Salvador entra no roteiro mundial da moda circular com encontro que transforma armário parado em ativo
Nascido em Nova York, o Troca & Valoriza chega à capital baiana em 27 de agosto e coloca a cidade na mesma rota de São Paulo, Veneza e Milão. A aposta: tratar a roupa guardada como matéria-prima de negócio — e não como lixo.
Enquanto a União Europeia se prepara para responsabilizar financeiramente cada marca pelo destino final das roupas que coloca no mercado e o consumo de segunda mão cresce em ritmo duas vezes maior que o do vestuário novo, a moda circular deixa de ser bandeira de nicho para virar agenda econômica. É nesse movimento que Salvador acaba de ganhar endereço próprio.
No dia 27 de agosto, a capital baiana recebe o Troca & Valoriza, encontro presencial do projeto Re-Valorize, do Instituto Por Elas, no Hotel Mercure Salvador Rio Vermelho, das 18h às 22h. A edição soteropolitana encerra o ciclo brasileiro de 2026 — depois de Belo Horizonte, São Paulo e Brasília — e antecede a ida da comitiva a Milão, entre 14 e 19 de setembro, com painel no Palazzo Lombardia, sede do governo regional italiano.
O Re-Valorize foi apresentado em Nova York, em março, em evento paralelo à Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU (CSW). O projeto percorre sete cidades em 2026 e fecha o calendário com uma segunda edição na Itália, em Veneza.
Conscientização com hora marcada e roupa na mão
O formato foge do modelo de palestra. O encontro reúne 30 mulheres convidadas, que doam pelo menos dez peças de roupa e trocam por outras durante a noite, em um espaço de curadoria montado no local. A ideia é simples, divertida e deliberadamente física: em vez de discutir consumo consciente no abstrato, as participantes abrem o próprio armário.
A conta funciona. Em São Paulo, uma única noite do Troca & Valoriza arrecadou mais de 650 peças, com mais de 200 trocadas entre as participantes. O que é doado alimenta o ecossistema do projeto, que inclui o Re-Valorize – Empreenda com Brechó, formação de 20 horas sobre curadoria, precificação, vendas e gestão para mulheres que querem viver de moda circular.
O rigor acompanha o discurso: na edição de Brasília, em 30 de julho, realizada no primeiro hotel do Distrito Federal com certificação internacional Lixo Zero, o encontro calculou a própria pegada de carbono para posterior compensação, a partir de um levantamento de mobilidade respondido pelas participantes.
O desperdício como matéria-prima
Os números explicam a urgência. O Brasil descarta cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, segundo a S2F Partners. Dados do Sebrae indicam que apenas 20% das cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis industriais gerados anualmente no país são reciclados ou reaproveitados.
No mundo, o caminho é o oposto. O mercado global de roupas de segunda mão deve alcançar US$ 393 bilhões em 2030, com crescimento anual de cerca de 9%, segundo o relatório de resale da ThredUp com análise da GlobalData — o dobro do ritmo do mercado de vestuário em geral. Na Europa, a diretiva publicada em setembro de 2025 estende a responsabilidade do produtor aos têxteis e dá aos Estados-membros até junho de 2027 para transpor a regra.
Traduzindo: o que aqui ainda é sobra, lá fora já é cadeia produtiva regulada.
Quem são as mulheres do outro lado da conta
Pesquisa realizada pelo Re-Valorize com 207 inscritas desenha o perfil de quem procura o projeto: 97% já empreendem ou querem empreender, mas apenas 22% têm negócio formalizado. Metade vive com até dois salários mínimos e 54% têm ensino superior ou pós-graduação — um retrato de qualificação represada pela falta de acesso a capital e a formação técnica. Hoje, mais de 40 mulheres estão em formação no curso, e o projeto já alcançou 18 estados brasileiros.
O contexto baiano dá peso extra ao encontro. Salvador registrou a maior taxa de desocupação entre as capitais brasileiras no segundo trimestre de 2026 — 11,4%, segundo a PNAD Contínua do IBGE divulgada em 14 de agosto. Na Região Metropolitana, o índice chega a 12,5%, também o mais alto do país no recorte. No Brasil, a desocupação entre mulheres (6,4%) segue acima da registrada entre homens (4,6%), e entre pessoas pretas (6,9%) supera a média nacional.
“Moda circular, para a gente, não é tendência, é a primeira fonte de renda de muitas mulheres. A pergunta que a gente faz não é o que fazer com a roupa que sobrou, é o que fazer com o talento de uma mulher para que ela tenha sua independência financeira. O que a gente traz é o método para que isso vire negócio formal, com cliente e lucro”, afirma Rizzia Froes, presidente do Instituto Por Elas.
Uma rede construída em Salvador
A edição baiana nasce de articulação local. O Hotel Mercure Salvador Rio Vermelho, além de sediar o encontro, é parceiro da iniciativa. A jornalista especialista em inovação e tecnologia Gabriela de Paula, vice-presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (Sinjorba), integra a mobilização na cidade, aproximando o projeto de mulheres e lideranças locais.
“Salvador tem uma força empreendedora feminina muito própria. São as mulheres que historicamente transformam criatividade e necessidade em trabalho e renda. Este projeto aproxima essa potência da sustentabilidade e cria novas pontes da Bahia com outros grandes centros de decisão global”, afirma Gabriela de Paula.
O Re-Valorize foi apresentado em Nova York, em março, em evento paralelo à Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU (CSW). De lá para cá, a trilha vem sendo desenhada com uma lógica clara: o que se aprende no armário de Salvador é o mesmo argumento que sobe ao Palazzo Lombardia em setembro.
SERVIÇO
Troca & Valoriza – Edição Salvador
- Data: 27 de agosto de 2026 (quinta-feira)
- Horário: 18h às 22h
- Local: Hotel Mercure Salvador Rio Vermelho – R. da Fonte do Boi, 215, Rio Vermelho
- Formato: encontro fechado, por convite
- Realização: Instituto Por Elas · Projeto Re-Valorize
- Credenciamento de imprensa: pr******@*****as.org · (31) 99907-3524
- Redes: @institutoporelas
SOBRE O INSTITUTO POR ELAS
Organização sem fins lucrativos dedicada à autonomia econômica e à proteção de meninas e mulheres, com atuação no Brasil e registro também nos Estados Unidos. É presidida por Rizzia Froes, advogada e mestre em Direito Internacional pela Fordham Law School (Nova York), membra emérita do Corpo Consular de Minas Gerais e integrante do grupo de trabalho do Ministério da Justiça no pacto contra o feminicídio.
Na Bahia, o Instituto realiza ações como o Gaymar Por Elas, primeira Parada Náutica LGBTQIAPN+ do Brasil, na Ribeira e nas águas da Baía de Todos-os-Santos, e participa da execução do Oxe, Me Respeite nas Escolas, iniciativa de prevenção e enfrentamento das violências de gênero no ambiente escolar. Além do Re-Valorize, mantém projetos como Speak Por Elas, programa gratuito de inglês para lideranças femininas; Folia Por Elas, reconhecido pelo Prêmio BDMG de Empreendedorismo Social; VIVA Por Elas; e Gaymar Por Elas.
Contato:
Gabriela de Paula

eu adoro (claro que não!) quando dizem que o problema do lixo do mundo é meu ou seu. me vendem lixo e eu quem sou responsável por ele? eu compro roupa, geladeira, celular, sofá, mesa, cadeira, sapato, e por aí vai, mas vendem lixo e eu é quem sou responsável por isso? gracinhas!
cuidar das costureiras e costureiros Ny não quer né?