Escândalo Master. Por Antonio Albino Canelas Rubim
Artigo publicado originalmente na Revista Teoria e Debate
O escândalo Master é um escândalo Master. Ele é sistêmico. Ele corrói e expõe, com toda brutalidade, as entranhas podres da sociedade capitalista brasileira, de suas classes dominantes e de suas capilaridades societárias.
O escândalo Master é um escândalo econômico. Ele é um dos maiores escândalos financeiros da história do Brasil. Ele mostra como o sistema financeiro, que se apresenta publicamente como tão confiável e seguro, está eivado de problemas, déficits de acompanhamento, falhas de supervisão, maracutaias e podridões. Como um rombo de dezenas de bilhões de reais, sobrecarregado de comportamentos reprováveis e remunerações visivelmente acima dos padrões usuais do mercado, pôde se desenvolver de modo exponencial, acumulando lucros astronômicos, prejudicando centenas de milhares de investidores e abalando o próprio sistema financeiro, que vai arcar com dezenas de bilhões do roubo do Banco Master. Todo o sistema financeiro, todo o mal chamado mercado, está sob enorme suspeição de acobertamento ou de cumplicidade. Mas, o escândalo não é apenas econômico-financeiro.
O escândalo Master é um escândalo institucional. Ele não afeta apenas a credibilidade e a segurança do sistema financeiro. Ele mostra, contundente, a fragilidade de organismos institucionais de acompanhamento e coloca em dúvida a tão propalada independência do Banco Central. Ele, na gestão presidencial passada, foi incapaz de detectar e frear práticas abusivas de instituições que poderiam ser evitadas, caso o Banco Central não fosse conivente com os descalabros do Banco Master. A tão propagandeada independência do Banco Central colapsou na sua notável dependência do sistema financeiro, cúmplice do escândalo. Mas, o escândalo não é apenas institucional.
O escândalo Master é um escândalo empresarial. Ele evidenciou que o meio empresarial sozinho é inapto para garantir seu funcionamento de modo transparente, eficiente e honesto. A supervisão do Estado democrático, como aconteceu agora com a atitude da nova gestão do Banco Central, é imprescindível para estancar os desvios empresariais, inclusive com a manipulação abusiva dos recursos de seus clientes. O exemplo recente e quase silenciado das Lojas Americanas emerge como emblemático nessa perspectiva. O meio empresarial, no caso do Banco Master, foi inábil de impedir seus descalabros. Empresas de diversas áreas de atuação, como comunicação, receberam patrocínios. Por meio de entidades empresariais e premiações, homenagens foram prestadas à Daniel Vorcaro como empresário exemplar e como empreendedor de destaque. Vergonha nacional. Mas o escândalo não é apenas empresarial.
O escândalo Master é um escândalo policial. Ele esgarçou como os roubos chamados de colarinho branco estão quase fora do alcance da polícia, voltada, muitas vezes, para o perigo dos “de baixo”, silenciando os crimes que acontecem no “andar de cima” da sociedade capitalista. Tais crimes trazem prejuízos de envergadura econômica bem maiores para toda a sociedade. As investigações, agora quase inevitáveis diante da dimensão master do escândalo, apesar de todas as pressões pelo seu silenciamento, apontam inclusive para práticas violentas da turma do Vorcaro. Mas o escândalo não é apenas policial.
O escândalo Master é um escândalo jurídico. Ele escancarou ligações entre Daniel Vorcaro e segmentos do Poder Judiciário, com patrocínios de eventos chamados de jurídicos mundo afora e com emaranhadas teias de interesses comuns. No caso Master as constantes ambiguidades do Poder Judiciário em relação a abertura das informações para toda sociedade são notórias, mas cabe ressaltar que setores corajosos e legalistas do Poder Judiciário estão prestando enormes serviços à democracia no Brasil, desde a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O escândalo continua com as condições jurídicas desmedidas, próprias da sociedade ultra desigual brasileira. Vorcaro terá a seu dispor um invejável agrupamento de advogados de defesa, pago a peso de ouro e, possivelmente, do nosso dinheiro surrupiado. Defesa jurídica impossível para a quase totalidade da população brasileira. Mas o escândalo não é apenas jurídico.
O escândalo Master é um escândalo político. Ele esbugalhou as conexões intensas entre Vorcaro e setores do ambiente político. As doações pessoais de seu esquema para as campanhas de Jair Messias Bolsonaro (três milhões de reais) e de Tarcísio Gomes de Freitas (dois milhões de reais) foram exorbitantes e denunciaram suas vinculações e preferências políticas. A extensa lista de parlamentares “amigos” envolve desde a elaboração de leis, ação parlamentar em benefício das falcatruas do Master e manobras para salvar o banco. Nomes como Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União Brasil) aparecem como acusados. Constam também consultorias volumosas, de três milhões e seiscentos mil reais, como aquela paga à ACM Neto (União Brasil). Mais recentemente circulam notícias de que o nome de Flávio Bolsonaro está na agenda de Vorcaro. Por certo, a lista de parlamentares envolvidos com o Banco Master e seus tentáculos é bem mais ampla, como se verá com o andamento das investigações, caso elas não sejam interrompidas. Impossível imaginar que o aumento exponencial da fortuna de Vorcaro tenha sido possível sem o apoio ativo da gestão presidencial anterior e de parlamentares da extrema direita e do centrão, que funcionam como uma espécie de bancada Master. Mas o escândalo não é apenas político.
O escândalo Master é um escândalo social. Ele atinge fortemente a sociedade, pois centenas de milhares de pessoas, que investiram no banco, foram ludibriados por seus ganhos acima do mercado e pela pretensa segurança do ambiente financeiro. Agora, elas correm o risco de enormes prejuízos. Além disso, muitas pessoas podem perder seus empregos por causa de tal circunstância. Mas o escândalo Master não é somente social.
O escândalo Master é um escândalo sexual. Ele tentava reproduzir o exemplo maior do escândalo sexual planetário de Jeffrey Epstein, que utilizava orgias como modo de seduzir autoridades e bilionários de todo mundo, visando obter vantagens em distintos âmbitos. Os eventos, conhecidos como Cine Trancoso, promovidos com dezenas de garotas de programa, reuniram integrantes do mercado, do campo político, do meio jurídico e de outros segmentos sociais, buscando ampliar o leque de relações suspeitas e tentaculares do empresário Daniel Vorcaro. Mas o escândalo Master não é somente sexual.
O escândalo Master é um escândalo internacional. Ele produz uma imagem corrosiva e negativa do Brasil mundialmente, como se as leis no Brasil valessem apenas para os “de baixo” e não para suas classes dominantes. Ele deprime a imagem do sistema econômico-financeiro brasileiro, demonstrando suas fragilidades. O escândalo não é excepcional no contexto do capitalismo neoliberal contemporâneo, eivado de casos semelhantes pelo planeta. Mas o escândalo Master não é somente internacional ou nacional.
O escândalo Master não é somente um escândalo midiático. Ele revela como a mídia esteve comprometida com elogios à atuação espetacular de Vorcaro. Empresa de comunicação, seus eventos e profissionais foram patrocinados por ele. Agora, a mídia produz uma cobertura escandalosamente enviesada do acontecimento, silenciando as articulações do Vorcaro e do Banco Master com determinados políticos, em especial bolsonaristas e do, mal chamado, Centrão. Ela esquece intencionalmente de analisar, com toda profundidade tais conexões, bastante evidentes por meio das investigações já realizadas. Ela não remexe outras conexões políticas, ainda não evidenciadas. Ao retirar de cena propositadamente tais políticos, a mídia toma partido, abandona sua pretensa neutralidade, e aponta seus holofotes para alguns membros do Judiciário e para o STF. Cabe perguntar a quem interessa desgastar o STF e preservar a extrema direita política? Mas o escândalo Master não é somente um escândalo midiático.
O escândalo Master é um escândalo cultural. Ele expõe com todo vigor a cultura patrimonialista, não republicana, das classes dominantes, que privatizam a todo instante a coisa pública, sem nenhum pudor. Tal atitude tem íntimo enlace com a cultura da impunidade, que quase sempre prevalece na sociedade e, em especial, nas suas classes dominantes. Elas utilizam de mil artifícios para não responder pelos seus abusos com a coisa pública. Mas o escândalo Master não é somente um escândalo cultural.
O escândalo Master é um escândalo ético-moral. Ele evidencia a corrosão ético-moral de segmentos da sociedade brasileira, em espacial de suas classes dominantes. Em um país marcado, a ferro e fogo, por fortes carências e enormes privilégios, as classes dominantes não se contentam apenas em manter seus imensos privilégios em todos os âmbitos da sociedade brasileira, mas buscam incessantemente ampliá-los, por meios legais e ilegais, ocasionando o aumento desenfreado das desigualdades econômico-social-educacionais; a ampliação da violência seletiva contra os subalternos, que não aceitam tal condição, e contra mulheres, negros, indígenas, comunidades LGBTQIA+ e outros segmentos oprimidos da sociedade brasileira. Mas o escândalo Master não é somente um escândalo ético-moral.
O escândalo Master é um escândalo Master. Ele é sistêmico. Ele corrói e expõe, com toda brutalidade, as entranhas podres da sociedade capitalista brasileira, de suas classes dominantes e de suas capilaridades societárias. O enfrentamento impiedoso do escândalo Master é condição imprescindível da luta pela consolidação de uma democracia ampliada no país, que garanta justiça e justiça social para todos os brasileiros.
Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
