O coração da Bahia bate em couro. Por Jorge Papapá
A primeira música que entrou na minha vida não veio do rádio. Veio da rua.
Era menino quando as charangas desfilavam pelo Largo do Tanque. Antes mesmo de dobrar a esquina, já se ouvia o rumor dos tambores misturado aos metais. Depois surgiam os músicos, impecavelmente alinhados, caminhando como se obedecessem a um coração invisível. Eu ficava parado na calçada, sem dizer palavra, vendo a perfeição daquele conjunto. Um instrumento chamava o outro, um respondia ao outro, e todos pareciam respirar no mesmo compasso.
Naquele tempo eu não sabia que a música também podia ensinar.
Foi ali que aprendi que o ritmo é uma forma de disciplina. Que a emoção também pode ser precisa. Que um tambor, quando encontra outro tambor, faz nascer uma linguagem que dispensa tradução.
Os anos passaram.
Já morava na Alvarenga Peixoto quando Salvador começou a ouvir uma nova pulsação. Os timbaus apareceram como um trovão anunciando outro tempo. Primeiro timidamente, depois ocupando ruas, largos, bairros populares, festas, ensaios de verão e o cotidiano das comunidades. A cidade inteira parecia ganhar outro coração.
Nunca vi alguém bater num timbau.
Vi, sim, homens e mulheres conversando com ele.
As mãos desciam sobre o couro como quem acorda uma memória antiga. Cada toque fazia nascer um timbre diferente. Havia sons que lembravam o mar quebrando nas pedras da Ribeira. Outros pareciam trovões atravessando o céu do Subúrbio. Alguns soavam como gargalhadas de crianças correndo pelas ladeiras do Pelourinho. Outros tinham a profundidade das rezas feitas nos terreiros, onde o tambor nunca foi apenas instrumento: sempre foi voz.
A Bahia aprendeu cedo que o couro fala.
Depois vieram os blocos afro.
Vieram o Ilê Aiyê mostrando que a beleza negra podia desfilar em forma de tambor, o Olodum reinventando a linguagem da percussão e levando o samba-reggae para todos os continentes, o Muzenza, o Malê Debalê, o Cortejo Afro, a Didá ensinando que o tambor também pertence às mulheres, e tantos outros grupos que transformaram ruas em escolas e ensaios em universidades populares.
Cada oficina formava músicos.
Cada bairro revelava mestres.
Cada verão apresentava novos talentos.
A Bahia descobriu que exportava muito mais do que artistas. Exportava uma maneira de sentir o tempo.
Até o rock se rendeu.
Lembro da Banda Mar Revolto, ainda com um jovem Carlinhos Brown transformando qualquer instrumento em extensão do próprio corpo. Lembro de Ary Dias fazendo a percussão dialogar com A Cor do Som, provando que guitarras elétricas também podiam dançar ijexá.
Porque aqui não existe fronteira para o ritmo.
Quem nasce na Bahia cresce ouvindo o vento passar pelas folhas dos coqueiros como se fosse um chocalho. Aprende que o mar bate nas pedras em compasso de samba. Descobre que até a chuva cai marcando tempo.
Dizem que “todo menino do Pelô sabe tocar tambor”.
Talvez porque antes de aprender a escrever o próprio nome já tenha aprendido a bater na carteira da escola, na mesa da cozinha, na lata de manteiga, no fundo do balde ou na palma da mão. A percussão, por aqui, não depende de instrumento. Basta existir silêncio para alguém inventar um ritmo.
E quantos mestres nasceram desse chão…
Meia-Noite levando sua arte aos estúdios do mundo; Gustavo de Dalva; Tony Mola; Vovô Salamanda; Charles Negrita; Orlandinho e Leonardo; Gabi Guedes; Café; Pintado do Bongô; Neguinho do Samba; Mestre Jackson; Bira Reis; Mônica Millet; Sérgio Otanazetra; Jorjão Bafafé; Tostão; Ubaldo Warú; Lula Nascimento; Anunciação e tantos outros que seria impossível enumerar sem esquecer alguém.
São centenas.
Talvez milhares.
Cada um carregando dentro das mãos um pedaço da África, outro da Bahia e outro do futuro.
Quando um percussionista baiano toca em Paris, Nova York, Tóquio ou Joanesburgo, não leva apenas técnica. Leva um modo de existir. Leva séculos de memória guardados dentro de um tambor. Leva os orixás caminhando invisíveis entre as notas. Leva o batuque dos terreiros, o samba das rodas, o ijexá das procissões, o samba-reggae das avenidas, o afoxé que transforma fé em música e música em caminho.
A Bahia não fabrica percussionistas.
Ela os cria como quem cria rios.
Eles brotam naturalmente das ladeiras, dos quintais, das escolas de música, das rodas de capoeira, dos terreiros de candomblé, das festas de largo, dos ensaios de verão, das conversas de esquina e das noites intermináveis em que a cidade parece não dormir para continuar ouvindo seus tambores.
Hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo aquele menino parado no Largo do Tanque.
Ele não sabia que estava assistindo à própria infância ganhar trilha sonora.
Também não imaginava que aqueles sons atravessariam sua vida inteira.
Agora compreendo.
O que eu ouvia não eram apenas instrumentos.
Era a própria Bahia dizendo ao mundo que um povo pode transformar sofrimento em beleza, memória em ritmo e esperança em música.
Porque há lugares onde a história é escrita em livros.
Na Bahia, muitas vezes, ela é escrita em couro.
E continua sendo lida pelas mãos dos percussionistas.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

