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Sonzaço! Chico Buarque: o drible e a canção em 11 atos. Por Renato Queiróz

20 - 28 minutos de leituraModo Leitura

Chico Buarque, esse presente que a cultura brasileira ganhou em 19 de junho de 1944, fez com o futebol o que poucos artistas ousaram: não só cantou sobre o esporte, transformou-o.

O gramado virou oferenda, o drible virou poesia, a poesia virou drible, e a bola se fez metáfora da alma.

Senta que lá vem História!

ATO I: O nascimento, a arte, o futebol e a música

Francisco Buarque de Hollanda nasceu na cidade do Rio de Janeiro, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia.

Cresceu cercado por arte e intelecto.
Mas foi nos campos de várzea, tentando imitar os dribles de Pagão e Canhoteiro, que aprendeu a gingar entre a dor e a delicadeza, essa mistura que só ele tem.

E, não tem jeito: quando a data do seu aniversário chega, sublima o barulho no silêncio, o som e o tráfego passeando pela praça, nas ruas, pelas janelas, por de baixo da porta, pela sala, pelos lençóis, pela cozinha, campos e quintais.

Chico é um cara de tanta coisa: poeta, músico, compositor, escritor, dramaturgo, ator, cidadão de posição firme, apaixonado por futebol, torcedor declarado do Fluminense, time que herdou da mãe e levou para a vida.

E do Polytheama, seu eterno de coração. Mas o que importa mesmo é que ele é dos nossos. Dos maiores que o Brasil já pariu.

Palavras não faltam pra falar dele, claro, mas o melhor é sentir: cada verso, cada prosa, cada silêncio na gente, faz a cabeça girar e o coração apertar, mas daquele aperto bom, que vem seguido de um sorriso acanhado e muitas vezes escrachado. Sua obra cruza gerações ao misturar crônicas poéticas do cotidiano, lirismo profundo e um papel histórico que poucos artistas ousaram ocupar.

Chico Buarque, esse visionário da arte, transcendeu os limites da música e da literatura.

Na sua brasilidade e universalidade, suas palavras, acordes e notas musicais, nos faz refletir sobre a vida, o amor e a condição humana.

ATO II: A poética dos gramados

O futebol e a Música Popular Brasileira sempre jogaram no mesmo time. Tabelam com uma naturalidade que só duas das maiores paixões do nosso povo explicam. E se há um maestro que soube como poucos vestir as duas camisas com a mesma elegância, esse alguém é Chico Buarque de Holanda.

A paixão de Chico pelo futebol não é mero passatempo; é matéria-prima de sua arte, um espelho da própria identidade nacional. Mais do que um torcedor – e fundador do mítico Politheama (ou Polytheama), seu time de várzea, quase uma instituição sagrada, Chico transformou o gramado em palco e a bola em metáfora da própria vida.

Em “O Futebol”, canção de 1989, Chico promove uma ousada equiparação estética: o futebol não é apenas um esporte, é uma manifestação das Belas Artes.

Questiona qual pintor, compositor ou pinacoteca seria capaz de reproduzir o brilhantismo de um chute preciso: “Para aplicar uma firula exata, que pintor? Para emplacar em que pinacoteca, nega, pintura mais fundamental que um chute a gol com precisão de flecha e folha seca?” No refrão, escala sua seleção ideal da história: Mané Garrincha, Didi, Pelé, Pagão e Canhoteiro, uma linha de ataque que nunca existiu junta na vida real, mas que no universo poético de Chico dança com a mesma ginga do samba.

O termo “folha seca” é uma menção direta ao chute inventado por Didi, em que a bola subia e caía de surpresa. O santista Pagão e o ponta-esquerda Canhoteiro eram os grandes ídolos de infância de Chico. Quando garoto, tentava imitar o estilo deles nos campos de várzea. O futebol, para ele, nunca foi mero entretenimento: era escola de vida, caderno de poesia.

ATO III — Da Pelada de Rua à Ode ao Drible

Se o Brasil é futebol e a pátria das chuteiras, como definiu Nelson Rodrigues, o cronista das chuteiras imortais revelou o Brasil como a nação do futebol, num misto de paixão e crítica que atravessa gerações.

Chico Buarque é o cronista que transformou a chuteira em música e nação. E foi justamente dessa matéria-prima: o drible, a ginga, a poeira do campo, que Chico extraiu muitas de suas mais belas canções.

Quase três décadas depois, em “Jogo de Bola”, do álbum Caravanas (2017), Chico revisitou o tema. Se a música de 1989 foca no profissionalismo genial dos craques históricos, “Jogo de Bola” é uma ode à pelada de fim de semana.

A letra desconstrói a burocratização moderna do esporte para resgatar o lirismo do drible de rua, numa melodia que incorpora termos técnicos e gírias: “perder a linha”, “fazer embaixadinha”, “matar no peito”.

“Há que levar um drible por entre as pernas sem perder a linha no jogo de bola. Há que aturar uma embaixadinha, deveras, como quem tira o chapéu para a mulher que lhe deu o fora”. Em seus temas, melodias, harmonias e letras, percebemos camadas profundas de significado na sua inspiração e transpiração.

A resiliência de levar um drible e aturar uma embaixadinha, sugere que, tanto no campo quanto na vida, é preciso manter a compostura diante das dificuldades.

A cultura e a alegria se manifestam nas obras de Chico de muitas formas, e é assim na distinta conexão entre o futebol e o samba, evocando a filosofia de botequim e a capacidade de manter o otimismo, mesmo nos momentos difíceis. Essa filosofia de botequim, tão cara a Noel Rosa, encontra em Chico Buarque seu mais legítimo herdeiro.

O próprio Chico já se confessou discípulo de Noel Rosa, reconhecendo no Poeta da Vila não apenas um predecessor, mas um mestre que lhe ensinou a arte de transformar o cotidiano em poesia sem perder o pé no chão da rua.

É no balcão, na mesa, na varanda, na conversa fiada, na torcida que o futebol e o samba se encontram para lembrar ao brasileiro que, apesar de tudo, ainda há beleza no drible e poesia na ginga.

Como canta Noel em “Conversa de Botequim”: “Vá perguntar ao seu freguês do lado qual foi o resultado do futebol”. A urgência da informação esportiva se sobrepõe até ao pedido de comida, revelando que o futebol é o verdadeiro alimento da alma brasileira.

O botequim é o palco da resistência cotidiana, onde a malandragem não é crime, mas sobrevivência, e onde o resultado do jogo pode ser mais importante que o noticiário político. Herdando de Noel essa crônica irônica e afiada, Chico atualiza o olhar do mestre para os novos tempos, mantendo viva a tradição do samba que observa, critica e celebra o Brasil.

ATO IV – Um Puskás eras, a fera das feras da esfera

E há nostalgia e evolução quando a música relembra figuras icônicas como Puskás — “Um Puskás eras, a fera das feras da esfera” — e homenageia os torcedores e as torcedoras, contrastando o passado glorioso com a apreciação do jogo atual.

O húngaro citado na famosa expressão é o lendário atacante Ferenc Puskás. A referência exata ao craque como “a fera das feras da esfera” imortalizada na cultura brasileira vem da música “Jogo de Bola” lançado em seu álbum Caravanas (2017).

A escolha de Chico por essa imagem não é casual: Puskás, o “Galopante Major” húngaro, foi o símbolo máximo de uma era heroica do futebol, quando os craques pareciam saídos de uma lenda e o esporte ainda não havia se rendido completamente à lógica do mercado.

O húngaro que marcou 84 gols em 85 partidas pela Hungria, liderou a lendária “Seleção de Ouro” dos anos 1950 e depois brilhou no Real Madrid era, para o menino Francisco que ouvia futebol pelo rádio, a personificação de um futebol que já não existia mais, ou que só existia no imaginário poético.

Críticos interpretam a canção como uma sutil metáfora política: o drible, a malemolência e a criatividade do jogador de rua representam a resistência do cidadão comum contra um sistema rígido e opressor.

Ao evocar Puskás, Chico não está apenas homenageando um grande jogador — está resgatando a memória de um tempo em que o futebol ainda era uma arte de resistência, não um produto de prateleira.

É a mesma nostalgia que perpassa “O Futebol”, a mesma certeza de que a ginga, a malandragem e o drible desconcertante são, no fundo, formas de dizer não ao que aprisiona.

O húngaro das “feras da esfera” não é apenas um jogador do passado; é a prova viva de que o futebol, quando bem jogado, é um ato de liberdade. Como bem observou o pesquisador Sérgio Miranda Paz, a obra de Chico respira futebol como quem respira o ar da rua — e Puskás, nesse contexto, é um dos nomes que ajudam a compor essa atmosfera. Assim, em “Subúrbio” (2006), o futebol não é o centro, mas o cenário indispensável da vida periférica. O campo de várzea surge como o coração pulsante da comunidade, onde a poeira e o suor se misturam à dignidade do trabalhador. É o futebol em sua essência mais pura, longe dos holofotes dos grandes estádios.

ATO V — O príncipe e o Rei

A trajetória de Chico nos gramados e nos bastidores rendeu registros documentais inestimáveis, eternizados no DVD O Futebol (2006), dirigido por Roberto de Oliveira, com produção artística de Vinícius França, fotografia de João Wainer, edição de André Wainer e produção da R.W.R. O DVD mostra o artista jogando futebol em cidades como Santos, Rio, Lisboa, Barcelona, Paris e Budapeste, e exibe uma seleção de jogadas e gols memoráveis.

Um dos grandes momentos desse projeto é o encontro entre Chico Buarque e Rei Pelé. O conteúdo alterna entre momentos de conversa descontraída sobre a carreira esportiva e a interpretação de músicas que exploram o universo do futebol e questões sociais.

Nos destaques do vídeo, Pelé relembra sua trajetória no Santos, mencionando a famosa linha de ataque santista da época, composta por Pelé, Coutinho, Pagão e Pepe, e discute curiosidades sobre sua forma de jogar, como o fato de muitos acharem que ele era canhoto devido à quantidade de gols que marcava com a perna esquerda, além de comentar sobre seus gols de cabeça, outra de suas marcas registradas.

Nesse encontro, Pelé deixou sua marca em uma placa que, sem dúvida, é a mais importante do acervo do Polytheama. A placa registra as pegadas do Rei, um registro simbólico da genialidade de um jogador que confundia adversários com ambas as pernas, a ponto de muitos acharem que ele era canhoto, e hoje é a relíquia mais valiosa do acervo do time de várzea que Chico transformou em instituição sagrada.

A visita do Rei ao campo do time de Chico foi cercada de momentos memoráveis: a conversa descontraída, a cantoria em dueto dos versos de “Preconceito” e a pergunta gaiata de Pelé sobre quantos gols Chico já havia marcado ali. Com a malandragem de quem conhece a arte do drible dentro e fora de campo, Chico respondeu: “Perdi as contas. Até mil, eu contei…” e os dois caíram na gargalhada.

O vídeo culmina com a performance da canção “O Preconceito”, em uma parceria marcante entre Chico Buarque e Toquinho. A letra aborda temas sociais profundos, como o racismo e as desigualdades de classe, usando o futebol e a vivência nas favelas como pano de fundo para refletir sobre identidade e preconceito. Captura a essência do diálogo entre a música popular e a cultura do futebol, elevando o esporte a uma plataforma de reflexão sobre a realidade social do Brasil.

ATO VI – Firulas e reggae

Outro registro antológico mistura os ritmos do reggae, do samba e do futebol. Ocorre quando o lendário músico Bob Marley participou de uma partida de futebol, uma clássica pelada, no campo do Polytheama, localizado no Rio de Janeiro, no Centro Recreativo Vinícius de Moraes, no Km 18 da Avenida Lúcio Costa (antiga Sernambetiba), no Recreio dos Bandeirantes.

O aventureiro encontro aconteceu em março de 1980, quando Marley veio ao Brasil para a inauguração da filial de uma gravadora. Fanático por futebol, o rei do reggae quis jogar uma pelada, e acabou parando no campo de Chico. Fã assumido da geração de 70 da Seleção Brasileira, Bob ficou amigo de Paulo César Caju em uma de suas voltas pelo Rio de Janeiro.

“Rivelino, Jairzinho, Pelé… A Jamaica gosta de futebol por causa do Brasil”, teria dito Marley, dias depois, já em solo brasileiro. Além de Bob Marley e Chico Buarque, o jogo contou com a presença de participantes ilustres como Toquinho, Paulo César Caju, e músicos da banda de Marley, como Junior Marvin e Jim Capaldi.

A partida durou cerca de 20 minutos e terminou com a vitória do time de Bob Marley, com gols marcados pelo próprio Marley e por Chico Buarque. Esse dia a celebração e a alegria de todos os presentes após o gol, destacando a conexão entre a música e o futebol nesse encontro também icônico.

Em outro encontro descontraído, registrado no mesmo DVD, Léo Jaime e Chico conversam sobre futebol e música. No aspecto esportivo e de superação, Chico Buarque compartilha como começou a jogar futebol com um time feminino após uma lesão no tornozelo. Ele comenta sobre a experiência, o espírito esportivo e o aprendizado de jogar de forma leve e divertida, algumas chegavam mais junto, em mim não doía eu até gostava rsrsrsrsrsrs. Fã do futebol feminino, após a conversa, Chico interpreta a belíssima canção “Morena dos Olhos d’Água”.

Chico Buarque nunca separou o futebol da vida. Em “Meu Caro Amigo” (1976), parceria com Francis Hime, a genialidade está no contraste. Escrita sob a opressão da ditadura militar como uma carta em forma de choro enviada ao dramaturgo Augusto Boal, então exilado em Portugal, a canção usa o futebol como metonímia da aparente normalidade: “Aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n’roll”. Chico denuncia como o esporte era instrumentalizado pelo governo para camuflar a violência institucional.

ATO VII – Futebol, resistência e a cortina de fumaça

O futebol como álibi de uma nação que fingia normalidade enquanto sangrava. Sim, lembrou de Gonzaguinha? Foi. E este último período foi proposital. Gonzaguinha e Chico Buarque eram amigos, jogaram futebol juntos e foram mestres em usar a genialidade lírica para driblar a censura. Foi o time da gravadora Ariola que imortalizou a união da MPB com o futebol, duas histórias que se cruzam na resistência e na amizade.

Um dos momentos públicos mais marcantes da dupla – além, por exemplo do Histórico Show da Bomba, mas aí já é outra longa história – aconteceu no dia 1º de junho de 1980, quando eles participaram de uma famosa partida amistosa de artistas da MPB no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. O jogo ocorreu como preliminar da final do Campeonato Brasileiro daquele ano, entre Flamengo e Atlético Mineiro, e reuniu grandes nomes da música popular brasileira em um evento que ficou para a história.
O time, montado pela gravadora Ariola, contava com um verdadeiro escrete de craques da música. Entre os bambas:

No ataque, Chico Buarque, o camisa 9 e capitão do Politheama, comandava as investidas ofensivas. No meio-campo, Gonzaguinha levava a correria com pura intensidade. Gonzaguinha, conhecido pela intensidade na vida, jogava futebol da mesma forma: corria o campo inteiro, dividia todas as bolas na técnica refinada com pura raça.

Ao seu lado, Djavan, ex-jogador profissional das categorias de base do CSA, era o motor do time, trazendo a experiência de quem já conhecia os gramados antes de se consagrar como um dos maiores compositores do país.

Nas pontas, Alceu Valença e Moraes Moreira encantavam com habilidade e dribles rápidos.
Na defesa, Paulinho da Viola exibia a mesma elegância clássica que marcava seus sambas.
E no apoio, Jorge Ben Jor, com seu fôlego de atleta e chute forte, completava a escalação de sonho.

Os bastidores e as piadas da época revelam o clima descontraído que cercava a pelada. Djavan era o “profissional oculto”, ele havia jogado nas categorias de base do CSA em Alagoas e precisava carregar o piano para os companheiros que fumavam e bebiam após os shows.

Chico Buarque, por sua vez, sempre levou o futebol a sério com seu time, o Politheama.

Nos bastidores da Ariola, a piada era que se você quisesse deixar o Chico de mau humor, bastava dar um passe errado para ele ou não passar a bola quando ele estivesse livre.

O cenário era de cinema. O jogo da Ariola foi a preliminar da histórica final do Brasileirão de 1980. Os artistas jogaram com o Maracanã completamente lotado, recebendo o carinho de mais de 150 mil pessoas antes do jogo principal. Era a prova de que, mesmo sob a opressão da ditadura militar, a cultura e o futebol seguiam unidos, como Chico e Gonzaguinha, que driblavam a censura com a mesma ginga que usavam para passar pela marcação adversária. Mais do que uma simples partida, aquele encontro foi um ato de resistência, uma celebração da liberdade em tempos de silêncio, e a demonstração de que a MPB e o futebol, juntos, são forças que nenhum regime consegue calar.

ATO VIII – Pelas tabelas

Nem só de festa vive o futebol na obra de Chico. Na clássica canção, mais atual do que nunca, “Pelas Tabelas”, composta em 1984 e eternizada em performances ao vivo, como a que integra o DVD Vai Passar (lançado em 2005 pela R.W.R, com a mesma equipe técnica de Roberto de Oliveira e João Wainer), o futebol surge como uma metáfora existencial e política. “Ando com minha cabeça já pelas tabelas, claro que ninguém se toca com minha aflição, quando vi todo mundo na rua de blusa amarela”.

A canção explora sentimentos de aflição, confusão mental e observações sobre a rotina urbana e o cotidiano social. A letra faz alusões poéticas a elementos como favelas, o comportamento das pessoas na cidade e, centralmente, o Maracanã, mesclando o íntimo com o coletivo através de uma narrativa fluida que se repete e se transforma.

A imagem da “cabeça rolando no Maracanã”, mencionada repetidamente na letra, é uma metáfora poética potente que simboliza um estado de desorientação, angústia e perda de controle.

Ao associar a própria cabeça a algo que rola em um campo de futebol, Chico Buarque evoca três camadas principais.

O esvaziamento do sujeito, a sensação de estar sendo “jogado” pelas circunstâncias, como uma bola em uma partida, perdendo a lucidez ou a capacidade de gerir os próprios pensamentos.

O palco da multidão e a superexposição: o Maracanã funciona como o palco público por excelência no imaginário brasileiro. Ver a cabeça rolando ali sugere a exposição pública da sua aflição ou do seu descontrole emocional diante de uma multidão, aumentando o sentimento de vulnerabilidade.

O peso da crítica social: a letra conecta essa imagem ao verso “pedir a cabeça do homem que olhava as favelas”. Isso sugere um ambiente de tensão social, onde o descontrole mental também é fruto de uma tensão entre o observador e a realidade social violenta ou problemática da cidade, utilizando o estádio como um “circo” de condenação pública.

Na mesma música, a associação da cor amarela com a angústia e a confusão mental é uma escolha poética rica e ambígua. Embora o amarelo seja frequentemente associado à luz ou alegria, aqui ele ganha contornos de perturbação e desorientação.

Ao descrever “todo mundo na rua de blusa amarela”, o narrador sugere uma visão quase alucinatória.

A cor, sendo vibrante e onipresente, torna-se um elemento que sobrecarrega os sentidos, um estímulo sensorial excessivo, contribuindo para o sentimento de “cabeça pelas tabelas”.

Essa repetição da blusa amarela reforça a ideia de uma obsessão ou fixação mental típica de estados de ansiedade, marcando o sentimento de deslocamento e desconexão do eu lírico com o ambiente coletivo. O amarelo, portanto, torna-se o símbolo de um mundo que ele observa, mas no qual não consegue mais se encontrar confortavelmente.

ATO IX – O Ludopédio: quando a paixão vira jogo

A paixão de Chico pelo futebol é tão inventiva que se transformou em jogo de tabuleiro. Durante seu exílio na Itália, em 1969, ele criou o Ludopédio. Ludopédio quer dizer “jogo com os pés” (ludo = jogo; pédio ou pédico = pés). “O Ludopédio foi criado na Itália em 69, época em que seu autor, evidentemente, não tinha mais o que fazer”, escreveu ele no encarte.

As pessoas conhecem o Chico compositor e escritor, mas pouquíssimas sabem que ele criou um dos primeiros jogos da Grow. Após retornar ao Brasil e ganhar popularidade, o jogo foi lançado comercialmente pela Grow ainda em 1969 (algumas fontes mencionam 1970, mas a maioria aponta o mesmo ano da criação), aproveitando a “futebol mania” do período. O jogo possuía características surpreendentemente modernas para a época.

A estrutura era complexa: o jogo era dividido em duas fases distintas. Na primeira, os jogadores atuam como “cartolas”, negociando a montagem de seus elencos e lidando com burocracias, percorrendo um tabuleiro, tirando cartas e fazendo pagamentos ao banco. Nessa dinâmica, compram-se atletas e formam-se times para a segunda etapa, quando acontece o campeonato nos estádios.

A segunda fase simula uma partida de futebol estratégica, utilizando cartas em vez de apenas dados. Os participantes ficam com cartas na mão indicando lances como passes, faltas e chutes a gol.

Quando ocorre um chute a gol, é virada uma carta de goleiro, que revela se houve sucesso ou não. O jogo segue dessa forma, até que todas as cartas de goleiro sejam utilizadas, e a partida termina.

Os elementos narrativos se destacam: o jogo inclui descrições criativas e “clichês” futebolísticos nas cartas de jogadores, refletindo a paixão de Chico pelo esporte e sua habilidade de contar histórias.

Chico criou níveis de excelência e perfis para cada atleta fictício, como Jordão, que “se entregou ao álcool e outros vícios e afirma estar regenerado”. Esses perfis, com toques de humor e ironia, revelam o refinamento de Chico ao criar um universo próprio dentro do jogo — cada jogador tem uma história, uma personalidade, um defeito ou uma virtude que o torna único. É como se cada carta fosse um personagem de uma crônica, com direito a passado, vícios e redenção.

A natureza do jogo era “sandbox”: o Ludopédio permitia uma grande liberdade aos jogadores, podendo-se ignorar partes do tabuleiro ou realizar campeonatos completos, antecipando tendências modernas de design de jogos. “Aliás, as regras estão aí mesmo para serem desrespeitadas”, escrevera Chico.

Apesar de não ter sido um sucesso comercial duradouro e de ter tido problemas de design, como a demora na primeira fase, que nem sempre era finalizada pelos jogadores no mesmo dia em que começava, o jogo é visto hoje como um documento histórico fascinante que une a vida de um dos maiores artistas brasileiros a um momento cultural específico.

A própria Grow decidiu simplificar e lançou em 1982 o Escrete, versão sem a parte semelhante ao Banco Imobiliário, sem pais de santo e sem o nome pomposo que tentou traduzir no Brasil o termo “football”. Mas alguns fãs do jogo original não aprovaram a nova versão, mais econômica e que abolia o lado cômico e satírico inserido por Chico Buarque.

Recentemente, o pesquisador Sérgio Miranda Paz ajudou a resgatar e jogar o Ludopédio no Museu do Futebol para demonstrar como essa obra, apesar de injustiçada comercialmente, trouxe ideias muito à frente do seu tempo. Hoje, nem Chico possui o Ludopédio, conforme informou sua assessoria.

ATO X – O Politheama: do botão ao campo, um amor eterno

Chico Buarque levou seu amor pelo futebol ao nível prático ao fundar, em 1978, seu próprio time amador, o Plolytheama/ Politheama, formado por artistas, músicos e amigos próximos.

Mas a história do Politheama Futebol Clube começou muito antes de existirem chuteiras ou campos de grama na vida do compositor.

Nasceu na infância de Chico, nos anos 1950, sobre as mesas e no chão de madeira da casa de seus pais, em São Paulo, onde ele passava horas jogando botão contra si mesmo, polindo as peças tricolores inspiradas no Fluminense e guardando seus “craques” em caixas de charuto.

O nome “Polytheama” tem origem grega e significa “muito espetáculo”, uma ironia fina do menino Francisco para a qualidade do futebol que ele pretendia apresentar aos olhos do “público”.

E que espetáculo era aquele: nos duelos de botão, o compositor narrava as partidas em voz alta, criava campeonatos inteiros na imaginação e, segundo ele mesmo, acumulou 2600 jogos oficiais, nenhuma derrota, apenas alguns empates, admitia, com o louvor de quem conhece a arte de não perder.

Na juventude, o jogo de botão ficou sério. Existem registros antológicos de Chico Buarque duelando nas mesas de botão contra o humorista Chico Anysio, sob o olhar atento e a arbitragem e até narração do poetinha Vinicius de Moraes.

Para oficializar a grandeza do time de botões, Chico compôs o hino oficial, que se tornaria a trilha sonora daquela paixão: “Politheama, Politheama, o povo clama por você, Politheama, Politheama, cultiva a fama de não perder”. Depois, como ele mesmo explica, os botões “foram promovidos a seres humanos”. Em 1978, o time de várzea virou realidade, e os dois escretes — o de botão e o de gente — continuam na ativa até hoje, como uma instituição sagrada onde a poesia encontra a pelada, onde a caneta e a chuteira se abraçam.

Para a agremiação, o hino oficial que compôs resume o espírito de camaradagem e paixão lúdica que o jogo representa em sua vida pessoal. O time de várzea, uma instituição sagrada, era o palco onde a poesia encontrava a pelada, onde a caneta e a chuteira se abraçavam.

ATO XI – Chico Buarque e o jogo livre

Chico Buarque não é apenas o poeta do futebol. É um dos artistas mais completos que o Brasil já produziu. Em mais de seis décadas de carreira, venceu festivais da canção, atuou no cinema, apresentou programas de TV, escreveu romances, criou peças de teatro para adultos e para crianças, fez trilha sonora para balé, fundou um time de futebol, venceu o Prêmio Camões de literatura em 2019. A obra completa do artista é uma das maiores riquezas que a cultura brasileira produziu até hoje.

No teatro, sua primeira incursão se deu com Roda Viva (1967), encenada em 1968 pelo Teatro Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. Foi um marco da luta pela liberdade artística em meio ao regime militar. Depois vieram Calabar: o elogio da traição (1973), escrita com Ruy Guerra e alvo de um dos maiores crimes contra a liberdade de expressão na história do teatro brasileiro; Gota d’Água (1975), baseada na tragédia grega Medeia de Eurípedes; a Ópera do Malandro (1979); e o musical infantil Os Saltimbancos (1977).

No cinema, Chico atuou em Quando o Carnaval Chegar (1972), de Cacá Diegues, e assinou roteiros e trilhas sonoras para filmes como Bye Bye Brasil, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Eu Te Amo, Vai Trabalhar Vagabundo e a adaptação cinematográfica da Ópera do Malandro (1985). Em 2009, seu romance Budapeste foi adaptado para o cinema, com sua participação especial.

Na literatura, a partir da década de 1990, Chico passou a se dedicar com mais intensidade aos romances. Estorvo (1991) venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 1992. Depois vieram Benjamim, Budapeste (que venceu o Jabuti de Livro do Ano em 2004), Leite Derramado (2009, também vencedor do Jabuti de Livro do Ano), O Irmão Alemão e Essa Gente, livros que exploram memória, identidade, política e relações humanas com a mesma precisão narrativa presente em suas canções.

Para Chico Buarque, o futebol nunca foi mero entretenimento. No Politheama ou no Maracanã, ele enxerga o jogo como um espelho do Brasil: rítmico, imprevisível, por vezes injusto, mas profundamente belo. Suas canções provam que a chuteira e o samba bebem da mesma fonte de inspiração. É a crônica viva de um país que, entre o drama e a poesia, sempre encontra espaço para mais um drible.

Essa conexão com a nossa identidade cultural e com a mística da camisa canarinho e do nosso povo evoca sentimentos profundos em tempos difíceis.

Como muitos de nós sentimos na pele, e como já foi dito por aí, num sentimento que poderia ser dele ou de qualquer um de nós: “Não temos uma seleção com competência, talento e amor como já tivemos. Mas não vou me deixar destruir por esta onda nefasta que tira de nós a beleza, a história e a alegria da nossa cultura. Não consigo vestir a camisa canarinho, mas vou me juntar à família e aos amigos para assistir aos jogos. Sei que não conseguirei não torcer pelo Brasil. Vou torcer porque amo minha gente e não vou deixar destruírem tudo o que temos de bom. Não passarão!”

Mesmo quando a poesia se veste de dor e o eu lírico assume uma postura defensiva diante do mundo, como nos versos doloridos que dizem:

“Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito. Exijo respeito. Não sou mais um sonhador. Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor. E dou risada do grande amor. Mentira…”, sabemos que a sensibilidade de Chico Buarque é o que nos salva da dureza cotidiana.

Aos 82 anos, Chico Buarque segue sendo remodelado, reinterpretado, redescoberto. Seu legado não é uma estátua de bronze, é uma bola que ainda rola, uma canção que ainda ecoa, um verso que ainda nos encontra quando a gente menos espera.

Chico Buarque ofereceu ao Brasil algo maior que qualquer prêmio ou reconhecimento: a certeza de que a poesia pode estar no drible, a resistência no samba, e a beleza na luta de um povo que nunca desiste de sonhar. E no fim das contas, é isso: Chico Buarque não é só um artista. É um jeito de estar no mundo. Um drible na cara do tempo. Uma embaixadinha que a gente aprendeu a aturar e a amar.

Vida longa, Chico. Obrigado por tanto.

Aqui, o hino do Politheama ganha vida em forma de canção. Gravado em parceria com Toquinho, o registro audiovisual eterniza a paixão de Chico Buarque pelo time que começou como brincadeira de botão e se tornou instituição sagrada.

A produção, dirigida por Roberto de Oliveira e com produção artística de Vinicius França, contou com a fotografia de João Wainer, edição de André Wainer e produção da R.W.R, no ano de 2006, integrando o DVD O Futebol como um dos momentos mais afetivos do projeto. A letra do hino, composta por Chico, resume o espírito de camaradagem e paixão lúdica que o jogo representa em sua vida.

SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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