Xiló-Lab 2026 promove mulheres na xilogravura com programação no Acervo da Laje
Projeto realiza cinco encontros no Subúrbio Ferroviário e apresenta ao público obras produzidas durante as oficinas
A xilogravura é uma técnica ancestral, mas a presença e o reconhecimento das mulheres na história e na contemporaneidade da gravura brasileira ainda são restritos. É diante desse cenário que a Coletiva Xiló realiza, entre setembro e novembro de 2026, o Xiló-Lab, no Acervo da Laje, localizado no bairro de São João do Cabrito, em Salvador. A iniciativa busca ampliar a presença das mulheres na gravura e promover reflexões sobre questões contemporâneas de gênero por meio da criação artística.
A programação reúne 25 mulheres e pessoas dissidentes de gênero, maiores de 18 anos, com pontuação adicional para pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência, residentes de São João do Cabrito e LGBTQIAPN+. Ao longo dos encontros, as participantes terão contato com os princípios da xilogravura, referências artísticas e conhecimentos técnicos, além de momentos de conversa e troca de experiências. A proposta é fazer da prática artística também um espaço de reflexão, compartilhamento de vivências e construção de novas perspectivas.
Para Cris Yoshida, uma das coordenadoras pedagógicas da Coletiva Xiló, ampliar a participação das mulheres na xilogravura também significa transformar a forma como histórias e experiências são registradas. “Durante muito tempo, a história da xilogravura e da literatura de cordel no Brasil foi contada e feita majoritariamente por homens. Quando a gente abre espaço para que mais mulheres aprendam e façam xilo, não estamos só ensinando uma técnica tradicional, estamos mudando como as histórias são contadas. Quando uma mulher pega a goiva para entalhar a madeira, ela coloca ali a visão dela sobre a vida, a casa, o trabalho e a sociedade”, afirma.
Na segunda edição do Xiló-Lab, as participantes poderão discutir sobre gênero, arte e sociedade, além de aprenderem sobre a história da xilogravura e técnicas fundamentais para talhar a madeira e imprimir no papel. As atividades contarão também com a participação do artista e arte-educador Bruno Costa, designer formado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que atua no universo gráfico entre técnicas tradicionais de produção e impressão e ferramentas digitais. Com experiência em litografia e xilogravura, Bruno já realizou oficinas no próprio Acervo da Laje e possui trabalhos na mostra permanente “Memórias para Dona Antônia”.
As produções desenvolvidas durante o processo serão posteriormente apresentadas em uma exposição no Acervo da Laje. “Nosso objetivo é criar oportunidades de aprendizagem, troca de saberes e expressão artística. Queremos aprender com as participantes, que elas possam se apropriar desse conhecimento e experiência e que, com o tempo, possamos contribuir para tecer uma rede mais diversa de gravuristas no país”, completa Cris.
A programação começa no dia 5 de setembro, com a sessão “A ancestralidade das mãos e as mulheres que gravam futuros”, voltada à apresentação das participantes e à escuta de suas referências e percepções sobre as questões de gênero. A atividade também propõe uma conversa sobre os saberes transmitidos por mulheres de diferentes famílias e comunidades, como cozinha, cura, costura, reza e luta, relacionando essas memórias às perspectivas de futuro construídas pelas participantes.
No dia 12 de setembro, será realizada uma introdução à xilogravura, com apresentação dos princípios da técnica, referências artísticas e conhecimentos básicos, seguida de um primeiro exercício prático utilizando carimbos de borracha escolar. Nos dias 19 e 26 de setembro, as participantes avançam para a produção das matrizes, trabalhando inicialmente com MDF e, posteriormente, com MDF e neolite. A etapa também inclui impressões de teste e experimentações com diferentes materiais.
A etapa de produção será concluída no dia 3 de outubro, com a finalização das matrizes e a impressão das obras que integrarão a mostra. O projeto encerra sua programação no dia 10 de outubro, com uma roda de conversa e a abertura da exposição, que reunirá as produções desenvolvidas ao longo das oficinas. A mostra ficará em cartaz no Galpão de Oficinas do Acervo da Laje até o dia 10 de novembro, permitindo que o público conheça os trabalhos produzidos durante o Xiló-Lab 2026.
Coletiva Xiló
Criada em 2024, a Coletiva Xiló é formada por seis mulheres: Cris Yoshida, Julia Comarella, Gal Meirelles, Layla Matos, Lilian Navarro e Natacha Canesso. O coletivo tem como uma de suas principais propostas ampliar o acesso à xilogravura e fortalecer a presença de mulheres e pessoas dissidentes de gênero na produção e na história da gravura. Em 2026, a Coletiva realiza a segunda edição do Xiló-Lab, dando continuidade à proposta de utilizar a formação e a criação artística como ferramentas de expressão, construção de memória e ocupação de espaços.
Nesta edição, o projeto aproxima a xilogravura de diferentes experiências, territórios e trajetórias, articulando formação técnica, criação e troca de experiências. Ao longo do processo, mãos, memórias e vivências se transformam em matrizes e impressões, criando possibilidades para que histórias individuais e coletivas sejam registradas e compartilhadas. A proposta é estimular, por meio do fazer artístico, reflexões sobre gênero, identidade, ancestralidade e as diferentes formas de construir e ocupar o futuro.
Para a Coletiva Xiló, a escolha do Acervo da Laje também amplia o alcance territorial da iniciativa. “O Acervo da Laje, no Subúrbio Ferroviário, é um símbolo de resistência e força comunitária. Ele prova diariamente que arte de alta qualidade nasce e vive nas periferias da nossa cidade, e não só nos museus do centro”, destaca Cris Yoshida.
Depois de realizar a primeira edição do laboratório de xilogravura no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) em 2025, a Coletiva Xiló considera a chegada ao Acervo da Laje um passo importante para levar a técnica para além do centro da cidade. “Somos grandes admiradoras do trabalho que Vilma Santos e José Eduardo estão realizando em São João do Cabrito e estamos profundamente gratas por essa parceria”, afirma a coordenadora pedagógica.
O Xiló-Lab no Acervo da Laje é um projeto contemplado pelos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e conta com apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado, via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura e Governo Federal.
As inscrições para o Xiló-Lab 2026 já foram encerradas e as participantes foram selecionadas. Para acompanhar as próximas oficinas, atividades e ações da Coletiva Xiló, o público pode seguir o Instagram @coletivo_xilo.
Serviço
Xiló-Lab no Acervo da Laje | 2026
Realização: Coletiva Xiló
Local: Acervo da Laje, São João do Cabrito, Salvador (BA)
Oficinas: 5, 12, 19 e 26 de setembro e 3 de outubro
Abertura da mostra: 10 de outubro
Exposição: 10 de outubro a 10 de novembro
Público: 25 mulheres e pessoas dissidentes de gênero, maiores de 18 anos
Inscrições: Encerradas. Participantes selecionadas.
Instagram: @coletivo_xilo
Contato
E-mail: co**********@***il.com
Telefone: 71 98363-9015
Por Alexa Santa Rosa
Foto: Divulgação
