Aldeia Nagô
Facebook Facebook Instagram WhatsApp

Sabores e memórias. Por Jorge Papapá

6 - 8 minutos de leituraModo Leitura

A melhor maneira de conhecer o mundo, para mim, sempre foi pelo paladar. Há algo de profundamente humano em sentar-se à mesa e permitir que um lugar conte sua história através de seus sabores. Cada prato é quase como uma memória servida em silêncio.

Minas Gerais, por exemplo, tem o poder de abraçar a gente pelo estômago. A culinária mineira tem aquele jeito simples e ao mesmo tempo grandioso, como se cada receita carregasse a sabedoria de gerações. O fogão de lenha estalando, a panela de ferro liberando aromas que parecem atravessar o tempo… é impossível não se encantar. Há um calor ali que não vem só do fogo, mas da alma de quem cozinha.

Lembro-me de uma viagem pela Estrada Real. Foi daquelas jornadas que ficam guardadas dentro da gente como um pequeno tesouro. Passei por cidades que pareciam saídas de um livro antigo, com ruas de pedra e histórias em cada esquina. São João Del Rei teve um encanto especial — talvez pelo ritmo tranquilo, talvez pelas igrejas que parecem observar o tempo passar com serenidade.

Mas houve um lugar que me surpreendeu de verdade: Lavras Novas. Pequena, silenciosa, quase escondida entre as montanhas. Ali o tempo parece caminhar mais devagar, como se a pressa não fosse bem-vinda. Comer naquele lugar era mais do que se alimentar; era participar de um ritual simples e bonito, onde cada prato parecia conversar com a paisagem.

E quando o assunto é sabor intenso, meu coração também se rende à Bahia. A culinária baiana é uma festa de aromas, cores e temperos. Cada prato traz uma personalidade própria, uma mistura de história, cultura e alegria. É impossível provar e não sentir a força do lugar.

Talvez por isso eu goste tanto de cozinhar. Às vezes entro na cozinha como quem entra em um pequeno laboratório de sonhos. Misturo ingredientes, invento caminhos, sigo mais a intuição do que qualquer receita. E, de vez em quando, acontece algo mágico: surge um prato inesperado, surpreendente, que me faz sorrir sozinho.

Mas foi em Itapoã, na minha linda Salvador, que a cozinha virou também ponto de encontro, palco improvisado de amizades, histórias e música. Eu morava numa casa perto do mar, e parecia que o cheiro da comida se misturava com a brisa salgada que vinha da praia. O portão quase nunca ficava fechado. Sempre havia alguém chegando — amigo, músico, artista, vizinho — atraído não sei se pela conversa, pelo mar ou pelo que estava borbulhando nas panelas.

A moqueca era uma das estrelas da casa. Eu fazia com peixe fresco, leite de coco generoso, azeite de dendê brilhando como ouro líquido e aquele perfume de coentro que invadia a casa inteira. Quando a panela começava a ferver devagar, parecia que o tempo também diminuía o passo. E não demorava para a mesa ficar cheia de gente.

A feijoada também tinha fama. Era dessas feitas com paciência, deixando os sabores conversarem durante horas. O feijão preto engrossando devagar, as carnes soltando seus segredos, o alho e a cebola formando aquele aroma que atravessa paredes e chama quem estiver por perto.

Um dos que mais gostavam dessa feijoada era o saudoso Luiz Melodia. Sempre que chegava a Salvador dava um jeito de aparecer lá em casa. Ele dizia que precisava matar a saudade da feijoada antes de qualquer outra coisa. Sentava-se à mesa com aquele sorriso tranquilo, comia devagar, saboreando como quem escuta uma boa canção.

Depois se largava no sofá verde claro da varanda. O vento do mar balançando devagar. E ali ele ficava, entre um cochilo e outro, enquanto a tarde ia escorrendo preguiçosa.

A moqueca também conquistou outros amigos queridos. Eduardo Araújo e Silvinha sempre elogiavam quando a panela chegava fumegante à mesa. Era bonito ver como a comida virava conversa, riso e música. Entre uma garfada e outra surgiam histórias de estrada, de palco, de vida.

E teve um episódio curioso com Chico César.

Na primeira vez que ele apareceu lá em casa, eu tinha preparado uma grande feijoada. Dessas que ocupam a casa inteira com o cheiro. Tudo pronto, mesa posta, panela fumegando… quando ele chega e, meio sem jeito, diz:

— Rapaz… eu não como carne.

Foi um pequeno terremoto culinário.

Mas cozinha também é improviso, quase como jazz. Abrimos a geladeira, cortamos legumes, folhas, inventamos temperos e fizemos uma salada bonita, colorida, cheia de vida. Ele comeu feliz, a conversa seguiu solta, e a noite foi boa do mesmo jeito.

Só que o destino gosta de brincar.

Na segunda vez que ele apareceu, resolvi me precaver. Preparei uma grande salada — dessas caprichadas, cheia de ingredientes — pensando: agora sim, estou prevenido.

Mal ele senta e pergunta, com naturalidade:

— E a feijoada?

Eu ri, achando que era brincadeira.

Mas ele explicou, com a maior simplicidade do mundo, que tinha voltado a comer carne.

E como lá em casa quase sempre havia uma feijoada guardada ou começando a ser feita, bastou aquecer a panela. Chico César se serviu com gosto, repetiu o prato, riu, conversou… e depois acabou fazendo o que quase todo mundo fazia ali em algum momento: foi deitar no sofá da varanda.

Ali ficou, espreguiçando devagar, embalado pelo vento de Itapoan, pela barriga satisfeita e pela paz daquela casa onde comida, amizade e música pareciam sempre sentar juntas à mesma mesa.

E quando chegava meu aniversário, então, a casa virava quase um pequeno festival.

Eram festas longas, dessas que começam de tarde e atravessam a noite sem pedir licença. A cozinha virava quartel-general. Panelas grandes no fogo, travessas se multiplicando pela mesa, gente entrando e saindo com pratos na mão, alguém sempre mexendo alguma coisa no fogão.

Tinha feijoada, moqueca, petiscos inventados na hora, bebidas espalhadas, risadas que ecoavam pela varanda. A música nunca faltava. Sempre havia um violão surgindo de algum canto, um pandeiro aparecendo de repente, alguém puxando uma canção.

E os amigos vinham.

Músicos, artistas, poetas, gente do teatro, gente da rua, gente da vida. Pessoas de todas as áreas, de todos os caminhos, apareciam para dar um abraço, comer um prato de comida e ficar um pouco naquela roda de conversa.

E como a gente conversava…

Conversas que atravessavam a madrugada. Histórias de estrada, ideias malucas, sonhos grandes, risadas inesperadas. Aquela arte antiga de confabular sobre a vida, sobre o mundo, sobre o que ainda estava por vir.

Era uma época boa de viver. Dessas que quando a gente lembra, o coração dá um sorriso quieto.

Hoje moro em Brasília.

A vida aqui tem outro ritmo, outro silêncio, outras paisagens. Às vezes, numa tarde mais quieta, sinto falta daquela casa cheia. Falta do barulho das panelas, da música surgindo sem aviso, dos amigos espalhados pela sala, pela varanda, pela cozinha.

Falta, principalmente, daquela mesa grande onde sempre cabia mais um.

Mas as lembranças continuam acesas dentro de mim, como um fogão de lenha que nunca apaga completamente.

E quem sabe, qualquer dia desses, eu acendo outra panela grande de feijoada, abro a porta, deixo o cheiro se espalhar… e os amigos, como antes, encontrem o caminho de volta.

Outro dia a vida me deu uma dessas voltas bonitas que ela sabe dar.

Recebi um convite de Chico César para ir à casa dele aqui em Brasília. Era aniversário dele. Um encontro pequeno, íntimo, só alguns amigos mais próximos. Nada de multidão, nada de festa barulhenta — apenas aquelas reuniões que parecem feitas de afeto e memória.

Aceitei na hora.

Quando cheguei, senti algo familiar no ar. Não era o cheiro de feijoada desta vez, nem o dendê da moqueca, mas havia ali o mesmo espírito das antigas reuniões: gente querida, conversa boa, risadas tranquilas, música pairando no ambiente mesmo quando ninguém estava tocando.

Sentamos à mesa como velhos companheiros de estrada. E enquanto a noite avançava devagar, percebi uma coisa bonita: de certa forma, o tempo tinha dado uma volta completa.

Anos atrás ele tinha ido à minha casa em Itapoan para comer. Agora eu estava ali, na casa dele, partilhando o pão, o vinho, a conversa.

A amizade também é isso — uma mesa que muda de lugar, mas nunca deixa de existir.

Conversamos, rimos, lembramos histórias. Em alguns momentos fiquei em silêncio só observando aquela cena simples: amigos reunidos, a noite tranquila de Brasília do lado de fora, e aquela sensação boa de pertencimento.

Saí de lá com o coração leve.

Percebi que, mesmo que as casas mudem, as cidades mudem, os anos passem… algumas mesas continuam postas dentro da gente.

E basta um convite, um encontro, uma noite de conversa, para que tudo volte a ter o mesmo sabor de antes.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

Compartilhar:

Mais lidas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *