as conversas do chefe de gabinete Marcola e do filho do Presidente, deveriam ser transferidas do Supremo Tribunal para um juizado de pequenas causas. Lulinha está com o sigilo quebrado e nada foi encontrado de irregular. No caso dos R$ 61 milhões a tarefa é simples. É só seguir o dinheiro. Quem recebeu? Como foi aplicado? Quem se beneficiou? Como bem disse o competente e aguerrido Marco Aurélio Carvalho, um dos advogados do Lulinha, porque o candidato Flávio Bolsonaro não abre seu sigilo? Ao contrário, o candidato resolve simplesmente dizer que está tudo esclarecido, que tudo está comprovado e que não se deve mais falar do assunto. Ridículo. Risível. Nada, absolutamente nada, foi comprovado. Com a palavra o Ministério Público, a Polícia Federal e o Supremo Tribunal. O Brasil inteiro merece este esclarecimento antes das eleições.

Mas não é só de mentiras que vive o candidato. Há muito de ignorância também. Questionado sobre um fenômeno preocupante e com comprovação científica, o aquecimento global, o Flavio Bolsonaro afirmou, sem ridicularizado pelos entrevistadores, que a saída para o problema era o saneamento básico. O esgoto que chega nas casas das pessoas. É muito triste que um negacionista deste consiga ser candidato. A repetição da tragédia bolsonarista fica rondando, insepulta. São tantos os absurdos que felizmente ainda temos o poder de desligar a televisão. E principalmente temos o poder do voto em 4 de outubro.

Me lembrei do trovador nordestino, o mestre da cultura popular, Patativa do Assaré:

“ Meu caro jumento
Meu caro amigo jumento
Que tanto sofre e padece,
Seu grande merecimento
Muita gente não conhece.”

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