Sonzaço! A arte de não se deixar domesticar. Por Renato Queiroz
Tem coisa que, uma vez que aceita a rédea e se deixa domesticar, às vezes, nunca mais descobre o caminho de volta.
E não tô falando aqui de gênio forte ou de temperamento implicante. Falo daquele pedaço de chão batido que a gente carrega no peito e que ainda não deixamos o cimento da vida asfaltar.
Senta que lá vem História
A rotina passa o ferro na camisa, o tempo vai tirando o brilho dos olhos pro espanto e, sem alarde, a gente começa a levantar cerca em volta da própria alma.
Aí bate no peito e chama essa ironia de “maturidade”, de “prudência”, de “aprender a jogar o jogo”.
É aí mesmo que o perigo mora.
Quando a gente se ocupa em aparar demais as pontas da alma pra caber na caixinha dos outros, sufoca o bicho que vive dentro de nós.
Não o bicho raivoso que destrói, mas aquele instinto ancestral, bonito e livre, que fareja de longe o que é afeto sincero, o que é amor, o que é partilha no terreno da vida.
Entregar essa mata fechada que guardamos por dentro não é abrir mão do nosso coração infante.
Daquela jovialidade que não pede licença pra se encantar com o mundo, que tem pressa de amar e que não senta à mesa pra negociar os próprios sonhos.
Essa força ancestral nunca foi ingenuidade. É a energia de transformação mais pura e radical que existe. É ela que alimenta o abraço, o quilombo, a aldeia, a cidade da solidariedade e a cumplicidade no caminho.
É esse olhar sem arma que faz a gente estender a mão pra quem tá cambaleando do lado, fazendo a gente crer que a vida não pode ser reduzida a um amontoado de boletos e obrigações.
A vida tem que ser construção tecida no afeto, na comunhão e na intensa chama do encontro.
A gente precisa desesperadamente desse instinto pra esperançar o cotidiano, no sentido mais bonito da palavra, de levantar e fazer acontecer.
É esse verbo que coloca a gente em movimento, que faz ir pra cima e buscar no mundo o que ele tem de mais sagrado. É o ideal amoroso que se recusa a aceitar a frieza dos tempos atuais.
É a teimosia bonita de manter acesa a chama do riso solto, do abraço apertado de demorar e da utopia teimosa de que o amanhã pode, sim, ser um dia lindo.
Não deixa ninguém domesticar a sua capacidade de sonhar. Deixa o coração correr solto e pé no chão no quintal da sensibilidade.
A beleza dessa caminhada tá justamente em não perder a capacidade de se misturar com o outro, de trançar laços e de fazer do mundo um lugar mais humano, acolhedor e afetuoso.
E se tem uma obra que guarda esse instinto pedindo bença e licença, é “Coração Selvagem”, do mestre Belchior.
Não tem nada de selva romantizada ali, nem pose de rebelde pra sair bonito na foto.
É a recusa visceral de largar as próprias certezas, de arriscar tudo no peito e na paixão pela simples alegria de estar vivo, mesmo quando o caminho do pareça duvidoso.
Mesmo que o caminho pareça estar errado.
Essa é a parte mais doída. Porque o nosso nó quase nunca é a proibição de errar, mas a vergonha de admitir que a gente fez ou não quis de corpo e alma, caminhar por ali.
Belchior também cravou no peito do tempo aquele verso de “Velha Roupa Colorida”: “Precisamos rejuvenescer”. Não tá falando de estética nem de creme no rosto.
É rejuvenescimento de alma, de não deixar o peito empedrar tão cedo, de não aprender a concordar com tudo tão fácil.
Em “A Palo Seco”, quando ele grita “Ando mesmo descontente / Desesperadamente eu grito em português”, não é artista fazendo cena no palco. É uma pessoa de carne e osso, se recusando a engolir a seco o massacre do silêncio.
E em “Paralelas”, quando solta “no escritório eu ganho mais, meu amor ganha menos”, não tem metáfora rebuscada ali.
É a nossa própria vida nua e crua, vendendo nacos de coração em troca de uma falsa ideia de segurança, dia após dia.
O coração selvagem não é propriedade exclusiva de um rapaz latino-americano do Ceará que nos encantou e surpreendeu desde os anos 70, até na sua partida, e até hoje.
É uma fresta de possibilidade.
Mora em qualquer um de nós que ainda não assinou o termo de rendição.
Às vezes, nem precisa de palco: é só aquela palavra de coragem que a gente não falou alto, mas que também se recusa
escrupulosamente engolir.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é apaixonado pela história da música.
