“Minha Natureza”, de Isaac Moreira, já está nas plataformas
Disco de MPB clássica e música instrumental terá show de lançamento em Porto Seguro em 5 de julho
Já está disponível nas plataformas de streaming o álbum “Minha Natureza”, segundo disco do cantor, compositor e violonista baiano Isaac Moreira (ouça no Spotify). São oito faixas autorais, que dialogam com diferentes gêneros da música brasileira, mergulhada nos ritmos afro-brasileiros, reconhecendo a música de matriz africana como fonte dos mais belos elementos da cultura nacional. Tudo com as características próprias do artista: a forte influência do violão brasileiro e o estilo marcado pela improvisação instrumental.
Com sonoridades que refletem as influências da MPB clássica de Baden Powell, Dorival Caymmi, Mateus Aleluia e Chico Buarque, junto às inventividades de Geraldo Azevedo, Caetano Veloso e Hermeto Paschoal, Isaac agora também incorpora no trabalho as suas mais recentes e vastas pesquisas de percussão e de ritmos dos rituais do candomblé. Vassi, agueré, jicá, ijexá e barravento aparecem nas músicas: quatro delas com letra e outras quatro instrumentais.
Além de assinar todas as composições e arranjos, o artista canta, toca um violão protagonista e divide a produção musical do álbum com Lenis Rino – este também responsável pela gravação, mixagem e masterização. Em formação minimalista, os instrumentos se completam com a percussão de Marcelo Bottini e Lenis Rino e a flauta de Zeca Maretzki. É deste modo que o disco ressoa a MPB tradicional, com uma estética setentista – que até poderia ser chamada de vintage ou old school.
“O álbum faz um resgate dos elementos rítmicos da cultura afro-brasileira, extremamente presente na Bahia. Nesse processo, resgato minha própria essência, minha identidade e minha natureza enquanto músico brasileiro e baiano”, resume Isaac Moreira. “As letras e sonoridades trazem reflexões sobre a nossa própria existência, os nossos conflitos internos, o desconhecido, a superficialidade do mundo moderno e a nossa volta à origem – ao aconchego. Na elaboração dos arranjos, experimentei os ritmos e sonoridades ancestrais por meio do violão clássico, em diálogo com instrumentos de percussão e a flauta. Cada faixa cria uma paisagem musical única, usando minha liberdade criativa e meu desejo de reconexão com aquilo que é essencial”, descreve o artista.
Nascido em Salvador e criado no sul da Bahia, Isaac reside em Santa Cruz Cabrália, município da Costa do Descobrimento, território onde fará o show oficial de lançamento, no dia 5 de julho, às 20h, no Centro de Cultura de Porto Seguro, com entrada gratuita.
Completando as ações do projeto do disco, o artista vai ministrar o workshop-conversa “Da Criação à Gravação”, sobre o processo criativo e produção musical do trabalho. A atividade gratuita, a ser realizada no dia 1º de julho, das 15h às 17h, também no Centro de Cultura de Porto Seguro, propõe uma troca entre artistas independentes, estudantes e demais interessados, abordando desde o processo composicional até os caminhos da gravação, com foco especial na experimentação dos ritmos afro-brasileiros dentro de arranjos autorais para voz, violão, percussão e flauta.
A partir desta jornada, Isaac busca circular por mais cidades da Bahia e de outros estados brasileiros, apresentando seu novo show a diferentes públicos. Novidades de agenda estão a ser anunciadas em breve.
Este projeto foi contemplado nos Editais da Paulo Gustavo Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal. Paulo Gustavo Bahia (PGBA) foi criada para a efetivação das ações emergenciais de apoio ao setor cultural, visando cumprir a Lei Complementar no 195, de 8 de julho de 2022.
TRAJETÓRIA – Isaac Moreira começou a compor e cantar na adolescência. Ainda nessa época, despertou seu interesse pelo violão e aprendeu, de forma autodidata, a tocar o instrumento que se tornou sua grande paixão. Nascido em Salvador e criado no sul da Bahia, ele retornou à cidade natal em 2004, onde se graduou em licenciatura em Música com habilitação em Violão pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Durante seu período na capital, atuou como violonista em variadas frentes, além de ter estabelecido parcerias que resultaram na formação dos duos de violões Dueto do Mato e Duo Aro. De volta à Costa do Descobrimento em 2012, começou a se apresentar com sua voz e violão em diversos palcos, incluindo shows em homenagem a Vinicius de Moraes e a Dorival Caymmi.
Lançou seu primeiro álbum, “Marés”, em 2016, acompanhado por Sérgio Boré, um dos percussionistas mais reconhecidos do Brasil. Desde então, em paralelo à carreira solo, vem participando de projetos com artistas e da cena cultural da região, a exemplo do grupo Buranhém Choro Clube, do qual é violonista desde 2024 e com o qual participou de importantes eventos como o Festival Jazz Trancoso.
Em 2024, realizou o espetáculo “Entre Marés” no palco do Teatro do Sesc Porto Seguro, especialmente preparado para apresentar um recorte do seu repertório autoral, com destaque para canções inéditas que agora fazem parte do segundo disco, “Minha Natureza” (2025).
ISAAC MOREIRA – “Minha Natureza”
= Lançamento digital
Quando: 18 de junho
Onde: Plataformas de streaming
= Workshop-conversa “Da Criação à Gravação”
Quando: 1º de julho, 15h às 17h
Onde: Centro de Cultura de Porto Seguro
Quanto: Gratuito
Classificação indicativa: 16 anos
Apoio: Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)
= Show de lançamento
Quando: 5 de julho, 20h
Onde: Centro de Cultura de Porto Seguro
Quanto: Gratuito
Classificação indicativa: Livre
Acessibilidade: Interpretação em Libras, guia-vidente e audiodescrição do programa
Apoio: Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)
Siga www.instagram.com/isaacmoreira__
“Minha Natureza”, de Isaac Moreira
Ficha Técnica
Voz, violão, composição e arranjos: Isaac Moreira
Percussão: Marcelo Bottini e Lenis Rino
Flauta: Zeca Maretzki
Produção Musical: Isaac Moreira e Lenis Rino
Gravação, mixagem e masterização: Lenis Rino
Faixa a Faixa
A primeira faixa do álbum traz o ritmo agueré, originário da nação Ketu, que Isaac Moreira aprendeu ao ouvir uma cantiga para Exu – geralmente o primeiro orixá a ser reverenciado no xirê, ritual importante dentro do candomblé. Por esse motivo, a escolha dessa música para abrir o álbum se deu de forma simbólica. A letra parte da observação de uma cena cotidiana: uma pipa cai do céu e outra surge no mar – imagem que, para Isaac, representa o movimento da vida e suas ressignificações. A canção propõe um conviteà observação, à escuta atenta e à contemplação da beleza finita das coisas: “vai contemplar de novo o entardecer, ninguém trará de volta a beleza“. A voz é o elemento central, conduzindo a narrativa com suavidade e presença, enquanto o violão acompanha com pulso constante, marcando a clave do agueré. Em diálogo direto, está a percussão, que combina as frequências graves da box (cajón) com os timbres médios-agudos dos caxixis e do agogô de castanhas. A flauta completa o arranjo com intervenções melódicas nos contracantos e improvisações sutis, trazendo um toque jazzístico e reforçando o caráter contemplativo e atmosférico da faixa.
2. Mirante
Essa faixa instrumental, composta durante o período da pandemia, é uma homenagem a um mirante localizado no bairro onde Isaac Moreira mora, em Santa Cruz Cabrália. A música faz um diálogo sensível entre o violão e a percussão, quetraz os timbres do agogô, caxixis e outros shakers (chocalhos), executando de forma constante a clave do ritmo vassi, também da nação Ketu. Sobre essa base rítmica firme, o violão se destaca ao construir progressões harmônicas e melodias que remetem a uma sonoridade mais clássica.
3. Minha Natureza
A faixa que dá nome ao álbum propõe uma viagem ao “eu” mais íntimo, atravessando paisagens internas repletas de riqueza e beleza natural: rios fluem dentro de si, há vales e campinas iluminadas, mares profundos e estrelas. Tudo isso funciona como metáfora para sentimentos, memórias, potenciais e dimensões da alma. A introdução é marcada por um violão suave, que estabelece o pulso da canção. Aos poucos, o arranjo vai ganhando corpo com a entrada da percussão e da flauta, criando uma ambientação progressiva. A voz entra em destaque, com presença marcante. A canção mistura a linguagem do violão clássico com elementos da música afrobaiana. O ritmo jicá – um toque de Iemanjá no candomblé – serve de base para a construção do arranjo, que incorpora agogô, caxixi, atabaque e efeitos percussivos, em diálogo com o violão. Este atua como acompanhamento harmônico e rítmico para a voz e a flauta nos contracantos, e, em determinados momentos, assume o papel de solista com trechos de improvisação.
4. Verdade
Essa faixa traz uma reflexão sobre a verdade – que muitas vezes se perde em meio ao excesso de informações do mundo atual. Cada pessoa se apega ao que deseja acreditar e, em meio a tantas vozes, discursos e dados, a verdade se torna difícil de enxergar: “Onde está você, na verdade ninguém viu. São tantas pra compreender, na verdade confundiu”. O arranjo é marcado pelo ritmo ijexá, que transmite uma energia pulsante e cadenciada. A percussão, composta por cajón, chocalho e agogô, sustenta a base rítmica. O violão acompanha utilizando células do próprio ritmo, enquanto a flauta atua nos contracantos e, em alguns momentos, apresenta improvisações com uma linguagem mais jazzística.
5. Chorando Coco
Nesta faixa instrumental, o arranjo mergulha no universo do samba de roda, trazendo à tona referências da cultura popular baiana. A música se inicia com o violão, que introduz o tema com fluidez e leveza, explorando uma rítmica influenciada por gêneros como o coco e o maracatu. Em seguida, entram a base percussiva – com palmas, prato e atabaque –, formando um alicerce rítmico vivo e pulsante, que evoca o clima de roda, celebração e ancestralidade característico do samba de roda. Ao longo da faixa, o violão segue em destaque, conduzindo o desenvolvimento melódico com suingue, liberdade e nuances de improviso, reforçando a riqueza dos sotaques rítmicos nordestinos presentes.
6. Cidades
Assim como em “Verdade”, a letra da música “Cidades” traz reflexões sobre o mundo contemporâneo: Isaac apresenta um sentimento de vazio existencial provocado pela superficialidade das relações e pela falta de conexão nas grandes cidades. O eu lírico se percebe como um personagem estrangeiro, vagando sem rumo por um ambiente que não o acolhe. O arranjo é guiado pelo ritmo do barravento, toque predileto de Xangô, que traz movimento à música. Atabaque e violão conduzem juntos a base rítmica, criando um pulso orgânico e envolvente. Em certos momentos, o triângulo traz um toque nordestino que remete ao xote, enquanto o violão também assume improvisações melódicas com nuances do blues, ampliando a expressividade da composição.
7. Galope
Composição instrumental que reúne violão, flauta e percussão em um arranjo vibrante e ritmicamente envolvente. A peça parte do ritmo tradicional do galope, que se funde de forma orgânica a elementos do congo de ouro, explorados na rítmica do violão com inventividade e precisão. Na percussão, a box marca os graves que sustentam a base sonora, enquanto asalato e caxixis acrescentam texturas e efeitos que ampliam a paisagem rítmica da faixa. O diálogo entre violão e flauta conduz a melodia de maneira fluida e expressiva, evocando com força a musicalidade nordestina.
8. Abraço
A última faixa do álbum é uma composição instrumental para violão solo que apresenta Isaac em sua forma mais íntima e virtuosa. O violão – instrumento que representa sua essência artística – conduz uma jornada de escuta interior, abrindo espaço para a presença, o silêncio e o encontro com o próprio centro. Mais solene e serena, a peça convida à calmaria, à reflexão e a um estado de harmonia existencial. Em um dos trechos, sussurros sutis e a respiração entregue à interpretação surgem como extensões naturais do corpo e da emoção, ampliando a sensação de intimidade. O violão percorre paisagens sonoras com delicadeza e profundidade, criando um ambiente de acolhimento e paz, como um abraço sonoro. Ao finalizar o álbum com essa composição, Isaac espera que cada pessoa sinta esse abraço, esse acolhimento profundo.
