Sonzaço! Exaltação a Tiradentes. Por Renato Queiróz
Joaquim José da Silva Xavier não nasceu herói. Nasceu gente. Gente que encarou o sistema. Pagou o preço. Virou herói.
Sabe por quê? Herói de verdade não nasce de decreto. Nasce de luta. De memória que não se apaga.
Senta que lá vem História!
ATO 1: O alferes que tirava dente
Ele nasceu na Fazenda do Pombal, Minas Gerais. Batizado em 12 de novembro de 1746. Morreu no Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792.
Entre um ponto e outro? Ele fez chover história.
Tiradentes participou da Conjuração Mineira. Todo mundo chama de Inconfidência Mineira.
O movimento queria arrancar Minas Gerais das mãos de Portugal.
Ele era alferes da cavalaria imperial. E saía por aí, de vila em vila, articulando o negócio.
Família humilde. Trabalhou de tudo. Um dos empregos: dentista amador. Por isso o apelido.
Trabalhou na mineração também. Mas foi como alferes que conseguiu alguma estabilidade.
Não tinha muita instrução, não. Mas era republicano de verdade. E abraçava o Iluminismo com força.
ATO 2: A conjuração e a traição
O movimento foi organizado em 1788.
Nasceu de duas coisas. Primeiro: as ideias iluministas que chegavam da Europa.
Segundo: a revolta das elites de Minas com os impostos de Portugal.
O ouro caiu. Mas os impostos continuaram altos.
Portugal não aliviou.
Resultado?
Todo mundo devendo.
Só que o movimento nunca saiu do papel. Por quê?
Traição. Joaquim Silvério dos Reis dedurou todo mundo. Ele queria se livrar das próprias dívidas com a Coroa.
Vendeu o movimento por dinheiro. É isso mesmo.
ATO 3: A sentença e o martírio
A sentença veio em 1792.
Dez pessoas condenadas à morte por enforcamento.
Mas a Rainha D. Maria I deu um perdão.
Nove foram poupados. Pegaram degredo – expulsos do Brasil.
Tiradentes foi o único condenado a ser enforcado – pena máxima da Coroa – em 21 de abril de 1792.
O local da execução de Tiradentes foi o Largo da Lampadosa, no centro do Rio de Janeiro.
Depois, o tempo fez sua parte. Tiradentes virou herói nacional. E o dia da morte virou feriado.
ATO 4: O samba que não morreu
A psicóloga francesa Monique Augras fez uma pesquisa.
No livro “O Brasil do Samba-Enredo”, ela conta:
“Tiradentes foi o personagem mais citado em sambas-enredo entre 1948 e 1975.”
Mas só uma vez ele teve um samba só pra ele. Foi em 1949.
No bicampeonato do Império Serrano.
O samba: “Exaltação a Tiradentes”. Autores: Mano Décio da Viola, Penteado e Estanislau Silva.
A letra diz assim:
“Joaquim José da Silva Xavier, morreu a 21 de abril, pela independência do Brasil, foi traído e não traiu jamais, a inconfidência de Minas Gerais.”
Mano Décio já era fã do alferes. No ano anterior, ele e Silas de Oliveira fizeram três sambas sobre Tiradentes.
A escola preferiu outro tema.
O tema escolhido pelo Império Serrano em 1948 foi uma homenagem a Antônio Castro Alves, composta por Altamiro Maio, o Comprido. A escola sagrou-se campeã com esse samba-enredo.
Mas em 49, Exaltação a Tiradentes apareceu num ensaio e arrebatou todo mundo.
Estanislau entrou na parceria porque ouviu o samba, foi a Madureira e pediu pra divulgar no asfalto.
Foi o primeiro samba-enredo que sobreviveu ao desfile.
E o samba voltou com tudo em 1955.
Roberto Silva gravou. O nome: só “Tiradentes”.
“Exaltação a Tiradentes” foi tão grande que Elis Regina gravou. Cauby Peixoto. Chico Buarque. Jorge Goulart. Roberto Ribeiro. Foi o primeiro samba-enredo a virar sucesso popular.
ATO 5: O enforcado que virou samba
Tiradentes foi enforcado. Esquartejado. Espalharam os pedaços dele pelas estradas. A Coroa queria apagar o nome dele.
Mas tem coisa que a forca não resolve.
Ideia não se pendura, não se esquarteja.
O povo fez dele herói.
Não foi decreto.
E virou samba.
Quando o Império Serrano desfilou em 1949, aquilo não era um enredo. Era um grito entalado na garganta do Brasil.
Roberto Silva gravou.
Roberto Silva nasceu em (09/04/1920, Rio de Janeiro) e faleceu em (09/09/2012, Rio de Janeiro).
Roberto Silva, conhecido como “O Príncipe do Samba”, foi um dos grandes intérpretes da música popular brasileira, com carreira marcada por clássicos como Exaltação a Tiradentes.
Essa gravação é considerada a mais emblemática da obra, que segue lembrada como um marco da cultura nacional.
Elis cantou.
Chico também.
A voz do povo – aquela que não aparece em ata de julgamento – fez o que a Rainha não fez.
Deu a Tiradentes o perdão que ele nem precisava.
Porque ele não queria perdão.
Ele queria justiça.
A justiça demora dois séculos. Mas chega. E chega num samba-enredo.
Tiradentes morreu em 1792. Mas acordou pra sempre na Avenida.
Aqui: Exaltação a Tiradentes · Roberto Ribeiro
Escolas de Samba – Enredos – Império Serrano
℗ 1993 Sony Music Entertainment (Brasil) I.C.L.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música
