Lula propõe uma “Consolidação das Leis Sociais”
Quem sustentou essa crise foi o governo e o povo pobre, porque alguns setores empresariais pisaram no breque de forma desnecessária.
Lula: "A gente não deveria ficar preocupado em saber
quanto o Estado gasta. Deveria ficar preocupado em saber se o Estado está
cumprindo com suas funções de bem tratar a população"
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende mandar ao Congresso ainda este
ano um projeto de lei para consolidar as políticas sociais de seu governo. A
ideia é amarrar no texto da lei uma "Consolidação das Leis Sociais", a exemplo
do que, na década de 50, Getúlio Vargas fez com a Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT). Diz que, para este projeto, não vai pedir urgência. "É bom
mesmo que seja discutido no ano eleitoral".
Faz
parte dos planos do presidente também para este ano encaminhar ao Congresso um
projeto de inclusão digital. "Será para integrar o país todinho com fibras
óticas", adiantou.
Na
primeira entrevista concedida após a grande crise global, Lula criticou as
empresas que, por medo ou incertezas, se precipitaram tomando medidas
desnecessárias e defendeu a ação do Estado. "Quem sustentou essa crise foi o
governo e o povo pobre, porque alguns setores empresariais brasileiros pisaram
no breque de forma desnecessária".
Ele
explicou porque está insatisfeito especialmente com a Vale do Rio Doce, a quem
tem pressionado a agregar valor à extração de minério, construir usinas
siderúrgicas e fazer suas encomendas dentro do país, em vez de recorrer à
importação, como tem feito. "A Vale não pode ficar se dando ao luxo de ficar
exportando apenas minério de ferro", diz ele. Hoje, disse, os chineses já
produzem 535 milhões de toneladas de aço por ano, enquanto o Brasil, o maior produtor
de minério do mundo, produz apenas 35 milhões de toneladas. "Isso não faz
nenhum sentido."
O
presidente defendeu a expansão de gastos promovida por seu governo, alegando
que o Estado forte ajudou o país a enfrentar a recente crise econômica. "A gente
não deveria ficar preocupado em saber quanto o Estado gasta. Deveria ficar
preocupado em saber se o Estado está cumprindo com suas funções de bem tratar a
população."
Rechaçou
a eventualidade do "risco Serra", aludido por algumas autoridades de seu governo
face às veementes críticas do governador de São Paulo, José Serra (PSDB) à
política monetária. "É uma cretinice política. É tão sério governar um país da
magnitude do Brasil que ninguém que entre aqui vai se meter a fazer bobagem,
vai ser bobo de mexer na estabilidade econômica e permitir que a inflação
volte".
A
falta de carisma da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, provável
candidata à sua sucessão em 2010 não é, para ele, um obstáculo eleitoral. "Se
dependesse de carisma, Fernando Henrique Cardoso não teria sido eleito e Serra
não seria nem candidato. Jânio Quadros tinha carisma e ficou só seis meses". O
principal ativo de Dilma, na opinião de Lula, é a "capacidade gerencial" da
ministra. "E mulher tem que ser dura mesmo, para se impor entre os homens."
Lula
contou que já desaconselhou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,
a se candidatar ao governo de Goiás. "Eu já disse pro Meirelles. Eu
sinceramente acho que o Meirelles não devia pensar em ser candidato a
governador, coisa nenhuma. Mas esse negócio tem um comichão…"
O
risco de os esqueletos deixados por planos de estabilização de governos
passados se transformarem em pesado fardo para o Tesouro Nacional preocupa o
presidente. Segundo ele, se o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitar as ações
contra bancos baseadas em supostos prejuízos causados por planos econômicos,
uma conta que supera os R$ 100 bilhões, os bancos vão acionar judicialmente a
União para bancar que ela banque essa despesa.
Na
entrevista ao Valor, concedida na manhã de ontem em seu gabinete no Centro
Cultural do Banco do Brasil, o presidente falou por uma hora e meia. Fumou
cigarrilha na última meia hora da entrevista e não se recusou a falar de seu
futuro político quando deixar a Presidência. "Gostaria de usar o que aprendi na
Presidência para ajudar tanto a América Latina quanto a África a implementar
políticas sociais, mas primeiro preciso saber se eles querem, porque de
palpiteiro todo mundo está cansado". Sobre uma nova candidatura em 2014, o
presidente foi direto: "Se Dilma for eleita, ela tem todo direito de chegar em
2014 e falar ‘eu quero a reeleição’. Se isso não acontecer, obviamente a
história política pode ter outro rumo".
Valor: Passado um ano da grande crise global, a
economia brasileira começa a se recuperar. Além do pré-sal, qual a agenda do
governo para o pós crise?
Luiz Inácio Lula da Silva: Ainda este ano vou
apresentar uma proposta sobre inclusão digital. E, também, uma proposta
consolidando todas as políticas sociais do governo.
Valor: Inclusive, o Bolsa Família, o salário mínimo?
Lula: Todas. Vai ter uma lei que vai
legalizar tudo, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Será uma
consolidação das políticas públicas para sustentar os avanços conquistados.
Tudo o que foi feito, até as conferências nacionais, porque nós só temos
legalizada a da saúde.
Valor: Mas o governo ainda não conseguiu sequer
aprovar a política de valorização do salário mínimo?
Lula: A culpa não é minha. Mandei (para
o Congresso) já faz um ano e meio. Sou de um tempo de dirigente sindical que,
quando a gente falava de salário mínimo, as pessoas já falavam logo de
inflação. Nós demos, desde que cheguei aqui, 67% de aumento real para o salário
mínimo e ninguém mais fala de inflação. O projeto que nós mandamos é uma coisa
bonita. É a reposição da inflação mais o aumento do PIB de dois anos atrás.
Quero consolidar isso porque acho que o Brasil tem que mudar de patamar.
Valor: O senhor vai pedir urgência?
Lula: Não. É ótimo que dê debate no ano
eleitoral. Quando eu voltar de viagem, vou ter uma reunião com todos os
ministros da área social e vamos começar a trabalhar nisso.
Valor: E a inclusão digital?
Lula: Esta eu quero mandar também este
ano. Será para integrar o país com fibras óticas. O Brasil precisa disso. Eu
dei 45 dias de prazo, ontem, para que me apresentem o projeto de integração de
todo o sistema ótico do Brasil.
Valor: O que mais será feito?
Lula: Uma proposta de um novo PAC para
2011-2015, que anunciarei em janeiro ou fevereiro. Porque precisamos colocar,
no Orçamento de 2011, dinheiro para a Copa do Mundo, sobretudo na questão de
mobilização urbana. E, se a gente ganhar a sede das Olimpíadas, já tem que ter
uma coisa mais poderosa nisso.
Valor: Só para a parte que lhe cabe no pré-sal, o
BNDES diz que vai precisar de uma capitalização de R$ 100 bilhões do Tesouro
Nacional. O senhor já autorizou a operação?
Lula: Acabamos de dar R$ 100 bilhões ao
BNDES e nem utilizamos ainda todo esse dinheiro. Para nós, o pré-sal começa
ontem. Na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, pedi aos
empresários que constituíssem um grupo de trabalho para que possamos ter
dimensão do que vamos precisar nos próximos 15 anos entre infraestrutura,
equipamentos para construção de sondas, plataformas, toda a cadeia. Não podemos
deixar tudo para a última hora e isso vai exigir muito dinheiro. Esse problema
do BNDES ainda não chegou aqui, mas posso garantir que não faltará dinheiro
para o pré-sal.
Valor: O governo pensa numa política industrial para o
pré-sal, voltada para as grandes empresas nacionais. Fala-se em ter empresas
"campeãs nacionais". Isso vai renovar o parque industrial e as lideranças
empresariais do país?
Lula: Certamente aumentará muito o setor
empresarial brasileiro. Precisamos aproveitar o pré-sal e criar, também, um
grande polo petroquímico. Não podemos ficar no sexto, sétimo lugar nesse setor.
Pedi para o Luciano Coutinho (presidente do BNDES) coordenar um grupo de
trabalho para que a gente possa anunciar em breve um plano de fomento à
indústria petroquímica no Brasil. E pedi para os empresários brasileiros se
prepararem para coisas maiores. Vamos precisar de mais estaleiros, diques
secos, e isso tem que começar agora para estar pronto em três a quatro anos.
Sobretudo, temos que convencer os empresários estrangeiros a investir no
Brasil, construindo parcerias.
Valor: É por essa razão que o senhor está irritado com
a Vale?
Lula: Não estou irritado com a Vale.
Tenho cobrado sistematicamente da Vale a construção de usinas siderúrgicas no
país. Todo mundo sabe o que a Vale representa para o Brasil. É uma empresa
excepcional, mas não pode se dar ao luxo de exportar apenas minério de ferro.
Os chineses já estão produzindo 535 milhões de toneladas de aço e nós
continuamos com 35 milhões de toneladas. Daqui a pouco vamos ter que importar
aço da China. Isso não faz nenhum sentido. Quando a gente vende minério de
ferro, custa um tiquinho.
Valor: E não paga imposto porque o produto não é
industrializado…
Lula: Não paga imposto. Tudo isso eu
tenho discutido muito com a Vale porque eu a respeito. Quando ela contrata
navios de 400 mil toneladas na China, é de se perguntar: ´e o esforço imenso
que estou fazendo para recuperar a indústria naval brasileira?´
Valor: Mas a Vale não é uma empresa privada?
Lula: Pode ser privada ou pública. O
interesse do país está em primeiro lugar. As empresas privadas têm tantas
obrigações com o país como eu tenho. Não é porque sou presidente que só eu
tenho responsabilidade. Se quisermos construir uma indústria competitiva no
mundo, vamos ter que fortalecer o país.
Valor: Os custos não são importantes?
Lula: Os empresários têm tanta obrigação
de ser brasileiros e nacionalistas quanto eu! Estou fazendo uma discussão com a
Vale, já fiz com outras empresas, porque quando queremos importar aço da China,
os empresários brasileiros não querem.
Mas
quando eles aumentam seus preços, eu sou obrigado a reduzir a alíquota (de
importação) para poder equilibrar. Eu sei a importância das empresas
brasileiras, ninguém mais do que eu brigou neste país para elas virarem
multinacionais. Porque, cada vez que uma empresa se torna uma multinacional,
ela é uma bandeira do país fincada em outro país.
Valor: As empresas não importam porque lá fora é mais
barato e tecnologicamente mais avançado?
Lula: Não sei se tecnologicamente é mais
avançado. Pode ser mais barato. Quando começamos a discutir com a Petrobras a
construção de plataformas, ela falava ´nós economizamos não sei quantos
milhões´. Eu falava ´tudo bem, e os desempregados brasileiros? E o avanço
tecnológico do país? E a possibilidade de fazemos plataformas aqui e exportar?´
Em vez de apenas importar, vamos convencer as empresas de fora que nós temos demanda
e que elas venham construir no Brasil. Não estamos pedindo favor. Talvez o
Brasil seja, daqui para a frente, o país a consumir mais implementos para a
construção de sondas e plataformas.
Valor: O governo pensa em reduzir os custos de
produção no Brasil?
Lula: Temos, no momento, uma crise
econômica em que o custo financeiro subiu no mundo inteiro. Desde que entrei, e
considerando a extinção da CPMF, foram mais de R$ 100 bilhões em desonerações.
Eu já mandei duas reformas tributárias ao Congresso. As duas tiveram a
concordância dos 27 governadores e dos empresários. Mas as propostas chegam no
Senado e, como diria o Jânio Quadros, tem o ´inimigo oculto´ que não deixa que
sejam aprovadas.
Valor: Como o senhor vê o papel do Estado pós crise?
Lula: O Estado não pode ser o
gerenciador, o administrador. O Estado tem que ter apenas o papel de indutor e
fiscalizador. Então, (o Estado) leva uma refinaria para o Ceará, um estaleiro
para Pernambuco. Se dependesse da Petrobras, ela não gostaria de fazer
refinarias.
Valor: Por que há ociosidade?
Lula: Na lógica da Petrobras, as suas
refinarias já atendem a demanda. Há 20 anos a empresa não fazia uma nova
refinaria. Agora, o que significa uma nova refinaria num Estado? A primeira
coisa que vai ter é um polo petroquímico para aquela região. Este é o papel do
governo. O governo não pode se omitir. A fragilidade dos governantes, hoje, é
que eles acreditaram nos últimos dez anos que os mercados resolviam os
problemas. E agora, quando chegou a crise, todos perceberam que, se os Estados
não fizessem o que fizeram, a crise seria mais profunda. Se o Bush (George,
ex-presidente dos Estados Unidos) tivesse a dimensão da crise e tivesse
colocado US$ 60 bilhões no Lehman Brothers antes de ele quebrar, possivelmente
não teríamos a crise de crédito que tivemos. Então, a Vale entra nessa minha
lógica.
Valor: Depois da conversa com o senhor, a Vale vai
construir as siderúrgicas?
Lula: Ela precisa agregar valor às suas
exportações. Se ela exportar uma tonelada de bauxita, vai receber entre US$ 30
e US$ 50. Se for um tonelada de alumínio pronto, vai vender por US$ 3 mil. Além
disso, vai gerar emprego aqui, vai ter que construir hidrelétrica para ter
energia. Não pode ter só o interesse imediato pelo lucro porque a matéria prima
um dia acaba e, antes de acabar, temos que ganhar dinheiro com isso. A Vale
entende isso.
Valor: Então ela se comprometeu?
Lula: Basta ver a propaganda dela nos
jornais. Faz três anos que venho conversando com a Vale. O Estado do Pará
reclama o tempo inteiro, Minas Gerais e o Espírito Santo também. A siderúrgica
do Ceará não foi proposta por mim. Foi proposta em 1992. Há condições de fazer?
Há. Há mercado? Há. Temos tecnologia? Temos. Então, vamos fazer.
Valor: Entre reduzir a carga tributária, desonerando a
folha de pagamentos das empresas, e aumentar o salário do funcionalismo, o
senhor ficou com a segunda opção. Por quê?
Lula: Primeiro porque a desoneração é
baseada no nervosismo econômico, no aperto de determinado segmento. O Estado
tem que ter força. No Brasil, durante os anos 80, se criou a ideia de Estado
mínimo. O Estado mínimo não vale para nada. O Estado tem que ter força para
fazer as políticas que fizemos agora, na crise, com a compreensão do Congresso.
Não pense que foi fácil tomar a decisão de fazer o Banco do Brasil (BB) comprar
a Nossa Caixa em São Paulo.
Valor: Por quê?
Lula: As pessoas diziam: ´Ah, o
presidente vai dar dinheiro ao Serra e o Serra é candidato´. Mas não dei
dinheiro para o Serra. Comprei um banco que tinha caixa e para permitir que o
BB tivesse mais capacidade de alavancar o crédito.
Quando
fui comprar (via BB) 50% do Banco Votorantim, tive que me lixar para a
especulação. Nós precisávamos financiar o mercado de carro usado e o Banco do
Brasil não tinha ´expertise´. Então, compramos 50% do Votorantim, que tem uma
carteira de carro usado de R$ 90 bilhões. Vocês têm dimensão do que foi ter uma
Caixa Econômica Federal, um BNDES ou um BB na crise? Foi extremamente
importante. A Petrobras apresentou estudo mostrando que deveria adiar o
cronograma dos investimentos dela de 2013 para 2017.
Valor: Durante a crise?
Lula: É. Convoquei o Conselho da
Petrobras para dizer: ´Olha, este é um momento em que não se pode recuar´. Até
no futebol a gente aprende que, quando se está ganhando de 1 x 0 e recua, a
gente se ferra.
Valor: E funcionou?
Lula: Quem sustentou essa crise foi o
governo e o povo pobre, porque alguns setores empresariais brasileiros pisaram
no breque de forma desnecessária. Aquele famoso cavalo de pau que o (Antonio)
Palocci (ex-ministro da Fazenda) dizia que a gente não podia dar na economia,
alguns setores empresariais deram por puro medo, incerteza. Essas coisas nós
conversamos muito com os empresários, no comitê acompanhamento da crise. Agora
não vai ter mais comitê de crise, mas sim de produção, investimento e inovação
tecnológica. Estou otimista porque este é o momento do Brasil.
Valor: Por exemplo?
Lula: As pessoas estão compreendendo que
fazer com que o pobre seja menos pobre é bom para a economia. Ele vira
consumidor. Eles vão para o shopping e compram coisas que até pouco tempo só a
classe média tinha acesso. Os empresários brasileiros precisam se modernizar.
Valor: A política de valorização do funcionalismo
dificilmente poderá ser mantida por seu sucessor e nenhum dos candidatos tem
ascendência sobre o movimento sindical que o senhor tem. Não é uma bomba
relógio que o senhor deixa armada para o próximo governo?
Lula: Vocês acham que o Estado brasileiro
paga bem?
Valor: O senhor acha que ainda ganha mal?
Lula: Você tem que medir o valor de
determinadas funções no mercado e dentro do governo. Sempre achei que o pessoal
da Petrobras ganhava muito. O Rodolfo Landim, quando era presidente da BR, há
uns quatro anos, ganhava R$ 26 mil. Ele entrou na minha sala e disse:
´Presidente, tive convite de um empresário, estou de coração partido, mas não
posso perder a oportunidade da minha vida´. Então, ele deixa de ganhar R$ 26
mil por mês e vai ganhar R$ 200 mil com dois anos de pagamento adiantado.
Quanto vale um bom funcionário da Receita Federal, do Banco Central, no
mercado? O que garante as pessoas ficarem no Estado é a estabilidade, não o
salário.
Valor: Mas essa política de valorização salarial do
funcionalismo é sustentável?
Lula: Como é que a gente vai deixar de
contratar professores? Vou passar à história como o presidente que mais fez
universidades neste país. Ontem, completamos a 11ª (das quais, duas foram
iniciativa do governo anterior). Ganhamos do Juscelino Kubitschek, que fez dez.
Teve governo que não fez nenhuma. E ainda há três no Congresso para serem
aprovadas.
Valor: O senhor considera que o Estado hoje está
arrumado?
Lula: A gente não deveria ficar
preocupado em saber quanto o Estado gasta. Deveria ficar preocupado em saber se
o Estado está cumprindo com suas funções de bem tratar a população. E ainda
falta muito para chegar à perfeição.
Valor: O senhor foi vítima em 2002 do chamado "risco
Lula". Hoje, já há quem fale em "risco Serra". Existe mais risco para o país
com o Serra do que com a Dilma?
Lula: Nunca ouvi falar de ´risco Serra´
(risos). Posso falar de cátedra. Sofri com o ´risco Lula´ desde 1989. Em 1994,
eu tinha 43% nas pesquisas em março e o que eles fizeram? Diminuíram o mandato
para quatro anos e proibiram mostrar imagem externa no programa eleitoral. As
pessoas pensam que esqueci isso. Quando chegaram as eleições para a prefeitura
(em 1996), revogou-se a lei e todo mundo pôde mostrar imagens externas. Quando
eles ganharam, aprovaram a reeleição. Então, essa coisa de ´risco Lula´ eu
conheço bem.
Valor: É possível voltar a ocorrer?
Lula: Espero que minha vitória e meu
governo sirvam de lição para essas pessoas que ficam dizendo: ´o Lula era
risco, agora o Serra é risco, a Dilma é risco, a Marina é risco, o Aécio é
risco´. É uma cretinice política! Porque é tão sério governar um país da
magnitude do Brasil que ninguém que entre aqui vai se meter a fazer bobagem.
Quem fez bobagem não ficou. Todo mundo sabe da minha afinidade com os
trabalhadores, da minha preferência pelos mais pobres. Entretanto, sou
governante dos ricos também. E tenho certeza de que eles estão muito
satisfeitos porque ganharam muito dinheiro no meu governo. Mais do que no
governo ´deles´. Como pode um companheiro como a Dilma, o Serra, a Marina, to
dos que têm história, ficar sujeito a essa história de risco? E sabe por que
não tem risco? Porque, se depois fizer bobagem, paga. Você pode ter visão
diferente sobre as coisas, isso é normal. E agora mais ainda porque quem vier
depois de mim.
Valor: Por quê?
Lula: Porque há um outro paradigma. Em
cem anos a elite brasileira fez 140 escolas técnicas. Como é que esse torneiro
mecânico faz 114? Estamos criando um paradigma. Fui ao Rio Maranguapinho (no
Ceará) um dia desses. Estamos colocando lá R$ 390 milhões para fazer saneamento
básico. Em Roraima são R$ 496 milhões para fazer saneamento e dragagem. Você
sabe quanto o Brasil inteiro gastou em 2002 em saneamento?
Valor: Quanto?
Lula: R$ 262 milhões. Então, estamos
colocando num bairro de Fortaleza o que foi colocado no Brasil inteiro naquele
ano.
Valor: O senhor diria que pelo menos nos três
fundamentos básicos da economia – superávit primário, câmbio flutuante e regime
de metas – ninguém vai mexer porque foram testados na crise?
Lula: Para mim, inflação controlada é
condição básica para o resto dar certo. Porque na hora que a inflação começar a
crescer, os trabalhadores vão querer muito mais reajuste, os empresários também
e a coisa desanda. Então, é manter a inflação controlada, a economia crescendo,
permitir o crescimento do crédito. O Banco do Brasil sozinho hoje talvez tenha
todo o crédito que o Brasil tinha em 2003.
Valor: Isso é bom ou ruim? Entre os anos 80 e 90,
houve péssima gestão nos bancos estaduais, que acabaram quebrando…
Lula: Mas aí a culpa não é do banco. É
irresponsabilidade da classe política. Os governantes transformaram os bancos
públicos em caixa 2 de campanha. Emprestar dinheiro para amigo? Isso acabou.
Não acho que ninguém que entre aqui vai ser bobo de mexer na estabilidade
econômica e permitir que volte a inflação. Porque, se isso acontecer, o mandato
é de apenas quatro anos.
Valor: A capacidade administrativa da ministra Dilma
Rousseff, apesar do seu pouco carisma, e a confiança que o senhor tem em seu
trabalho são suficientes para fazer dela uma candidata?
Lula: Quantos políticos têm carisma no
Brasil? Se dependesse de carisma, Fernando Henrique Cardoso não teria sido
presidente. Se dependesse de carisma, José Serra não poderia nem ser candidato.
Carisma é uma coisa inata. Você pode aperfeiçoar ou não. Sempre é bom ter um
pouco de carisma. O Jânio Quadros tinha carisma. Ficou só seis meses aqui.
Estou dizendo que para governar este país é preciso um conjunto de qualidades.
E a primeira qualidade é ganhar eleição. Tem que ter muita humildade,
determinação do projeto que vai apresentar. Tem que provar que é capaz de
gerenciar. Hoje, com sete anos de convivência, não conheço ninguém que tenha
essa capacidade gerencial da Dilma. Às vezes as p essoas falam ´ela é dura´.
Mas é que a mulher tem que ser mais dura mesmo.
Valor: Por quê?
Lula: Porque numa discussão política,
para você se impor no meio de 30 ou 40 homens, é assim. A Dilma é muito
competente. Feliz do país que vai ter uma disputa que pode ter Dilma, Serra,
Marina, Heloísa Helena, Aécio. Houve no país um avanço qualitativo nas disputas
eleitorais. O Fernando Henrique e eu já fomos um avanço extraordinário. Fico
olhando e vejo que não tem um único candidato de direita. Isto é uma conquista
extraordinária de um Brasil exuberante. É evidente que Serra tem discordância
da Dilma e vice-versa, mas ninguém pode acusar um e outro de que não são
democratas e não lutaram por este país.
Valor: Qual é a diferença entre eles?
Lula: Vai ter. Se for para fazer (um
governo) igual não tem disputa. E, aí, o povo vai escolher por beleza… Não sei
se serão só os dois. Mas são candidatos de qualidade.
Valor: Privatizar ou não privatizar pode ser a
diferença?
Lula: Não.
Valor: Por que o senhor é contra a privatização?
Lula: Tudo aquilo que não é de interesse
estratégico para o país pode ser privatizado. Agora, tudo o que é estratégico,
o Estado pode fazer como fez com a Petrobras e o Banco do Brasil.
Valor: A Infraero é estratégica?
Lula: O Guido (Mantega, ministro da
Fazenda) foi determinado a fazer um estudo sobre a Infraero, para ver se ela
vira uma empresa de economia mista. O que nos interessa é que as coisas
funcionem corretamente. Pedi ao Jobim (Nelson, ministro da Defesa) estudar o
processo de concessão de um ou outro aeroporto para gente poder ter um
termômetro, medir a qualidade de funcionamento. O que é estratégico no
aeroporto é o controle do espaço aéreo e não ficar pegando passaporte de
passageiros.
Valor: O senhor, então, não é contra a privatização
por princípio?
Lula: Eu sou muito prático. Entre o meu
princípio e o bom serviço prestado à população, fico com o bom serviço.
Valor: Quando o senhor falou dos candidatos, não
mencionou Ciro Gomes.
Lula: O Ciro é um extraordinário
candidato. De qualquer forma o PSB tem autonomia para lançar o Ciro candidato.
Valor: O senhor é o presidente mais popular da
história do Brasil. No entanto, este Congresso é um dos mais desmoralizados.
Por que o PT fracassou na condução do Congresso?
Lula: Você há de convir que a democracia
no Brasil funciona com muito mais dinamismo que em qualquer outro lugar do
mundo. O PT elegeu 81 deputados em 513 e 12 senadores em 81. A gente precisa
dançar mais flamenco do que em qualquer país do mundo. Você vai ter que ter
mais jogo de cintura. Exercitar a democracia é convencer as pessoas, é sempre
mais difícil.
Valor: Por quê?
Lula: O Congresso é a única instituição
julgada coletivamente. Se não teve sessão você fala: ´Deputado vagabundo que
não trabalha´. Agora, nunca cita os que estiveram lá, de plantão, o tempo
inteiro. Quando era constituinte, eu ficava doido porque ficava trabalhando até
as duas, três horas da manhã. O Ulysses (Guimarães) ficava uma semana sem
votar. Quando ele começava a votar, aquilo varava a noite. No dia seguinte,
pegava o jornal, que dizia ´sessão não deu quórum porque os deputados não foram
trabalhar´. Mas havia lá 200 em pé. Toda vez que vou a debates com estudantes,
em inauguração de escolas, eu falo isso: ´Se vocês não gostam de política,
acham que todo político é ladrã o, que não presta, não renunciem à política.
Entrem vocês na política porque, quem sabe, o perfeito que vocês querem está
dentro de vocês´.
Valor: O senhor disse que o Brasil deve comemorar o
fato de não ter candidatos de direita na eleição presidencial. Por que depois
de tantas tentativas de aproximar PT e PSDB, isso não deu certo?
Lula: Porque na verdade nós somos os
principais adversários.
Valor: Em São Paulo?
Lula: Em São Paulo e em outros lugares.
Há uma disputa.
Valor: A aliança PT-PSDB é impossível?
Lula: Acho que agora é impossível.
Valor: Como o senhor avalia sua relação com a
oposição, sobretudo no momento em que se discute o marco regulatório do
pré-sal?
Lula: Essa oposição teve menos canal com
o governo. Certamente o DEM e o PSDB pouco tiveram o que construir com o
governo. Possivelmente quando eles eram governo, o PT também construiu poucas
possibilidades. O projeto do pré-sal tal, como ele foi mandado, não é uma coisa
minha. O trabalho que fizemos foi, sem falsa modéstia, digno de respeito, tanto
é que o Serra concorda com o modelo. O Congresso tem liberdade para mudar.
Valor: A oposição diz que o governo pediu urgência
para usar o projeto de forma eleitoreira. A urgência era exatamente por quê?
Lula: Porque precisamos aprovar o mais
rápido possível para dizer ao mundo o que está aprovado e começar a trabalhar.
Acho engraçado a oposição dizer isso. A oposição votou em seis meses cinco
emendas constitucionais no governo Fernando Henrique Cardoso.
Valor: O senhor volta com o pedido de urgência, se for
o caso?
Lula: Depende. Atendi ao pedido do
presidente da Câmara, Michel Temer. Vamos votar no dia 10 de novembro. Isso me
garante. Termino o mandato daqui a um ano. Serei ex-presidente, nem vento bate
nas costas. Não é para mim que estou fazendo o pré-sal. O pré-sal é para o
país.
Valor: O que o senhor pretende fazer depois que deixar
o governo?
Lula: Não sei. A única coisa que tenho
convicção é que não vou importunar quem for eleito.
Valor: Todo mundo tem medo que o senhor volte em 2014…
Lula: Medo? Acho que deveria ter
alegria, se eu voltasse. Na política a gente tem de ter sempre o bom senso.
Vamos supor que a Dilma seja eleita presidente da República…
Valor: E se ela perder a eleição? O senhor vai se
sentir pressionado pelo PT a disputar em 2014?
Lula: Vou trabalhar para o povo votar
favoravelmente, mas, se votar contra, vou ter o mesmo respeito que tenho pelo
povo. Se ela for eleita, tem todo o direito de chegar a 2014 e falar ´eu quero
a reeleição´.
Valor: E se ela não for eleita?
Lula: Não trabalho com essa hipótese,
mas obviamente que, se não acontecer o que eu penso que deve acontecer, a
história política pode ter outro rumo.
Valor: Parece que está consolidada a percepção de que
o país terá câmbio apreciado por um bom tempo. O senhor teme uma
desindustrialização?
Lula: O nosso objetivo é industrializar o
máximo possível. O Palocci disse uma frase que é simples e antológica: ´o
problema do câmbio flutuante é que ele flutua´. Obviamente que nós já estamos
discutindo isso. Trabalhamos com a hipótese de que vai entrar muito dólar no
Brasil. Precisamos trabalhar isso com carinho. Em contrapartida, também estamos
avançando na questão de fazer trocas comerciais nas moedas dos países. Não
preciso do dólar para fazer comércio com a China, a Índia, a Rússia. Podemos
fazer comércio com nossas moedas e com as garantias dos bancos centrais. Esta é
uma coisa nova que já começamos a discutir. Na última reunião dos Brics (grupo que
reúne Brasil, Rússia, Í ndia e China), foi constituído um grupo de trabalho
para pensar sobre isso. Não é possível você tratar da economia com teoricismo,
de que você acha que hoje pode tomar uma decisão para evitar que alguma coisa
aconteça daqui a dez anos. Esta crise econômica mundial mostrou isso. Hoje é
unanimidade mundial que o Brasil é o país mais preparado para enfrentar isso.
Nunca tivemos nenhum plano econômico. Cada vez que tinha uma crise vinha um e
apresentava um plano. Quebrava. Os bancos hoje estão sendo processados no
Supremo Tribunal Federal (STF) por uma dívida de mais de R$ 150 bilhões, por
causa dos planos Bresser e Verão.
Valor: Os bancos pediram ajuda ao governo?
Lula: Não é que o governo vai ajudar. O
governo é o responsável. O governo fez a lei. Eles cumpriram a lei. Se eles
perderem no STF, sabe o que vai acontecer?
Valor: A conta vai para o Tesouro.
Lula: Eles vão acionar a União.
Obviamente que é isso. E quem fez os planos está dando palpites nas economias.
Este é o dado. Também peço a Deus que eu não deixe nenhum esqueleto para meus
sucessores. Por isso, estou mais tranquilo para tomar as decisões, mais meticuloso,
para fazer as coisas. Eu fico imaginado, quando eu não estiver mais aqui
dentro, o que é que um ex-presidente pode esperar do país.
Que
um venha e faça mais do que ele. Porque isso é o que vai fazer o país ir para a
frente. Somente uma figura medíocre é capaz de torcer para o cara não dar
certo. Porque, quando não dá certo, eu não vi nenhum político ter prejuízo. Ele
pode perder a eleição, mas não tem prejuízo. Agora, o povo pobre é que paga a
conta, se a política não der certo.
Valor: Qual vai ser o discurso da sua candidata?
Lula: Vamos deixar a candidata
construir. Mas eu acho o seguinte: o que eram as campanhas passadas? Quem vai
controlar a inflação, o salário mínimo de US$ 100, não era isso? Isso acabou.
Não se fala mais em FMI, não se fala mais em salário mínimo de US$ 100, não se
fala mais em inflação.
Valor: Mas no FMI o senhor vai falar?
Lula: Vou falar porque agora somos
credores do FMI.
Valor: A França se tornou nosso parceiro prioritário
em detrimento dos EUA?
Lula: Não sei porque não pensaram nisso
antes. A França é o único país europeu que faz fronteira com o Brasil. São 700
quilômetros de fronteira. Isso é uma vantagem comparativa da relação com a
França. Nós sempre teremos uma excelente relação com o EUA. Sempre teremos uma
belíssima relação com a Europa. Mas isso não atrapalha que nós tenhamos
relações bilaterais estratégicas com outros países. Acho que os Estados Unidos
precisam ter um olhar para a América Latina mais produtivo, mais
desenvolvimentista.
Valor: O presidente do Banco Central, Henrique
Meirelles, vai sair para se candidatar ao governo de Goiás?
Lula: Sinceramente, o Meirelles não devia
pensar em ser candidato a governador, coisa nenhuma. É que esse negócio (fazer
política) tem um comichão…
FONTE: entrevista realizada por Claudia Safatle, Maria
Cristina Fernandes, Cristiano Romero e Raymundo Costa, publicada ontem (17/09)
no jornal VALOR Econômico.