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Sonzaço! Angine de Poitrine: o duo e o microtonal. Por Renato Queiróz

3 minutos de leituraModo Leitura

Se você ainda não ouviu falar do Angine de Poitrine, prepare-se para uma experiência que desafia rótulos.

O duo formado por Khn (guitarras microtonais e baixo) e Klek de Poitrine (bateria) não demorou a viralizar — e com razão.

Senta que lá vem História!

O que se sabe é que o Angine de Poitrine foi criado em 2019, e não em 2024 como frequentemente se divulga. A cidade de Saguenay, no Quebec (Canadá), é o berço do duo e também do seu característico anonimato.

Lá, dois amigos de infância, que tocam juntos desde os 13 anos, começaram a usar máscaras gigantes e pseudônimos inicialmente como uma brincadeira para contornar regras de casas de shows, mas logo transformaram essa estratégia em uma marca artística definitiva, fundindo música e performance teatral.

O primeiro lançamento oficial ocorreu em 2024, mas a identidade da banda já vinha sendo construída desde 2019.

O som é uma colisão calculada entre math rock, jazz e progressivo, com estruturas assimétricas e dissonâncias que poderiam soar caóticas, mas aqui ganham precisão cirúrgica.

E a cereja do bolo é o visual: máscaras gigantes de papel machê, roupas de bolinhas e um ar dadaísta que transforma cada apresentação em performance teatral. E o anonimato!

O segredo da colisão calculada está na bateria precisa e nas guitarras modificadas para microtonalidade, que criam intervalos estranhamente familiares.

No caso específico do duo Angine de Poitrine, o guitarrista Khn de Poitrine utiliza guitarras modificadas para 24 quartos de tom por oitava.

As chamadas guitarras com 24 notas, também conhecidas como guitarras microtonais de quarto de tom, representam uma expansão do sistema musical ocidental tradicional.

Enquanto uma guitarra comum de seis cordas divide cada oitava em doze semitons – o que se denomina temperamento igual de doze notas –, a guitarra de 24 notas subdivide cada semitom em dois quartos de tom, totalizando 24 intervalos iguais por oitava.

Essa modificação permite, por assim dizer, acessar notas que não existem no instrumento convencional.

Essa escolha permite a execução de riffs que nunca se repetem exatamente iguais, harmonias que parecem “escorregar” entre as notas esperadas e um contraste marcante com a bateria de Klek de Poitrine, que mantém a precisão rítmica típica do math rock enquanto a guitarra flutua em microtons.

Mais além, o som estranho e imprevisível da música do Angine de Poitrine não vem apenas da microtonalidade, mas principalmente da manipulação rítmica: compassos irregulares como 5/4 e 7/8, subdivisões incomuns e métricas mistas quebram a expectativa do ouvinte, criando a sensação de “não encaixe” e desestabilizando o cérebro, que naturalmente busca padrões estáveis.

É justamente esse casamento entre a assimétrica precisão rítmica e instabilidade microtonal que explica o fascínio de músicos consagrados.

Não é à toa que nomes como Dave Grohl, Mike Portnoy e Rick Beato já declararam fãs.

Com milhões de visualizações no YouTube e KEXP, a dupla lançou seu segundo álbum em 2026, Vol. II, confirmando que não é moda passageira.

Angine de Poitrine é, acima de tudo, um espetáculo para os olhos e os ouvidos — daqueles que dividem opiniões, mas não deixa ninguém indiferente.

Aqui: Angine de Poitrine ao vivo no ESMA em Rennes, França, durante o Trans Musicales 2025. Gravado em 04 de dezembro de 2025.

SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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7 comentários

  • Mariana Barbosa Pires disse:

    Eu volto sempre aqui pra reler e tentar entender como essa coluna virou panfleto norte americano, nesse texto. O fato de alguém prender/manipular/conter microtons que são fisicamente livres em acordes iguais a quaisquer outros que já ouvi pelos lados do norte, não significa ser fascinante. Se isso exerce fascínio é porque cumpriu seu papel de marketing atrelado ao mito dos adolescentes em garagens (já deu até microsoft nessa safadeza), além de roupas e performances, que sinceramente, encontramos nas ruas de Salvador em qualquer esquina porque sabemos o que é ser original sem contratar uma agência de propaganda pra isso, ou uma equipe universitária de agremiação com letras gregas. Eu adoro essa coluna, indico a todo mundo, mas esse texto continuarei tentando entender pelos próximos anos.

  • Mariana Barbosa Pires disse:

    E o único berço que o Canadá se tornou no século 21 foi de um país que aplaude e bate continência para o nazismo.

    • Renato Queiroz disse:

      Não sou especialista em geopolítica, apenas um curioso. Dito isso: o Canadá aplaudiu um ex-nazista no Parlamento. Não foi um erro isolado — revelou complacência histórica com o extremismo por interesses geopolíticos.

      Mas houve reações. Nas eleições de abril de 2025, os canadenses responderam nas urnas. De forma surpreendente, o Partido Liberal venceu, e partidos que flertavam com extremismos foram penalizados. Um dos fatores decisivos para a virada foi o contexto externo: as ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, à soberania e à economia canadense geraram uma onda de patriotismo que beneficiou os Liberais.

      A extrema direita é um fenômeno global — cresceu nos EUA, na Europa e com força na América Latina e no Brasil, onde tem raízes profundas: do integralismo ao bolsonarismo. O exemplo canadense mostra que a democracia pode reagir. E aqui também há sinais, como a condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe contra a democracia. O caminho é nos empenharmos na vigilância, no ativismo e no fortalecimento institucional. A luta continua.

      • Mariana Barbosa Pires disse:

        Obrigada por compartilhar comigo, mesmo eu vindo bem rebelde aqui e rebeldia é um traço do sistema. Obrigada! E eu adoro mesmo a coluna! Aprendo demais! Também sou uma curiosa! Eu sou o que chamam de radicalismo, mas não sei se tem nome ainda pro que eu possa ser. Peço pela extinção do homo sapiens e por mim a democracia continua sua travessia para um fim, que não sei se como um filme estilo O Agente Secreto ou um fim como A Vida é Bela. A extrema direita pra mim é só um espelho que ninguém quer olhar, mas estamos todos refletidos lá. Eu entendo que rebeldia aliada a confronto é a base da arte ocidental, mas não admito que vire panfleto na minha cara. Depois de ler sua coluna a quantidade de textos semelhantes , falando sobre esses “gênios” que pipocaram na tela do celular que utilizo, me deixou achando que podia não ser só sobre música, podia ser algo que une um bbb ou o remake de vale tudo que nunca acabou, por isso, com todo respeito, ter chamado o texto de panfletário. E olha só que maravilhoso, eu não sabia que a música turca, árabe e indiana atingiam microtons e agora tudo fez sentido, inclusive quando Shakira resolve em seu primeiro lançamento internacional (diga-se lançamento nos Estados unidos) gravar uma música de acordes árabes, cantada em espanhol, dançando a dança do ventre (Ojos Asi), ao invés de gravar um disco em inglês pro mercado e com aquelas guitarras que sabe-se lá de onde saíram tenebrosas do pop anos 90/2000 (que ouvi e dancei muito, confesso). E você falando sobre essa geopolítica de Quebec me lembrou um querido que conheci em Cuba numa mesa sobre democracia onde estavam um democrata estadunidense, um político ucraniano e uma pesquisadora russa. Lembro do querido canadense em pé naquela sala, apontando o dedo em riste e falando um inglês divertido sobre o golpe no Brasil e que os estadunidenses não podiam falar em democracia pelo seu papel vergonhoso nisso. Essa lembrança me fez perceber o que disse sobre a resistência. Vou ouvir mais do som, mas até lá ainda não acho sonzaço, de resto por aqui concordo com você, só tem sonzaço. Adoro suas pesquisas.

        • Renato Queiroz disse:

          Mariana, você me ensinou coisas nessa troca, e isso não tem preço.

          Agradeço por você ter vindo “rebelde” — rebeldia bem-vinda, ainda mais quando vem junto com a generosidade de quem lê, relê. Isso é raro e precioso.

          Vou levar comigo a imagem de você, curiosa e radical, enquanto a democracia faz sua travessia incerta.

          Que bom que agora os microtons turcos, árabes e indianos fizeram sentido. E obrigado por me lembrar o elo que eu mesmo não tinha feito: Shakira, os acordes árabes, Ojos Así e o pop tenebroso dos anos 90/2000 que também dancei rsrs. Você conectou os pontos por mim.

          A gente segue conversando. Adorei nossa conversa. E ela não acabou.

          Um forte abraço. A luta (e a curiosidade) continua.

          • Mariana Barbosa Pires disse:

            Um forte abraço e a luta continua. E ela também pode ser bela. Tô aqui no Rio de Janeiro esperando Shakira cantar com Maria Bethânia. Te conto tudo depois! Risos.

  • Renato Queiroz disse:

    Mariana, antes de tudo, obrigado por acompanhar a coluna e por trazer reflexões tão sinceras — fico feliz que você indique a todo mundo, de verdade.

    Sobre o seu ponto: você tem toda razão sobre as ruas de Salvador. A originalidade não precisa de máscara nem de marketing. Mas permita-me um contraponto: Quebec não é cultura anglo-saxônica. É uma “ilha” francófona na América do Norte, historicamente submetida e resistente ao domínio inglês.

    Quando dois quebecenses usam microtons que vêm da música turca, árabe e indiana, eles não estão fazendo “propaganda norte-americana” — estão, à sua maneira, furando a bolsa do temperamento igual de doze notas que o Ocidente anglo-saxônico universalizou.

    É menos panfleto e mais travessura.

    Ah, sim, Salvador e Saguenay podem estranhar e se reconhecer. Saravá! Axé!

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