Aldeia Nagô
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A música brasileira na era pornográfica. Por Jorge Papapá

2 - 3 minutos de leituraModo Leitura

A música brasileira entrou na era pornográfica.

Não pelo corpo — que sempre foi território legítimo da arte —, mas pela alma exposta sem mistério, sem metáfora, sem pudor poético. É pornografia porque tudo é explícito demais e, paradoxalmente, vazio. Não há insinuação, não há silêncio, não há entrelinha. Só a repetição mecânica do óbvio, do fácil, do vendável.

Antes, uma canção sugeria. Hoje, escancara.

Antes, o desejo vinha vestido de imagens: um olhar na esquina, um beijo roubado, um quarto em penumbra. Hoje, a palavra chega nua, sem encanto, sem invenção, sem risco. O erotismo virou planilha, algoritmo, fórmula. Não é mais arrepio — é instrução.

E a imprensa?

A imprensa se cala. Ou pior: aplaude.

Transformou a falta de poesia em “linguagem direta”, o empobrecimento em “representatividade”, a preguiça criativa em “expressão popular”. Confunde mercado com cultura, número com relevância, sucesso com valor artístico. Bate palmas para o vazio porque o vazio dá clique, dá audiência, dá patrocínio.

Não se trata de moralismo.

A música brasileira sempre foi sensual, carnal, provocadora. Sempre falou de sexo, de prazer, de pecado e de delícia. Mas falava com imaginação. Com palavra inventada. Com música que abraçava o verso. Havia malícia, não brutalidade. Havia malemolência, não agressão sonora. Havia poesia — essa palavra que hoje parece constranger.

O problema não é o corpo.

É a ausência de pensamento.

É a desistência da linguagem.

É a redução da canção a um produto descartável, feito para durar o tempo de um story, de um refrão chiclete, de uma coreografia repetida até a exaustão.

A MPB — essa sigla tão maltratada — não morreu.

Ela foi empurrada para um canto, enquanto o palco principal virou vitrine de carne sem imaginação e de música sem risco. O novo não é problema. O problema é quando o novo nasce velho, sem curiosidade, sem conflito, sem ruptura.

O artista, quando abdica da poesia, abdica também do seu papel histórico. Deixa de ser espelho crítico e vira apenas reflexo do mercado. A música deixa de provocar perguntas e passa apenas a confirmar instintos. Não eleva, não incomoda, não transforma. Só consome.

E talvez o mais triste seja isso:

não é falta de talento.

É escolha.

Escolheu-se o caminho curto.

Escolheu-se agradar.

Escolheu-se repetir.

E a imprensa, cúmplice, legitima.

Enquanto isso, a poesia segue marginal, sobrevivendo em vozes que não tocam nas rádios, que não entram nas playlists patrocinadas, que não rendem manchetes. Ela resiste, como sempre resistiu. Porque poesia não grita — ela insiste.

A era pornográfica da música brasileira não é sobre sexo.

É sobre a nudez da ideia.

E ideia nua, sem alma, não excita.

Cansa.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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