O passado não passou. Por Jorge Papapá
A música tem esse dom misterioso de acender luzes onde a memória já parecia apagada. Basta a primeira nota, um acorde tímido no ar, e de repente o tempo se dobra em respeito. O relógio hesita, a vida suspira — e o instante, aquele instante que julgávamos perdido, se levanta inteiro diante de nós, como se dissesse: “eu ainda estou aqui.”
Quando ouço uma determinada música, não escuto apenas sons. Eu sinto o cheiro daquele dia — o perfume quente da rua depois da chuva, o cheiro de roupa lavada balançando no varal, o aroma tímido de um café passado às pressas antes de sair de casa. Sinto também o gosto: o sal do suor de uma tarde de verão, o gosto doce de um bolo que alguém fez só pra gente, o sabor de um beijo que ficou guardado no céu da boca da lembrança. Cada melodia carrega um pedaço do mundo que vivi, como se fosse possível engarrafar o tempo dentro de um refrão.
E há músicas que carregam memórias tão intensas que atravessam as décadas como faróis acesos.
Quando ouço uma certa canção de Vicente Celestino, a vida me puxa pela mão de volta aos meus oito anos. O pai de Renê — nosso vizinho da Avenida Santo Antônio — havia falecido, e aquela música grave, dramática, parecia descer do céu e se espalhar pelo bairro inteiro. Lembro da sala da casa iluminada por velas, das sombras dançando nas paredes, do cheiro forte de flor misturado ao silêncio pesado da despedida. O corpo do pai de Renê repousava no caixão, e a voz de Vicente Celestino soava no auto falante do bairro como uma prece, como se narrasse o lamento do mundo.
Cinquenta anos se passaram, e ainda hoje, basta um acorde daquela música para que a cena volte inteira, clara, nítida, como se fosse projetada dentro da minha cabeça. Não é lembrança: é filme. É presença. É vida que se recusa a morrer.
E existe outra lembrança marcada por música, tão vívida quanto a primeira, mas com outro sabor.
Toda vez que escuto certa canção antiga que minha mãe gostava de cantar baixinho enquanto arrumava a casa, sinto o sol da manhã bater novamente no chão da sala, vejo o brilho dos móveis encerados, e a casa se enche de uma paz que já não existe mais — aquela paz que só a infância conhece. A voz dela, afinada ou não, era meu abrigo. E hoje, quando a melodia reaparece, sinto como se minha mãe atravessasse o tempo para me tocar o ombro e dizer: “estou aqui.”
É bonito como a vida guarda o que importa em pequenos cofres de som.
E a música faz isso: ela congela o momento sem aprisioná-lo. Guarda, mas não tranca. É como uma porta que se mantém entreaberta, esperando que a gente retorne sem avisar. E quando voltamos a ela, somos imediatamente transportados para aquele lugar do passado onde éramos outros — mais jovens, mais descuidados, mais sonhadores, mais ou menos felizes, não importa. Ali, por alguns segundos, respiramos o mesmo ar, ouvimos as mesmas vozes, reencontramos pessoas que já partiram, revisitamos dores que já não doem tanto, e revivemos alegrias que ainda brilham.
Há músicas que parecem fotografias emocionais: tocam e revelam imagens que o tempo tentou embaçar. Há outras que são verdadeiras cartas enviadas do passado, escritas com acordes, seladas em silêncio, mas sempre prontas para serem abertas de novo. E há aquelas que nos salvam sem alarde — uma canção comum que nos pega pela mão e nos lembra que já superamos tempestades piores, que ainda é possível sorrir, que a vida continua apesar de tudo.
No fim das contas, cada um de nós carrega uma trilha sonora particular. Uma coleção de temas que nos moldaram, que nos sustentaram, que nos contaram histórias que não sabíamos dizer. E às vezes basta pressionar o play para descobrir que dentro da gente ainda existe um território inteiro de memórias vivas, pulsando, esperando para recomeçar.
A música é importante porque nos devolve a nós mesmos — inteiros, frágeis, humanos — e porque nos lembra, a cada acorde, que nada que tenha sido verdadeiramente vivido se perde.
E assim, cada vez que uma música me toca, sinto o passado se ajeitar ao meu lado como um velho amigo.
A vida fica mais leve, o coração mais nítido, e o mundo parece respirar comigo.
Porque no fundo, a música é isso:
um milagre simples, uma fresta de luz,
um sopro capaz de fazer o tempo florescer outra vez.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

