Uma Barra Nova muito além do Ceará. Por Jorge papapá
Na vida de músico, às vezes uma viagem começa como trabalho e termina como destino.
Aquela começou em 1980, quando Zelito Miranda me convidou para uma pequena turnê pelo Nordeste. A ideia era simples: passar por algumas capitais, cantar, encontrar gente, misturar música com estrada e ver no que dava.
E fomos.
Natal foi uma dessas paradas que parecem abraçar a gente. Ficamos hospedados na casa de Fon, artista da cidade, e logo nos sentimos em casa. Fizemos duas apresentações e, numa das noites, ainda demos uma canja no show de Geraldo Azevedo no Teatro Alberto Maranhão. O teatro tinha aquela atmosfera mágica de quando a música encontra o lugar certo para existir.
Talvez por isso eu tivesse vontade de ficar mais tempo por lá.
Mas a estrada tem suas próprias decisões.
Zelito insistiu que o próximo destino era Fortaleza. Eu hesitei. Havia algo em mim dizendo para permanecer em Natal, mas artista na estrada aprende cedo que certas escolhas só revelam seu sentido muito tempo depois.
Seguimos.
E ainda bem que seguimos.
Em Fortaleza fomos parar na casa de Nonatinho, um estudante de arquitetura que parecia ter encontrado uma fórmula muito particular de prolongar a juventude: nunca terminar o curso. Sempre arranjava um jeito de continuar matriculado.
A casa dele era um retrato fiel dessa filosofia.
Tudo estava fora do lugar. Pratos desaparecidos, colheres perdidas, panelas em paradeiro desconhecido. Para preparar qualquer coisa era preciso primeiro fazer uma pequena expedição doméstica.
No centro desse universo caótico estava Nonatinho, quase sempre deitado na rede, fumando maconha com a tranquilidade de quem contempla a eternidade.
Quando saía para comprar mais, havia um ritual.
Vestia-se de caipira, ajeitava o chapéu, olhava para nós e perguntava com toda seriedade:
— Tô com cara de otário?
Era impossível saber se aquilo era estratégia ou arte.
Voltava sempre com muita maconha — tanta que depois precisava inventar formas criativas de transportar sem chamar atenção. Aquela casa era metade república estudantil, metade laboratório de improviso existencial.
E nós ali dentro… completamente sem dinheiro.
Sem dinheiro e praticamente sem comida.
A geladeira era uma paisagem deserta.
Mas então chegaram elas.
Aninha, Simone, Tânia e Regina, namorada de Zelito.
Todos os dias apareciam trazendo comida, carinho e uma alegria que salvava o ambiente. Se sobrevivemos àquela temporada em Fortaleza foi graças a essas quatro mulheres.
E Fortaleza também me deu outra riqueza: encontros.
Ali conheci artistas da terra que fervilhavam criatividade. Conheci Calé Alencar, Chico Pio, Stelio Valle, Nilton Fiore, Jorge Helder — que ainda era apenas um garoto querendo fazer música — Parahiba e Tazzo Costa, que anos depois iria passar uma temporada lá em casa, em Salvador. E muitos outros que faziam da cidade um território vivo de cultura e invenção.
Com o tempo percebi que foi fundamental eu não ter ficado em Natal. Se tivesse seguido aquele impulso inicial, talvez não tivesse vivido alguns dos momentos mais importantes da minha vida.
E um desses momentos estava esperando por nós numa praia chamada Barra Nova.
Um dia resolvemos fugir da cidade. Eu, Aninha, Zelito e Regina pegamos estrada até aquele pedaço quase esquecido do litoral cearense.
Quando chegamos parecia que o mundo ainda estava sendo inaugurado.
Não havia casas, nem bares, nem turistas. Apenas dunas imensas, vento correndo solto e o mar aberto como uma promessa.
Encontramos uma casa em ruínas e resolvemos ficar ali mesmo.
Arrumamos o que era possível, improvisamos o resto e passamos alguns dias vivendo quase fora do tempo. As noites eram silenciosas. O vento cantava nas dunas. O mar parecia respirar junto com a gente.
Era um lugar de uma beleza crua, primordial.
Tão forte que acabou virando música.
Mais tarde Zelito transformaria aquela experiência num disco chamado Barra Nova, registrando em canções aquele encontro entre estrada, mar e liberdade.
Mas o que Barra Nova deixou em mim foi ainda maior.
Quando voltamos para Fortaleza, Aninha decidiu seguir comigo para Salvador.
E assim começou uma história de vinte anos.
Daquele encontro improvável — iniciado numa casa bagunçada de estudante, alimentado pela solidariedade de quatro mulheres e atravessado pelo vento de uma praia esquecida — nasceram dois filhos: Ilarí e Arone.
Às vezes penso que o destino trabalha de maneira curiosa.
Ele nos coloca numa casa caótica, nos deixa sem dinheiro, nos empurra por estradas que a gente nem queria seguir… apenas para que duas pessoas se encontrem no lugar exato onde suas vidas vão mudar.
Zelito voltou sozinho.
Mas levou consigo a música de Barra Nova.
Eu levei algo ainda maior.
Levei a vida que começou ali, no meio das dunas, onde o vento parecia sussurrar que certas viagens não servem apenas para atravessar mapas.
Servem para atravessar o próprio destino
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

