Sonhos de uma noite de São João. Por Zuggi Almeida
Zeca acordou ainda sonolento por conta das doses sem conta de licor de maracujá entornado na noite anteriror
A mala arrumada estava em frente ao guarda roupas
Misturado ao som da água do chuveiro chegou aos ouvidos os versos de uma canção bem conhecida.
” Foi numa noite igual a esta/ Que tu me deste o coração/ O céu estava assim em festa /pois era noite de São João….” – a voz era conhecida.
A cabeça de Zeca voltou no tempo, indo parar nos 16 anos de idade, justo na noite de São João.
Zeca em frente a fogueira vendo a dança nervosa das laberadas devorando a lenha seca. A melodia vindo do carramanchão.
” Havia balões no ar/xote, baião no salão/e no terreiro do teu olhar/que incendiou meu coração”.
Veio o convite de uma voz conhecida.
- Você quer dançar ou vai passar a noite inteira olhando a fogueira?
Zeca viu o pedido feito pra fogueira de São João materializado.
Zeca aceitou o convite feito por Rosa e foi dançar forró, beber licor, comer bolo e canjica. Zeca cheio de coragem convidou Rosa para ser comadre de fogueira.
O acordo foi selado e durou sete anos até Zeca partir pra São Paulo em busca de dias melhores.
Rosa ficou na Bahia com a máquina de costura e a feitura dos doces que garantiam seu sustento.
Zeca foi e deixou Rosa, fogueira, licor, bolo, canjica, forró e promessas feitas.
Empregado da indústria siderúrgica em São Paulo. Ali, Zeca entendeu que a boca da fornalha soprava chamas do inferno da vida difícil de um sertanejo num mundo de ferro e aço.
Em São Paulo, São João não chega, nem tem noites com sonhos de estrelas e balões.
Zeca retornou.
Sentado na cama quinze anos depois, bem acordado viu passar o filme da noite recente com Rosa, o forró, a fogueira, bolos, canjicas e licores.
Veio o convite de uma voz reconhecida:
- Rosa você quer casar comigo ? A melodia do banho no chuveiro celebravam:
“Olha pro céu, meu amor / Vê como ele está lindo…”
No terreiro, as cinzas ainda quentes da fogueira celebravam mais uma brincadeira junina que acabou dando certo.
São sonhos de uma noite de São João.
Zeca e Rosa tornaram-se mais que compadres para sempre.
Zuggi Almeida é um escritor baiano.
