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Clarindo Silva. Por Jorge Papapá

5 - 6 minutos de leituraModo Leitura

Há homens que escolhem uma cidade para viver. E há homens que são escolhidos por uma cidade para guardá-la. Clarindo Silva pertence à segunda espécie.

Nascido em Conceição do Almeida, no Recôncavo Baiano, Clarindo chegou a Salvador como quem chega a um livro aberto: disposto a ler suas páginas, mas, sobretudo, a impedir que algumas delas fossem arrancadas pelo tempo. Jornalista, escritor, poeta, compositor e agitador cultural, fez da palavra uma ferramenta de trabalho e da cultura uma forma de resistência. Se a Bahia tem memória, Clarindo aprendeu a conversar com ela.

Há quase sete décadas, no Terreiro de Jesus, ele mantém acesa a chama da Cantina da Lua. E talvez não seja por acaso que o lugar tenha esse nome. A lua, afinal, não abandona a noite: permanece ali, mesmo quando as nuvens tentam escondê-la. Assim também Clarindo. Quando o Pelourinho parecia condenado ao esquecimento, quando suas pedras começavam a carregar mais abandono que história, ele permaneceu.

A Cantina da Lua tornou-se mais que um bar e restaurante. Virou trincheira sem armas, palco sem cortina, escritório sem gravata, confessionário de boêmios, abrigo de artistas, casa de jornalistas, território de músicos e altar de uma Salvador que se recusa a morrer. Ali, entre uma mesa e outra, entre um copo e uma conversa, a cidade discutiu seus destinos.

Clarindo nunca precisou de um palanque muito alto. Seu palanque sempre foi o Terreiro de Jesus. Sua tribuna, a mesa. Seu discurso, a insistência. E sua bandeira, Salvador.

Enquanto muitos enxergavam no Centro Histórico apenas casarões envelhecidos e pedras gastas, Clarindo via veias. Via artérias de uma cidade antiga por onde ainda corria sangue. Via nos azulejos a caligrafia dos séculos, nas portas empenadas a memória das famílias, nas ladeiras a coluna vertebral de uma Salvador que aprendeu a subir e descer carregando o próprio destino.

E foi assim, na insistência quase teimosa de quem ama, que se tornou um dos grandes defensores do Centro Histórico. Segurança, mobilidade, preservação, revitalização: assuntos que poderiam parecer burocráticos ganharam em sua voz a dimensão de uma causa. Porque patrimônio, para Clarindo, nunca foi apenas pedra. Patrimônio é gente. É música. É cheiro. É sotaque. É lembrança. É a capacidade de uma cidade olhar para trás sem deixar de caminhar para frente.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconheceu aquele pedaço de Salvador como patrimônio nacional. A Unesco lhe concedeu o reconhecimento de Patrimônio da Humanidade. Mas, muito antes de qualquer placa oficial, Clarindo já parecia compreender uma verdade simples: uma cidade só permanece viva quando alguém se dispõe a defendê-la.

Talvez por isso sua vida tenha se confundido tantas vezes com a própria história do Pelourinho.

Repórter nos primeiros jornais da Bahia, aprendeu cedo que notícia é o instante tentando escapar do esquecimento. Escritor, transformou a lembrança em permanência. Poeta, descobriu que algumas verdades só cabem em metáforas. Compositor, colocou melodia naquilo que a cidade não conseguia dizer. E agitador cultural — palavra que lhe veste como uma camisa antiga — recusou-se a aceitar a cultura como objeto de vitrine. Cultura, para ele, é coisa viva: anda pelas ruas, senta à mesa, dança, protesta, canta e incomoda.

Suas palavras também ganharam corpo em Memórias da Cantina da Lua, livro que chega à sexta edição como quem já atravessou muitas noites sem perder o caminho. E sua trajetória foi registrada por Vander Prata na Coleção Gente da Bahia, da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. É como se a própria Bahia, em determinado momento, tivesse decidido escrever o nome de Clarindo em suas margens para que ninguém dissesse, um dia, que ele não esteve lá.

E esteve.

Esteve quando era preciso lembrar que o Pelourinho não é cenário. É personagem.

Esteve quando era preciso dizer que revitalizar não significa apenas pintar fachadas, mas devolver dignidade às ruas.

Esteve quando a cidade precisou de uma voz que não confundisse modernidade com esquecimento.

Talvez seja por isso que as honrarias tenham chegado. Doutor Honoris Causa pela Université Libre des Sciences de L’Homme de Paris. Comenda da Cultura e das Artes pela Universidade das Américas. Medalha Tomé de Souza. Comenda Maria Quitéria. Comenda Zumbi dos Palmares.

São muitas medalhas para um homem que, provavelmente, preferiria uma boa conversa.

Mas há uma distinção que nenhuma universidade concede, nenhuma assembleia vota e nenhuma medalha consegue carregar: a de pertencer à memória afetiva de uma cidade.

Clarindo pertence.

Ele é dessas figuras que parecem ter sido esculpidas pela própria rua. Tem alguma coisa de pedra antiga, de porta colonial, de janela aberta para a madrugada. Sua voz traz o eco dos becos e suas histórias parecem nascer das paredes. Há nele uma Salvador que não cabe nos cartões-postais.

Porque Salvador não é apenas o mar azul, o axé, a baiana de acarajé, a igreja dourada ou o pôr do sol na Baía de Todos-os-Santos. Salvador também é aquilo que insiste depois que a festa termina. É a pedra que permanece depois que o carnaval passa. É a memória que continua acesa quando as luzes se apagam.

E Clarindo é um desses homens que ficam.

Ficam como ficam as igrejas antigas.

Como ficam os versos.

Como ficam as canções que sabemos de cor sem lembrar quando as aprendemos.

Como fica a lua sobre o Terreiro de Jesus.

Talvez o maior segredo de Clarindo Silva seja justamente esse: ele não administra apenas uma cantina. Administra afetos. Guarda histórias. Recolhe lembranças. Protege uma esquina do tempo.

Na Cantina da Lua, cada mesa parece ter uma memória esperando por alguém. Cada parede conhece uma história. Cada madrugada acrescenta uma linha ao livro invisível de Salvador.

E, enquanto houver alguém disposto a contar essas histórias, o passado não será passado.

Será presença.

Por isso, quando a noite cair sobre o Terreiro de Jesus e a lua acender suas lâmpadas sobre as pedras antigas, talvez seja possível ouvir, por trás do rumor das conversas, o coração de uma cidade.

E, no compasso desse coração, a voz de Clarindo.

Uma voz que há quase setenta anos nos lembra que algumas cidades não precisam apenas de moradores.

Precisam de guardiões.

E Clarindo Silva é um deles.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

A TARDE BAIRROS – Pelourinho
Na foto: Clarindo Silva, dono do cantina da Lua
Foto: Shirley Stolze / Ag. A TARDE
Data: 10/06/2025
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