OMI TUTU: Hariel Revignet transforma o MUNCAB em uma geografia de águas e possibilidades de retorno
Exposição individual da artista brasileira-gabonesa reúne pinturas e instalações e articula água, território, deslocamento e continuidade
A partir de 11 de setembro, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, apresenta OMI TUTU – Água Fresca, exposição individual da artista brasileira-gabonesa Hariel Revignet, com curadoria de Jamile Coelho – também diretora artística do MUNCAB. Reunindo pinturas e instalações, o conceito expositivo parte da água como elemento de conexão entre territórios, corpos e continuidade para construir uma geografia atravessada por rios, mares, deslocamentos e possibilidades de retorno. Entre Brasil e Gabão, terra e água, origem e percurso, Hariel cria uma obra em que diferentes territórios se encontram e permanecem em movimento.
O título da exposição é uma expressão em iorubá traduzida como “água fresca” ou “água que refresca”, associada a frescor, equilíbrio, conciliação e apaziguamento. Na pesquisa da artista, a água assume diferentes formas — mar, rio, lágrima, alimento, caminho — e torna-se uma maneira de pensar travessias, pertencimentos e transformações. Diante da experiência da diáspora, Hariel interessa-se menos pela ideia de sobrevivência e mais pelo que pode nascer depois da travessia. “Não quero mais resistir nem sobreviver. Quero, no empuxo das águas, transbordar”, afirma Hariel.
“OMI TUTU é uma celebração e uma maneira de honrar as águas e as Grandes Mães. É também uma forma de afirmar, entre o sensível e o político, a necessidade do cuidado e de celebrar a abundância e a riqueza presentes nos símbolos, nos rituais e nas confluências afro-diaspóricas”, afirma Hariel Revignet.
Para a artista, a exposição no MUNCAB também se relaciona diretamente com sua trajetória em Salvador. Durante o mestrado na Universidade Federal da Bahia, a cidade tornou-se parte fundamental de seu percurso. “É uma grande honra e responsabilidade apresentar meu trabalho no MUNCAB. É uma encruzilhada potente, um espaço de trocas que preserva tradições e, ao mesmo tempo, abre caminhos para novas possibilidades na arte contemporânea. Sinto esta exposição como uma oferenda de agradecimento a este território e aos ensinamentos que recebi aqui”, acrescenta.
Dentro do mar tem rio
Nascida em Goiânia, em 1995, Hariel Revignet é brasileira-gabonesa e constrói sua produção a partir dos encontros entre Brasil e Gabão, sua história familiar e os territórios que atravessam sua trajetória. É nesse contexto que a artista desenvolve o conceito de autobiogeografia, articulando experiência pessoal, território e deslocamento.
A imagem do estuário — onde diferentes águas se encontram sem perder suas características — atravessa a exposição e orienta o texto curatorial “Dentro do Mar tem Rio”, de Jamile Coelho. O mar deixa de ser apenas uma imensidão que separa territórios e passa a ser também espaço de circulação e continuidade. “Há rios correndo dentro do mar. E talvez sejam eles que sustentem, até hoje, tudo aquilo que insiste em permanecer vivo.”
O percurso expográfico assinado pela arquiteta Gisele de Paula pode ser percebido como uma sequência de águas e margens. O visitante atravessa um Limiar, encontra o Mar de Lágrimas, aproxima-se do Estuário Gabão, percorre o Rio Encantado e chega aos Portais do Retorno. Construindo assim uma experiência em que a água deixa de ser apenas paisagem e passa a organizar relações entre corpo, matéria, território e conhecimento.
Entre as obras inéditas está Peixes – Sementes, instalação de 2026 formada por 195 esculturas de peixes. Dispostos como um grande corpo coletivo, os peixes evocam a água como espaço de vida, movimento e transformação.
No núcleo Mar de Lágrimas, a maternidade e a transmissão de conhecimentos aproximam-se da presença de Yemoja/Iemanjá e da relação de Salvador com as águas. A obra Yeye Omo Ejá – Mãe cujos filhos são peixes, de 2025, realizada em acrílica e costura com miçangas e sementes de lágrima-de-nossa-senhora, estabelece uma relação entre pintura, corpo, matéria orgânica e transmissão .
Ao redor, a série Pretos Velhos e Caboclos d’água reúne retratos de pessoas negras e indígenas ligadas à arte, ao pensamento, à política, à educação e à defesa dos territórios e das águas. Também integram esse conjunto Iya Ejá e A Mãe do Mar é a Terra, aproximando diferentes representações do feminino, da terra e das águas.
A experiência com o Gabão também ganha um núcleo próprio. A viagem de Hariel a Libreville, em 2023, território paterno, trouxe para sua pesquisa paisagens, mercados, ruas, florestas e portões que passam a integrar a exposição. Obras como A Floresta e O Mercado G’Kessa aproximam paisagem, deslocamento e experiência urbana, enquanto Igâ, Ziguidás, Amapô Omí, Omí Orí e Orí Ejá ampliam as relações entre corpo, água, terra e território.
Já a instalação inédita A Mãe do Mar é a Terra, de 2026, reúne 21 peças de massa de terra esmaltadas com búzios, colocando em relação terra e água, chão e mar, matéria e imaginação.
Quando o espaço também é obra
Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Goiás, Hariel desenvolve o conceito de Axétetura, que amplia a compreensão da arquitetura a partir de conhecimentos negros e de outras formas de construir, habitar e organizar o mundo.
Em OMI TUTU, essa perspectiva faz com que a arquitetura do MUNCAB participe diretamente da experiência.
As obras reorganizam distâncias, criam passagens, modificam escalas e fazem com que o visitante perceba o próprio corpo dentro do espaço. Em Agombenero | Ancestrais e Abandji, cipós e costuras atravessam os limites do suporte. Em Maracanandê, palhas, ervas, sementes e búzios criam ritmos e texturas que aproximam a obra do corpo.
No núcleo Rio Encantado, encontra-se Rio de Miçangas – Ziguidás, instalação de 2026 com fios de miçangas e sementes de açaí descem verticalmente e encontram quartinhas, cabaças, moringas, cuias e alguidares, formando uma espécie de rio suspenso. O visitante precisa caminhar entre suas margens, tornando o deslocamento parte da obra. Ao lado, A Dona das Águas, díptico de aproximadamente 3,20 metros, estabelece uma relação entre a pintura e o rio material que se espalha pelo espaço.
Nos Portais do Retorno, a artista parte de fotografias de portões encontrados em Libreville e de símbolos adinkras para reelaborar a ideia histórica dos “Portões do Não Retorno”, associados ao tráfico transatlântico de africanos escravizados. Em vez de reproduzir a lógica da ruptura, Hariel altera simbolicamente a direção da passagem: o retorno aparece como possibilidade de reencontro, reorientação, reconstrução de pertencimento e criação de novas relações no presente.
Ao reunir referências gabonesas, iorubás, Akan, afro-brasileiras e indígenas, OMI TUTU não busca estabelecer uma imagem única do continente africano, mas construir, a partir da experiência particular de Hariel, uma paisagem de encontros e continuidades. São águas que encontram novos caminhos, sementes que germinam, corpos que atravessam territórios e portas que podem voltar a se abrir.
Para Jamile Coelho, a água é mais do que um elemento recorrente na produção da artista: é uma forma de pensamento. “Na obra de Hariel, a água torna-se uma maneira de compreender travessias, pertencimentos e transformações. Entre Brasil e Gabão, o oceano deixa de ser distância e se torna um arquivo de continuidades. No MUNCAB, esse fluxo encontra a arquitetura e transforma a experiência da exposição”, afirma a curadora.
A leitura parte da ideia de que as pinturas, esculturas, instalações e objetos de OMI TUTU prolongam um mesmo fluxo, no qual referências afro-atlânticas e indígenas convivem sem hierarquia. “Salvador é a cidade das águas e das mulheres. No Brasil, a água também é cultura: está nos banhos, nas lavagens, nas travessias e nas navegações. Ao reivindicar a água fresca, OMI TUTU afirma abundância e vitalidade. Não basta sobreviver. É preciso transbordar”, destaca Cíntia Maria, diretora-geral do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasile
Sobre o MUNCAB
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) é gerido pela Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira (AMAFRO), e consolida-se como uma instituição de referência nacional e internacional voltada à pesquisa, preservação e difusão das artes visuais afro-brasileiras, afro-diaspóricas e africanas.O museu desenvolve programas de acervo, documentação, conservação e expografia dedicados à valorização e circulação da produção artística negra em suas múltiplas linguagens e temporalidades — da modernidade às práticas contemporâneas. Sua atuação contempla ainda ações educativas, formações, seminários e projetos de mediação cultural que buscam ampliar o acesso, fortalecer o pensamento crítico e estimular a participação social no campo das artes visuais.
Serviço
O quê: OMI TUTU – Água Fresca | uma exposição de Hariel Revignet, com curadoria de Jamile Coelho
Visitação: 11 set 2026 – 14 fev 2027
Horário: Ter – dom: 10h – 17h (acesso do público até às 16h30)
Ingressos: inteira: R$ 20 | meia-entrada: R$ 10
Gratuidade: quartas-feiras e domingos
Ingressos e Mais Informações: https://www.muncab.com.br/
Onde: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) – R. das Vassouras, 25 – Centro Histórico, Salvador – BA, 40020-056
