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Uma trilha de resistência e resiliência – Ainda Estou Aqui. Por Renato Queiróz

6 - 8 minutos de leituraModo Leitura

Desde o início do cinema, a música tem sido crucial para criar atmosfera e emoção, definindo emoções e ritmos dos filmes. Mesmo no movimento Dogma 95, iniciado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg na Dinamarca em 1995, onde a música era usada de forma restrita e diretamente na cena, como em uma rádio ou personagem tocando música, a música no cinema moderno define o tom, intensifica emoções, conecta o público aos personagens e permeia a história.

Senta que lá vem História!

“Ainda Estou Aqui” (2024) é uma obra cinematográfica de grande importância pelo seu conteúdo histórico. Dirigido por Walter Salles, o filme é um drama biográfico baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, retratando a trajetória de Eunice Paiva, sua mãe, durante a Ditadura Militar no Brasil. Estrelado por Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro, e um grande elenco, aborda temas de resistência, resiliência, companheirismo e transformação pessoal.

A pré-estreia de “Ainda Estou Aqui” ocorreu em Salvador, no dia 19 de setembro de 2024, no Cine Glauber Rocha, com duas sessões diárias até o dia 25, todas lotadas, prenunciando o sucesso do filme. Após o lançamento nos cinemas brasileiros, em 7 de novembro, o filme enfrentou muita propaganda de boicote da direita brasileira, defensora da ditadura militar, entretanto tornou-se um sucesso de bilheteria.

A repercussão internacional foi igualmente impressionante, com estreias em países como França, Portugal, Itália e EUA, além de estreias previstas na Inglaterra, na Espanha e na Alemanha.

“Ainda Estou Aqui” se tornou um sucesso global, acumulando indicações e prêmios nos mais importantes festivais de cinema, destacando-se pela narrativa poderosa e produção primorosa, consolidando-se como uma joia do nosso cinema.

No início da década de 1970, sob a Ditadura Militar cada vez mais escancarada, a família Paiva, no Rio de Janeiro, levava uma vida sociável, marcada por encontros à beira da praia em uma casa de portas abertas para os amigos, com música constante, cultivando alegria sempre que possível, apesar dos tempos difíceis.

A vida deles muda drasticamente quando Rubens Paiva é intimado em casa por militares e desaparece após as torturas nos cárceres da ditadura. Eunice Paiva, também presa, dias depois de um depoimento, retorna para casa com o coração partido e inicia uma longa busca pela verdade sobre o destino do marido, transformando o futuro da família.

“Ainda Estou Aqui” reflete a perseverança e a presença contínua de Eunice, narrando sua resiliência e resistência incansáveis. E as canções, contidas e incontidas, reverberam além da tela, trilhando e encaminhando a trama.

Em “Ainda Estou Aqui”, a atuação autêntica dá vida aos personagens, enquanto a direção competente transforma o roteiro em uma obra visual.

A cinematografia usa a câmera de forma criativa para capturar momentos e lugares em cenas impactantes, e a edição monta o filme de maneira coesa e ritmada, mantendo o interesse do espectador. O design de produção, com cenários, figurinos e adereços, constrói um mundo convincente.

E a trilha sonora? A trilha desempenha um papel fundamental, estruturando o filme tanto na perspectiva utilitária quanto subjetiva, revelando camadas mais profundas da história contada para cada um que assiste ao filme, envolvendo o espectador e transportando-o para cada momento retratado.

As canções, como leais companheiras, convidam o espectador a embarcar em uma viagem sensorial tocante.

Com músicas icônicas brasileiras e canções de artistas estrangeiros, o filme ganha genuinidade e intensidade emocional. Essas músicas resgatam memórias, constroem vivências e tocam de forma visceral, mesmo para aqueles que não as conhecem.

Entre as gemas da trilha sonora, aqui estão uns breves takes de algumas canções: Em 1971, Tim Maia gravou “A Festa do Santo Reis” (Márcio Leonardo), uma celebração do Dia de Reis no Brasil. A canção destaca a alegria dessa data e reflete a habilidade de Tim Maia em criar músicas atemporais. Sucesso estrondoso de Tim na época.

No mesmo ano, “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” (Roberto Carlos, Erasmo Carlos) foi lançada no transformador e icônico álbum do Tremendão: ‘Carlos, Erasmo’, com outras canções magníficas, a canção foi simbolizando a resistência durante a ditadura militar e voltou às paradas de sucesso, em todas as plataformas, com o filme.

Outra pérola é “As Curvas da Estrada de Santos” (1969), uma balada melancólica da dupla, Roberto e Erasmo, utilizando a estrada como metáfora para os desafios da vida. Sucesso e versão em todo mundo até hoje.

Como Dois e Dois” é uma canção composta por Caetano Veloso durante seu exílio em Londres em 1969, e lançada em 1971. Roberto Carlos gravou a canção e a incluiu em seu álbum de 1971. Essa colaboração se fortaleceu durante uma visita de Roberto a Caetano em Londres. “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, também lançada em 1971 por Roberto Carlos, foi escrita com Erasmo em homenagem a Caetano, expressando saudade e esperança de seu retorno ao Brasil.

E uma das canções que mais gosto em todas as suas versões, principalmente com Gal. “Baby” (Caetano Veloso), a do filme é a do álbum de estreia dos Mutantes em 1968, tornou-se um hino da juventude, gravada também por Gal Costa no marcante álbum Tropicália (1968).

“Acauã” (Zé Dantas) – Gal Costa, álbum: Gal Costa ao Vivo (1975), evoca a paisagem e a cultura nordestina do Brasil. Zé Dantas, compositor prolífico, colaborou em muitas parcerias com Luiz Gonzaga, compondo diversas canções que retratam a dualidade do sertão. “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira) – Gal Costa, álbum: Gal A Todo Vapor (1971), celebra a autenticidade da vida e, Gal, a cantora.

“Jimmy, Renda-se” (Tom Zé) –
Tom Zé, álbum: Se o Caso é Chorar (1970), é uma crítica satírica ao regime militar, uma colagem de palavras e sons que se tornou um símbolo de resistência cultural.

“Take Me Back To Piauí” (Juca Chaves) – Juca Chaves, álbum: Single (1970), celebra a cultura do Piauí e critica a situação política brasileira com humor e sátira.

“Agoniza, Mas Não Morre” (Nelson Sargento) – Nelson Sargento, álbum: Encanto da Paisagem (1978), celebra a resiliência do samba. Nelson Sargento, figura central na história do samba, foi presidente de honra da Mangueira e compôs mais de 400 canções, além de atuar, pesquisar e escrever sobre música popular brasileira. A versão de Beth Carvalho, a “Madrinha do Samba”, é uma das mais aclamadas.

“Fora de Ordem” (Caetano Veloso) – Caetano Veloso, álbum: Circuladô (1991), aborda problemas do Brasil e do mundo, refletindo desafios contínuos, sendo uma das obras mais importantes de Veloso, com uma versão ao vivo icônica em Circuladô Vivo (1992).

“Um Índio” de Caetano Veloso, lançada em 1977 no álbum “Bicho”, celebra a identidade e resistência indígena. A letra descreve um transcendental índio que desce de uma estrela, trazendo sabedoria e tecnologia superiores, desafiando estereótipos. A canção propõe uma reflexão sobre identidade, história e respeito à diversidade e aos direitos humanos.

No cardápio das músicas internacionais, ainda temos: “The Fight” (Johann Johannsson) do álbum Orphée (2016), uma peça instrumental dramática; “The Ghetto” (Donny Hathaway e Leroy Hutson) do álbum Everything Is Everything (1970), uma crítica às condições de vida nas áreas urbanas afro-americanas; “Je t’aime moi non plus” (Serge Gainsbourg e Jane Birkin) do álbum Jane Birkin/Serge Gainsbourg (1969), uma canção francesa sensual e controversa que foi um escândalo na época; “Petit Pays” (Cesária Évora e Teófilo Chantre) do álbum Cesária (1995), que reflete sobre saudade e identidade cultural.

“Alexander”, uma música instrumental de 1970 composta por Philip May, Alan Walker, Richard Taylor Clifford e John Povey. Essa peça toa como pano de fundo para momentos de introspecção enriquecendo a experiência cinematográfica e destacando a universalidade da luta por justiça e verdade.

O filme “Ainda Estou Aqui” nos mergulha nas entranhas da resistência e resiliência vivenciada num dos períodos mais dolorosos da história brasileira, evidenciando a luta contra a opressão e a busca pela verdade e justiça.

Cada canção da trilha sonora é um pulsar que guia essa trama, tecendo uma rica tapeçaria de história.

As músicas são um tributo à arte, à coragem humana, à força indomável do espírito, à liberdade e aos corações que mantêm viva a memória e a esperança.

Apesar da oficial ainda não estar disponível, aqui está a trilha sonora do filme. Ouça sem moderação.

“Ainda Estou Aqui” é um dos mais aclamados do cinema nacional. O longa, foi indicado ao Oscar 2025 nas categorias de melhor filme, melhor filme internacional e melhor atriz.

O filme é magnífico e a trilha é só SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música,.

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