Caminhada Parada. Por Jorge Papapá
Sempre admirei aquelas pessoas que acordam antes do sol para caminhar. Gente disciplinada, de tênis reluzente, garrafinha na mão e determinação estampada no rosto. Eu, ao contrário, sempre fui um caminhante eventual. Dava minhas voltas pelo bairro, percorria uma ou outra rua próxima de casa e, quando muito, me aventurava até a esquina mais distante.
Mas amizade é um negócio perigoso.
Foi assim que, num determinado ano, meu amigo Antonio Ruben Marques — conhecido por todos como Leguelé Du Sanctus Amarus — me convenceu de que caminhar alguns quarteirões era pouco para dois homens que ainda se julgavam donos da própria resistência física.
— Vamos andando de Itapoan até o Porto da Barra.
Ele falou com a naturalidade de quem propõe atravessar a sala para buscar um copo d’água.
E eu, sem fazer as contas da distância nem consultar os joelhos, aceitei.
Partimos cedo, cheios de entusiasmo, coragem e uma absoluta falta de noção.
No início, tudo era festa. O mar nos acompanhava pela direita, a brisa soprava generosa e nós seguíamos conversando, fazendo planos, lembrando histórias e acreditando que éramos atletas escondidos dentro de corpos comuns.
Mas foi ali, entre Pituaçu e Boca do Rio, que a realidade resolveu se apresentar.
Primeiro vieram os silêncios.
Depois, a respiração pesada.
Em seguida, aquela sensação de que os pés haviam adquirido personalidade própria e estavam revoltados com o restante do corpo.
Foi quando Leguelé começou a demonstrar sinais evidentes de que a aventura tinha ultrapassado os limites da empolgação.
Na altura de Amaralina, ele passou a recolher pequenos galhos com folhas pelo caminho e os encaixava entre o short e a barriga.
Perguntei o motivo.
Com a dignidade de um guerreiro ferido, respondeu:
— É o facão.
Na Bahia, todos sabem o que é dor de facão. É aquela pontada traiçoeira que aparece durante uma caminhada ou corrida e faz a pessoa se curvar como quem procura uma moeda perdida no chão.
Não sei como chamam isso em outros lugares. Talvez tenha nome científico, talvez tenha explicação médica.
Mas nenhuma definição é tão precisa quanto a baiana:
Facão.
Porque dói exatamente como o nome sugere.
Mesmo assim, Leguelé não desistia.
Ia vermelho.
Suando.
Gemendo discretamente.
Mas seguia.
E eu, para não ficar atrás, fingia estar inteiro, embora meu organismo já estivesse enviando cartas de protesto para todos os órgãos internos.
Quando chegamos a Ondina, éramos dois sobreviventes.
A língua de fora.
Os joelhos negociando rendição.
A coluna ameaçando pedir demissão.
Mas a teimosia continuava firme.
Finalmente alcançamos o Porto da Barra.
Quem nos viu chegando não enxergou dois caminhantes.
Viu os destroços deles.
Sentamos numa barraca de praia para celebrar a conquista.
Pedimos cervejas estupidamente geladas.
Acreditávamos que aquilo restauraria nossas energias.
Não restaurou.
Piorou.
Muito.
Depois da segunda gelada compreendemos uma verdade universal:
Existem jornadas que só funcionam na ida.
A volta era uma impossibilidade física, espiritual e filosófica.
A solução foi ligar para minha mulher e pedir socorro.
Enquanto esperávamos o resgate, observávamos o mar com a solenidade de dois exploradores que haviam descoberto um continente.
Ela chegou.
Nos recolheu.
E levou de volta para Itapoan aqueles dois atletas aposentados antes mesmo de estrearem.
Depois daquela experiência, chegamos a uma conclusão científica:
Uma caminhada dessas só deveria ser realizada uma vez por ano.
E assim nasceu uma tradição.
Durante muitos anos, todo dia 31 de dezembro, lá estávamos nós.
Itapoan.
Porto da Barra.
O mesmo percurso.
A mesma loucura.
O mesmo espírito de amizade.
Era nossa terapia de fim de ano.
Nossa maneira de agradecer ao tempo.
Nossa celebração da vida.
E a volta…
Bem, a volta continuava sendo assunto para Deus resolver.
Quando Leguelé partiu para caminhar por outras estradas, aquelas que os olhos não alcançam, senti que a tradição não podia acabar.
Passei então a repetir o percurso em sua homenagem.
Batizei o evento de Caminhada Leguelé.
Mandei fazer camisas.
Convidei amigos.
Compartilhei histórias.
E foi bonito perceber quantas pessoas aceitaram vestir literalmente a camisa da amizade.
Cada passo carregava uma lembrança.
Cada sorriso trazia de volta um pedaço de Leguelé.
Cada abraço fazia sua presença reaparecer entre nós.
Mas o tempo também caminha.
E, em determinado momento, percebi que o trajeto de Itapoan ao Porto da Barra já não cabia nas pernas de muita gente.
Nem nas minhas.
Foi então que surgiu uma solução digna do próprio homenageado.
Transformei a Caminhada Leguelé em Caminhada Parada Leguelé.
Nome perfeito.
Porque Leguelé sempre soube que o mais importante não era chegar.
Era reunir.
Passamos a nos concentrar na Praça Vinicius de Moraes, em Itapoan.
Ali chegaram músicos, compositores, artistas, amigos, boêmios, sonhadores e companheiros de estrada.
Chegaram pessoas trazendo memórias no coração.
Chegaram risadas.
Canções.
Abraços.
Histórias.
E a caminhada aconteceu.
Sem sair do lugar.
Porque existem percursos que não precisam de quilômetros.
Existem jornadas que acontecem dentro da lembrança.
E existem amigos que continuam caminhando ao nosso lado mesmo depois que desaparecem na curva do tempo…
Todo dia 31 de dezembro, nos reuníamos para celebrar Antonio Ruben Marques, o eterno Leguelé Du Sanctus Amarus. Eu compreendi que algumas caminhadas não terminam na estrada; seguem vivas na memória e na amizade.
Apenas mudam de caminho.
E seguem adiante, passo por passo, dentro da saudade.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano


Seus textos são um portal com um corredor espiralar de memórias que nos leva diretamente para o lugar onde a vida é. Obrigada.